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Roberto Pompeu de Toledo

Dois séculos de incompreensão

Ou: o diálogo de surdos entre os EUA e a América Latina, de Thomas Jefferson a Bill Clinton

O leitor quer a prova provada de que as Américas não estão preparadas para a Alca, a associação de livre comércio que, segundo projeto dos Estados Unidos, uniria os países do continente do Alasca à Patagônia? Então volte a 1816. Volte a Thomas Jefferson. Evidencia-se ali a incompreensão que, já desde então, e ainda hoje, frustra as tentativas de estreitar as relações entre o norte do continente, anglo-saxão e rico, e o sul, ibérico e pobre. Chegaremos a Jefferson. Antes, já que o assunto é a união entre países, pensemos no segredo do sucesso daquela que é a mais modelar empreitada do gênero: a que reúne os países europeus na entidade hoje chamada União Européia.

Qual é esse segredo? É a igualdade. Ela caracteriza uma novidade e tanto, em termos históricos. Juntar países, ou tentar juntá-los, é algo que existe desde sempre. Não foi outra coisa o que Roma fez, na Antiguidade, ou depois a Inglaterra, ou o que tentaram fazer Napoleão e Hitler. Só que a isso não cabe, como ao atual empreendimento europeu, o dócil nome de "união". Cabe o nome de "império". Eram ajuntamentos baseados na força e dividiam os países entre conquistadores e conquistados. Depois de séculos de rivalidades, intrigas, guerras e hecatombes diversas, provocadas pelo desejo de dominarem uns aos outros, os europeus enfim houveram por bem optar pela associação em pé de igualdade. Pela primeira vez, países se juntavam por consentimento mútuo, e a salvo do antigo modelo da dominação.

Estas considerações vêm a propósito de dois eventos da semana passada – a visita do presidente Clinton à Colômbia e a inédita reunião dos presidentes sul-americanos, em Brasília. Clinton foi à Colômbia para levar a ajuda de seu governo, de quase 1,5 bilhão de dólares, a um megaplano de combate à guerrilha e ao narcotráfico naquele país. Em Brasília, por iniciativa do Brasil, ensaiava-se dar algum conteúdo político à realidade geográfica que é a América do Sul. Ambos os eventos traziam à baila a questão da colaboração entre países americanos e, mais especificamente, apontavam para as dificuldades que a Alca dos sonhos de Washington tem pela frente. Em Brasília, ao se reunirem os sul-americanos, e só eles, a mensagem era um alto-lá às pretensões dos EUA. Que o grandão esperasse. Os pequenos primeiro querem se acertar entre si.

Mas era o evento de Bogotá que mais emblematicamente ilustrava quanto, na América, se está distante da igualdade que caracteriza a associação entre os países da Europa. A ajuda dos EUA à Colômbia é militar. Consiste em fornecer armas, helicópteros e treinamento às forças encarregadas de dar combate à dupla ameaça da guerrilha e do tráfico de drogas. Na Europa há também ajuda de uns aos outros. A União Européia reserva fundos para combater o atraso relativo de países como Portugal e Grécia. Isso tem representado investimentos maciços, nos mais pobres, dentro de um plano geral cujo objetivo é contribuir para que eles alcancem os mais ricos, ou ao menos não fiquem tão atrás. Não poderiam ser mais diferentes, um caso e outro. O da ajuda dos EUA à Colômbia não apenas ignora a pobreza que aduba o narcotráfico. Também impõe o ponto de vista, transformado em artigo de fé pelo governo de Washington, de que o problema está na produção, não no consumo – nos traficantes, não no enorme mercado consumidor dos EUA. O evento da semana passada, antes de representar a pré-estréia de uma colaboração – ou associação – futura, ressuscitava fantasmas do passado. Repetia a relação desbalanceada de outras eras. Imposição de um lado, submissão de outro.

A dificuldade de transpor para as Américas o modelo europeu de igualdade começa no fato mesmo de existir disparidade enorme entre os EUA, ainda mais reforçados pelo Canadá, de um lado, e o exército de Brancaleone representado pela soma dos países latino-americanos, de outro. Mas há um complicador – a desconfiança entre as partes. Os EUA são imperialistas, segundo a ótica latino-americana. Os latino-americanos, de seu lado, são preguiçosos, anárquicos e incompetentes, quando não racialmente inferiores, na ótica dos EUA. A isso se junta a incompreensão, e com ela chegamos a Thomas Jefferson. Um texto da autoria desse grande personagem, um dos pais da pátria, nos EUA, foi citado recentemente num artigo pelo embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa (Folha de S. Paulo, 27/8/2000). Trata-se de uma carta a Madame de Staël, famosa escritora francesa, que lhe pedira informações sobre a América do Sul. Jefferson começa por descrever o continente, ao centro do qual põe o Brasil. Ao norte, fica um país chamado "Caraccas" (sic). A oeste, "Chili, Tucumana & Peru" (sic). E, ao sul, "o país Buenos Ayres" (sic). O ano era 1816, quando o continente ainda não tinha a conformação atual. Nem por isso se justifica a geografia de Jefferson. Homem culto, representante acabado da era do iluminismo, ele era, em matéria de América do Sul, um analfabeto. Como se vê, a incompreensão vem de longe. Dá para ter Alca, desse jeito?

 

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