O
balcão da águia
baiana
Rui Barbosa discursava contra o empreguismo, mas
distribuía sinecuras para agradar aos seus pares
João
Gabriel de Lima

Rui Barbosa:
ele fez três nomeações por dia enquanto
esteve no governo |
"É
um animal multimâmico de mil tetas, este a que se chama nação.
De cujos peitos se dependuram, aos milhares, as crias vorazes da
mamadura, mamões e mamadores para cuja gana insaciável
não há desmame." Essa dura crítica ao empreguismo
foi feita pelo baiano Rui Barbosa, a "Águia de Haia", glória
nacional, o jurista em cujas idéias se baseou a primeira
Constituição republicana, promulgada em 1891. A frase,
cunhada em 1920, é uma bela peça de retórica
no bom e no mau sentido do termo. No breve período
em que esteve no governo, entre 15 de novembro de 1889 e 21 de janeiro
de 1891, no cargo de ministro da Fazenda de Deodoro da Fonseca,
Rui Barbosa fez nada menos do que 1.251 nomeações
de próprio punho. Foi um dos homens públicos brasileiros
que mais distribuíram sinecuras. Fazendo as contas, é
possível dizer que, enquanto a vaca estatal esteve sob sua
guarda, ele colocou à disposição de mamões
e mamadores uma média de três úberes por dia.
Estes números estão no ensaio "Rui Barbosa e a Razão
Clientelista", do historiador José Murilo de Carvalho, publicado
recentemente na revista acadêmica Dados. A análise
tem como fonte primordial a correspondência recebida por Rui
Barbosa na época em que ocupou o cargo.
Oscar Cabral

José Murilo de Carvalho: o ministro
não pedia, mas deixava que pedissem
|
O estudo de Murilo de Carvalho é exemplar. Nele, não
há nenhuma idéia pretensamente genial tirada da cartola,
como em tantos trabalhos acadêmicos publicados no Brasil.
Todas as conclusões são rigorosamente embasadas em
documentos, tabelas, números. Do total de cartas recebidas
por Rui Barbosa no período, 40% se destinavam a pleitos de
uma maneira geral, a maior parte deles pedidos de emprego. Murilo
de Carvalho não pesquisou as respostas para saber quantos
foram efetivamente atendidos, mas verificou os registros de nomeações,
chegando a uma cifra impressionante. Rui recebia uma média
de 2,7 demandas por dia, computando-se aí pedidos de aposentadorias
e licenças e fazia algo em torno de 3,7 favores. Isso
significa que praticava caridade com o chapéu do Estado mesmo
quando não era solicitado. Não dá para precisar
se esse empreguismo republicano era maior do que nos tempos do império,
pois não há estatísticas sobre a época
anterior. Mas tudo leva a crer que sim. "Na monarquia, havia maneiras
de fazer agrados que não eram tão onerosas para o
Erário, como distribuir títulos de nobreza", informa
Murilo de Carvalho. "Na república, a solução
era dar empregos. E, efetivamente, a quantidade de funcionários
públicos aumentou muito no governo de Deodoro da Fonseca."
Eduardo
Jorge Praticamente todos os políticos importantes
da época pediram favores a Rui, uma espécie de superministro
que apitava quase tanto quanto o presidente da República.
Dois deles se destacam: Deodoro da Fonseca, chefe do governo, e
Floriano Peixoto, que era ministro da Guerra e mais tarde seria
também presidente. No caso de Deodoro, o curioso é
que sua família inteira era composta de pidões. Mulher,
irmãos, sobrinhos, tios e até cunhados ao todo,
são 74 solicitações computadas por Murilo de
Carvalho. O próprio Deodoro fez 25 de próprio punho.
Ele não se envergonhava de usar papel timbrado do próprio
governo e, por ter relações de amizade com Rui, empregava
uma linguagem informal, chamando-o de "compadre". Já Floriano
Peixoto preferia os tratamentos tradicionais. O "Marechal de Ferro",
que mais tarde em seu governo pregaria a austeridade, é autor
de vinte demandas, em geral de empregos para colegas de armas. Pedia
tanto que se esquecia dos pleitos. Chega a admitir isso num bilhete,
em que agradece a nomeação de um amigo pelo qual não
se lembrava de ter intercedido. Acima do cabeçalho, Rui anotou,
cinicamente, com lápis vermelho: "Floriano confessando que
seus pedidos são muitos".

Rui, na conferência
de paz de Haia (1907): episódio supervalorizado
|
O
que levou Rui Barbosa a aderir tão entusiasticamente a uma
prática que rejeitava com veemência em seus escritos?
Murilo de Carvalho alega razões políticas. "A república
que estava começando precisava de apoios, e distribuir empregos
era uma forma de consegui-los." Não há, segundo ele,
provas conclusivas de que Rui tenha levado propina pelos favores
que prestava. Jornais da época, no entanto, chegaram a acusá-lo
de ter recebido uma casa de presente do banqueiro Francisco Mayrink,
a quem teria favorecido, fato que alguns de seus biógrafos
desmentem. Com outro barão das finanças suas relações
eram ainda mais estreitas: Manuel Pinto de Sousa Dantas, diretor
do Banco do Brasil no final do século XIX. Muitos anos antes,
quando Rui era um rábula iniciante na Bahia, Dantas, já
poderoso na região, arranjou para ele um emprego. Rui ficou
famoso, virou ministro e Dantas mandou a conta, com juros e correção,
como convém a um banqueiro. É um dos campeões
de pleitos da tabela de Murilo de Carvalho, com 44 cartas. Nelas,
arrogante, chegava a estabelecer prazos para que Rui atendesse a
seus pedidos.
Na Bahia, Rui Barbosa é um personagem folclórico.
Há várias histórias sobre ele, muitas provavelmente
falsas, como a que conta que Rui, de passagem por Londres, colocou
uma tabuleta na porta de sua casa com os dizeres: "Ensina-se inglês".
O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro escreveu uma crônica,
intitulada "O Conselheiro Come", sobre uma delas. Reza a historieta
que Rui gostava de receber amigos em sua casa, aos quais dava pareceres
eruditos sobre vários assuntos, gratuitamente. Na saída,
esses amigos eram interpelados por Maria Augusta, sua mulher, que
cobrava o favor usando a frase: "O conselheiro come!". Segundo Murilo
de Carvalho, a história pode ter um fundo de verdade
Rui dificilmente pedia coisas, mas aparentemente deixava que outros
pedissem por ele. Quando estava no Ministério da Fazenda,
seu secretário era o cunhado Carlos Bandeira. Foi este Eduardo
Jorge do final do século XIX que mobilizou uma teia de influências
para que Rui conseguisse uma colocação depois de ter
deixado o governo. Ao sair do ministério, Rui virou advogado
da Light, empregaço com salário de 2 contos de réis
mais bônus. Uma fortuna para a época.
Poliglota num país de analfabetos, o baiano foi um ídolo
nas três primeiras décadas do século XX. Seu
famoso apelido, "Águia de Haia", veio da participação,
como diplomata, numa conferência mundial pela paz, realizada
naquela cidade holandesa em 1907, quando teria impressionado seus
pares pela eloqüência com que defendia suas posições.
Segundo Murilo de Carvalho, há um certo exagero na glorificação
da proeza. "Os diplomatas estrangeiros ficaram impressionados sobretudo
porque ele falava demais. Mas sua participação mudou
muito pouco a imagem do país lá fora", avalia. Nos
últimos cinqüenta anos, o prestígio de Rui Barbosa
foi diminuindo, e só recentemente começou um movimento
de revalorização de sua obra. Num ensaio publicado
em 1999, o cientista político Bolivar Lamounier chamou atenção
para o fato de que o jurista baiano sempre esteve ao lado das causas
certas. No império, foi abolicionista. Na virada do século,
queria modernizar o país. Em 1919, aderiu à causa
dos direitos trabalhistas e abraçou idéias, segundo
Lamounier, algo semelhantes às da social-democracia de hoje.
Sempre foi também um defensor dos direitos civis.
Há quem diga que a famosa catástrofe que protagonizou
em sua curta passagem pelo governo foi fruto de boas intenções.
No episódio, conhecido como "encilhamento", Rui aumentou
o volume de dinheiro disponível na praça. Seu intuito,
oficialmente, era fortalecer o comércio e a nascente indústria,
criando empregos que absorveriam a mão-de-obra recém-liberta
da escravidão. Muito pouco desse dinheiro, no entanto, foi
canalizado para essas atividades. A maior parte foi para a especulação
desenfreada, promovida pelos antigos senhores de escravos. Estes
últimos foram os grandes beneficiários da situação.
Tiveram acesso fácil ao crédito e ainda lucraram com
a desvalorização da moeda, que possibilitou a exportação
de seus excedentes agrícolas. Enquanto isso, a economia do
país ia para o buraco. O episódio é emblemático
da figura de Rui Barbosa. Ele pode ter sido, como quer Lamounier,
um homem de idéias brilhantes. O estudo de Murilo de Carvalho
demonstra, no entanto, que ele é também precursor
de uma estirpe de governantes que perdura até hoje: aqueles
que posam de modernos, que embalam suas idéias num discurso
encantador, mas que na prática política revelam-se
tão arcaicos quanto seus predecessores.
Reprodução/Lula
Rodrigues
 
Bilhete
de 25 de agosto de 1890, com observação
de Rui a lápis vermelho: "Floriano confessando
que seus pedidos são muitos" |
"Exmo.
Amigo e Colega Dr. Rui Barbosa
Recebi
a comunicação que me fez o colega de estar nomeado
Juiz Municipal de Monte Santo, na Bahia, o dr. Uzedo. São
muitos os meus pedidos, por isso não me recordo ter
intercedido a favor desse doutor, no entanto, vos agradeço.
Sou,
com toda consideração, vosso colega e amigo,
Floriano
Peixoto"
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Lula
Rodrigues /Rep. Museu Hitórico Nacional
Cartas: reprodução Selmy Yassuda
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Deodoro:
ele quis empregar toda a família
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"Compadre
e amigo
Há
muito que procuro empregar um bom e fiel amigo, inteligente
e trabalhador o dr. Antonio Caetano Seve Navarro
e até hoje nada se tem feito; e como consta que se
dará uma vaga de fiscal no banco dos E. U. do Brasil,
venho apresentá-lo para isso. Passei
a noite sem maior novidade.
Respeito
à comadre, a quem abraço pela brilhante festa.
O
compadre e amigo
Deodoro
RJ
Junho"
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