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Bom para os bancos

"Justamente quando se fala em reduzir o Risco Brasil, começou nesta semana novo movimento para impedir a concorrência e aumentar o risco: o Plebiscito Nacional da Dívida Externa"

 

Ilustração Ale Setti


O Brasil não é um país capitalista, pelo contrário, somos um país "trabalhista". Temos mais mão-de-obra que capital, razão pela qual nossos salários são tão baixos e nossos juros tão elevados.

Os países desenvolvidos normalmente são capitalistas. Devido à ética protestante da poupança individual para a velhice, eles têm mais capital que mão-de-obra. Por isso, os juros são baixos e os salários elevados. Qualquer pessoa consegue um empréstimo barato e monta um negócio, empregando outras cinco ou mais pessoas. Emprego não falta. Nós, infelizmente, possuímos uma previdência socializada que não tem fundos, e sim um enorme déficit.

A maioria dos intelectuais brasileiros, por alguma razão, sempre foi contra a dívida externa, que é a poupança mais barata disponível para o Brasil, justamente por ser contraída em países onde o capital é abundante. Constantemente querem repudiá-la, fazem passeatas em frente ao Citibank, são contra o FMI, e assim afugentam como podem a poupança que nos custaria 3% de juros reais ao ano mais o Risco Brasil, que eles próprios acabam fazendo aumentar. A simples menção de moratória por um candidato já aumentou o custo de nossas dívidas para depois de 2002. Imaginem se ele for eleito. Contrair mais dívidas gerando empregos, nem pensar.

Como conseqüência imediata, ficamos à mercê dos banqueiros nacionais, que até recentemente cobravam 3% de juros ao mês e que pulam de alegria cada vez que nossos intelectuais, o PT ou o MST falam em repúdio à dívida e moratória, porque isso afasta a concorrência. Noventa e cinco por cento dos 1.200 bancos que emprestavam para o Brasil em 1970 não mais o fizeram depois da moratória de 1987.

O chamado milagre econômico brasileiro de milagre não tinha absolutamente nada. Era simplesmente o acesso generalizado ao capital/dinheiro a juros baratos. A Resolução nº 63 de 1967 iniciava o desmonte do monopólio financeiro nacional, permitindo às empresas brasileiras acesso a 14.000 bancos no mundo e à poupança internacional, disponível até então somente para as multinacionais, que cresciam mais que as empresas nacionais.

Os banqueiros nacionais não ficaram muito contentes com essa nova concorrência. Para sua felicidade, porém, de tempos a tempos recebem ajuda, como a do professor Celso Furtado. Em 1983 o economista mais respeitado do Brasil escreveu um livro Não à Recessão e ao Desemprego (Editora Paz e Terra), conclamando a nação à moratória. Era tudo que nossos banqueiros queriam: voltarmos a depender dos juros altos em vez de ter acesso aos juros baixos dos países que têm liquidez em excesso.

A moratória de 1987 foi o início de mais de uma década perdida, condenados que fomos a pagar juros que chegaram a 3% ao mês em vez dos 3% ao ano que pagávamos na época.

Foi também o início da década de ouro para os bancos brasileiros. Segundo o Procon, em agosto de 2000 os empréstimos pessoais ainda custavam 50% ao ano, e o cheque especial 8% ao mês. Justamente quando se fala em reduzir o Risco Brasil, começou nesta semana novo movimento para impedir a concorrência e aumentar o risco: o Plebiscito Nacional da Dívida Externa. Mais uma ajuda ao capitalismo brasileiro.

O problema de nossa dívida é que 85% dela foi contraída pelo Estado, "administrada" por intelectuais e professores inexperientes, e o dinheiro sumiu. Eles Gastam, Nós Pagamos é o apropriado subtítulo da cartilha da CUT sobre dívida externa (Editora Loyola), usando um slogan tipicamente neoliberal para criticar o Estado.

Portanto, quem for contra empresas brasileiras voltarem a captar empréstimos de fora a juros de 3% ao ano, e taxa de risco de 1%, que apóie essa nova campanha do Plebiscito. O MST e a Febraban agradecem.

 

 

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