Stephen
Kanitz é administrador
(www.kanitz.com.br)
Bom para
os bancos
"Justamente
quando se
fala em reduzir o Risco Brasil, começou nesta semana
novo movimento para impedir a concorrência e aumentar o
risco: o Plebiscito Nacional da Dívida Externa"
Ilustração Ale Setti
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O Brasil não é um país capitalista, pelo
contrário, somos um país "trabalhista". Temos mais
mão-de-obra que capital, razão pela qual nossos
salários são tão baixos e nossos juros tão
elevados.
Os países desenvolvidos normalmente são capitalistas.
Devido à ética protestante da poupança individual
para a velhice, eles têm mais capital que mão-de-obra.
Por isso, os juros são baixos e os salários elevados.
Qualquer pessoa consegue um empréstimo barato e monta um
negócio, empregando outras cinco ou mais pessoas. Emprego
não falta. Nós, infelizmente, possuímos uma
previdência socializada que não tem fundos, e sim
um enorme déficit.
A maioria dos intelectuais brasileiros, por alguma razão,
sempre foi contra a dívida externa, que é a poupança
mais barata disponível para o Brasil, justamente por ser
contraída em países onde o capital é abundante.
Constantemente querem repudiá-la, fazem passeatas em frente
ao Citibank, são contra o FMI, e assim afugentam como podem
a poupança que nos custaria 3% de juros reais ao ano mais
o Risco Brasil, que eles próprios acabam fazendo aumentar.
A simples menção de moratória por um candidato
já aumentou o custo de nossas dívidas para depois
de 2002. Imaginem se ele for eleito. Contrair mais dívidas
gerando empregos, nem pensar.
Como conseqüência imediata, ficamos à mercê
dos banqueiros nacionais, que até recentemente cobravam
3% de juros ao mês e que pulam de alegria cada vez que nossos
intelectuais, o PT ou o MST falam em repúdio à dívida
e moratória, porque isso afasta a concorrência. Noventa
e cinco por cento dos 1.200 bancos
que emprestavam para o Brasil em 1970 não mais o fizeram
depois da moratória de 1987.
O chamado milagre econômico brasileiro de milagre não
tinha absolutamente nada. Era simplesmente o acesso generalizado
ao capital/dinheiro a juros baratos. A Resolução
nº 63 de 1967 iniciava o desmonte do monopólio financeiro
nacional, permitindo às empresas brasileiras acesso a 14.000
bancos no mundo e à poupança internacional, disponível
até então somente para as multinacionais, que cresciam
mais que as empresas nacionais.
Os banqueiros nacionais não ficaram muito contentes com
essa nova concorrência. Para sua felicidade, porém,
de tempos a tempos recebem ajuda, como a do professor Celso Furtado.
Em 1983 o economista mais respeitado do Brasil escreveu um livro
Não à Recessão e ao Desemprego (Editora
Paz e Terra), conclamando a nação à moratória.
Era tudo que nossos banqueiros queriam: voltarmos a depender dos
juros altos em vez de ter acesso aos juros baixos dos países
que têm liquidez em excesso.
A moratória de 1987 foi o início de mais de uma
década perdida, condenados que fomos a pagar juros que
chegaram a 3% ao mês em vez dos 3% ao ano que pagávamos
na época.
Foi também o início da década de ouro para
os bancos brasileiros. Segundo o Procon, em agosto de 2000 os
empréstimos pessoais ainda custavam 50% ao ano, e o cheque
especial 8% ao mês. Justamente quando se fala em reduzir
o Risco Brasil, começou nesta semana novo movimento para
impedir a concorrência e aumentar o risco: o Plebiscito
Nacional da Dívida Externa. Mais uma ajuda ao capitalismo
brasileiro.
O problema de nossa dívida é que 85% dela foi contraída
pelo Estado, "administrada" por intelectuais e professores inexperientes,
e o dinheiro sumiu. Eles Gastam, Nós Pagamos é
o apropriado subtítulo da cartilha da CUT sobre dívida
externa (Editora Loyola), usando um slogan tipicamente neoliberal
para criticar o Estado.
Portanto, quem for contra empresas brasileiras voltarem a captar
empréstimos de fora a juros de 3% ao ano, e taxa de risco
de 1%, que apóie essa nova campanha do Plebiscito. O MST
e a Febraban agradecem.