DVD
Divulgação
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| Anatomia:
emoções no tribunal |
Anatomia
de um Crime (Anatomy of a Murder,
Estados
Unidos, 1959. Columbia) No final dos anos 50, o ator James
Stewart era conhecido por interpretar sempre o papel do sujeito
honesto, do tipo que toda mãe gostaria de ter como genro.
Assim, foi chocante para o público vê-lo na pele
de um advogado meio picareta que, a fim de impulsionar sua carreira,
agarra a chance de defender um militar acusado de assassinar o
homem que estuprou sua mulher. Pior: nem o marido é flor
que se cheire, nem a esposa é das mais devotadas. O diretor
austríaco Otto Preminger, que já vinha de uma série
de filmes polêmicos
(como
O Homem do Braço de Ouro,
em que Frank Sinatra vivia um viciado em heroína), se superou
nesse trabalho. Palavras fortes e temas como violência sexual
eram tabu no cinema americano da época, mas Preminger os
aborda sem subterfúgios. Atenção, por exemplo,
à seqüência em que Stewart discute se houve
ou não clímax sexual durante o estupro. Embora não
causem mais escândalo, cenas como essa não perderam
sua força, graças às interpretações
de primeira, à direção contundente e ao roteiro
imbatível os diálogos são de deixar
envergonhado até o mais habilidoso dos escritores atuais.
De bônus, Duke Ellington, que fez a trilha, também
aparece em cena.
LIVROS
Intimidade,
de Hanif Kureishi (tradução de Celso Nogueira; Companhia
das Letras; 114 páginas; 19,50 reais) O tema de
Hanif Kureishi sempre foi a Inglaterra "multicultural". Em roteiros
como o do filme Minha Adorável
Lavanderia, ou em romances como
O Álbum Negro,
ele aborda os conflitos entre ingleses e imigrantes, e mistura
citações dos universos erudito e pop. Intimidade
foge à regra. Fala de um homem que resolve abandonar a
mulher e dois filhos. Kureishi, recentemente, viveu a mesma situação.
Ele não faz de seu protagonista nem um monstro nem um mártir.
Confere-lhe anseios legítimos, mas também entrega
alguns segredinhos sujos da psiquê masculina. Esta novela
pode não causar tanto riso quanto os outros livros do autor,
mas tem força e é mais reveladora do que muitos
tratados de psicologia.
A
Revolução dos Bichos,
de George Orwell (tradução de Heitor Aquino Ferreira;
Editora Globo; 118 páginas; 14 reais) O inglês
George Orwell escreveu esta pequena fábula política
em 1945, para criticar os rumos tomados pelo regime soviético.
O livro logo alcançou enorme notoriedade, tornando-se uma
das mais eficazes denúncias do "socialismo real". Como
toda boa alegoria, no entanto, esta também pode ser lida
sem que se tenha em mente eventos de uma época específica.
Afinal, os animais domésticos que se libertam de um cruel
granjeiro apenas para criar, em seguida, seus próprios
métodos de opressão, representam muito bem todos
aqueles que já traíram ou ainda vão trair
um ideal político. Lançado no Brasil pela primeira
vez em 1964, o livro recebe agora uma nova e embelezada edição.
A tradução também foi revista, para tornar
a leitura mais fluente.
DISCO
Fragments
of Freedom, Morcheeba (WEA)
Certos grupos nasceram para se dar bem em qualquer estilo musical.
É o caso do trio inglês Morcheeba. Ele surgiu em
1995, apostando num estilo chamado trip hop. O gênero misturava
as batidas eletrônicas do rap com a eterna melancolia dos
ingleses. Com suas músicas lânguidas, o Morcheeba
conseguiu notoriedade, principalmente por causa dos belos vocais
da americana Skye Edwards aliás, a crítica foi
injustamente maldosa quando a definiu como uma "Sade Adu movida
a calmantes". Fragments of Freedom,
novo lançamento do trio, é bem mais ensolarado.
Eles trocaram o trip hop por ritmos dançantes, como o funk
e a disco music. Skye, agora, brilha em canções
como Rome Wasn't Built in a Day
(a melhor do disco) e a ultradançante Shallow
End.
CINEMA
Bater
ou Correr (Shanghai
Noon, Estados Unidos, 2000. Estréia
nesta quinta-feira em São Paulo e Rio de Janeiro) Jackie
Chan é o maior astro de Hong Kong. No entanto, sua simpatia
genuína e agilidade assombrosa são apenas dois dos
pontos fortes da comédia Bater
ou Correr cujo título
parodia o de Matar ou Morrer,
um clássico do faroeste protagonizado por Gary Cooper.
Com diálogos saborosos, muito acima da média das
produções do gênero, a fita traz Chan no papel
do guarda imperial Chon Wang (que soa, não por acaso, como
John Wayne), encarregado de buscar a princesa fujona Pei Pei nos
Estados Unidos. Atrapalhado como ele só, Chan se mete em
confusões com bandidos, índios e xerifes. Mas prova
que quem é bamba nas artes marciais não precisa
de revólver. Até sua trança ele usa nas inacreditáveis
cenas de luta, filmadas sem truques nem retoques de computador.
Como nenhum caubói que se preze cavalga sozinho, Chan aparece
aqui muito bem assessorado por Owen Wilson, roteirista de filmes
independentes e comediante inspirado. Com sua cara de surfista
e seu pendor para a falação, Wilson é o complemento
ideal para o astro chinês neste western-chop suey, uma mistura
bem dosada de comédia de Charlie Chaplin, faroeste e filme
de ação de Hong Kong.
| OS
MAIS VENDIDOS Crítica |
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Outdoors
enigmáticos antecederam o lançamento de Morcegos
Negros (Record,
418 páginas, 28 reais). A julgar pelos cartazes,
viriam aí novidades fortes sobre o esquema de corrupção
gerenciado por PC Farias no governo de sua cara-metade,
Fernando Collor de Mello. Por causa dessa campanha publicitária
esperta, e sobretudo pelo fascínio perverso que esse
capítulo recente da história brasileira continua
a exercer, o livro do jornalista Lucas Figueiredo vendeu
como pãozinho quente tão logo chegou às
prateleiras. Foi direto ao topo da lista dos mais vendidos
de VEJA, na categoria de não-ficção.
Repórter do jornal Folha
de S. Paulo, Figueiredo fez
um trabalho de investigação respeitável.
Mas é preciso esclarecer desde logo: sua obra é
feita mais de detalhes do que de grandes revelações.
Juca Varella
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| Figueiredo:
detalhes dos bastidores do esquema PC |
Morcegos Negros o
título alude ao notório jatinho de PC contém
minúcias que tiveram pouco ou nenhum espaço
na cobertura diária da imprensa. Algumas são
meramente pitorescas. É o caso da passagem lúgubre
em que o velório de Suzana Marcolino é descrito.
Ficamos sabendo que o irmão da namorada de PC, num
gesto dramático, arrancou o véu da defunta,
à procura de hematomas comprometedores. Outras são
mais relevantes. Figueiredo, por exemplo, escarafunchou
até onde foi possível as operações
financeiras de PC. Ele teve acesso a complexos fluxogramas
de contas bancárias mantidas pelo empresário
em diversos países. No entanto, é bom que
se diga, não conseguiu estabelecer ligações
críveis entre o tesoureiro de Collor, a máfia
italiana e o narcotráfico. Ao fim e ao cabo, o autor
acumula detalhes, mas isso talvez não seja suficiente
para manter o leitor comum grudado no livro até a
última página.
Marcelo
Marthe
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