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O "sucesso lá fora"

Não é verdade que o Tio Sam quer conhecer a nossa batucada. Gringo só gosta de um temperinho

 
Cassiano de Souza/Folha Imagem

Marky: saído da Zona Leste de São Paulo, é condimento nas festas inglesas

Vira e mexe, ouvem-se discursos a respeito do enorme sucesso da música brasileira no exterior. Alerta: eles não passam de balela. Pense nas "badaladas" turnês internacionais de artistas como Marisa Monte e Caetano Veloso, por exemplo. Quase todos os ingressos são vendidos para brasileiros expatriados, saudosos de um pagode do rincão natal. Só um cantinho do salão é ocupado pelos estrangeiros – em geral, amigos de imigrantes brazucas que aprenderam a gostar de seus ritmos. Nas lojas de discos, a vendagem desses artistas também não é uma maravilha. Pelas contas da SoundScan, empresa que contabiliza os números da indústria fonográfica nos Estados Unidos, os álbuns Livro, de Caetano Veloso, e Cor de Rosa e Carvão, de Marisa Monte, venderam juntos pouco mais de 50.000 cópias. "A MPB nunca terá, aqui, a mesma popularidade de um Buena Vista Social Club", afirma Ben Ratliff, crítico do jornal The New York Times, referindo-se aos cubanos que já venderam 3 milhões de discos na terra de Madonna. Uma razão provável: a música brasileira de boa qualidade não soa assim tão exótica aos ouvidos americanos e europeus. É até mesmo sem graça, suave demais. E ninguém entende as letras.

 
Marcos Rosa

Bebel Gilberto: filha de João Gilberto fez gambiarra eletrônica na bossa nova

Para fazer sucesso no exterior, é preciso aderir a gêneros criados lá fora e transformar a tal brasilidade em mero temperinho. Um trio de jovens escolheu esse caminho. São eles a cantora Bebel Gilberto, o DJ Marky (ex-Marky Mark) e o guitarrista Max de Castro. Também é necessário um constante trabalho de divulgação. Bebel Gilberto, filha do cantor João Gilberto, mora desde o começo dos anos 90 nos Estados Unidos. Seu primeiro álbum-solo, Tanto Tempo, que mistura bossa nova com ritmos eletrônicos, já contabiliza 50.000 cópias vendidas. Nascido na Zona Leste de São Paulo e adepto do drum'n' bass (um tipo de tecno mais acelerado), Marky tocou pela primeira vez na Inglaterra em 1998. Desde então, visita o país pelo menos três vezes ao ano. Foi eleito recentemente um dos cinco melhores DJs do mundo e começa a incomodar os ingleses. "Eles estão com medo de me passar seus discos, não querem que eu faça mais remixes", afirma. Quanto a Max de Castro, ele emplacou um hit nas principais casas noturnas de Londres, o "tecnosamba" Para Você Lembrar. Não esconde o sonho de se tornar internacional. "Quero encontrar meu disco nas principais prateleiras das lojas e não naquele espacinho dedicado à MPB", diz.

 
Rogério Montenegro

Max de Castro: invenção de um certo tecnosamba para animar os londrinos

Há duas considerações a tecer sobre esses fatos. A primeira é que, ao contrário do que ocorre em outras áreas, músico brasileiro não precisa lançar-se no exterior. Ele já conta com um mercado suficientemente grande e fiel, diferentemente do que acontece com artistas de outros países subdesenvolvidos. Para estes, apresentar-se nos Estados Unidos e na Europa é, mais do que um fetiche, necessidade de sobrevivência. Querer ser reconhecido no exterior – e alardear isso na imprensa – é uma caipirice à qual volta e meia sucumbem nomes estelares da MPB. No que se refere aos novatos que aderem a gêneros estrangeiros para tentar carreira em Nova York e Londres, isso tem um nome: bovarismo. Em geral, é gente que tenta parecer o que não é, para alimentar a ilusão de que pertencem ao Primeiro Mundo. Alguns até enganam bem, como os integrantes do Sepultura ou Bebel Gilberto.

 
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