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Inimiga oculta

Não há criminoso que resista a uma
microcâmara escondida. E o público
adora ver flagrantes

Marcelo Marthe

 

O jornalista Antonio Pimenta, em seu depoimento à polícia: ele não sabia que estava sendo filmado pelo Jornal Nacional

Há quatro anos, quando começou a ser utilizada com freqüência em reportagens da Rede Globo, a microcâmara causou discussões acirradas: não seria ela um instrumento que ofendia o sagrado direito à privacidade? Os críticos mais irados chegaram, inclusive, a pedir sua proibição. Como sempre ocorre nessas situações, o público ignorou a questão e adorou a novidade. Não é para menos. Desde o primeiro momento, a microcâmara revelou-se uma ferramenta preciosa na denúncia de toda a sorte de crimes. Graças a ela, os espectadores puderam constatar que fiscais da prefeitura paulistana cobravam gordas propinas de comerciantes. Também tiveram a chance de assistir à confissão do skinhead que, juntamente com seu bando, espancou e matou um homossexual no centro de São Paulo. E quem não se lembra daquele médico ortopedista do Rio de Janeiro que foi flagrado enquanto bolinava sua cliente durante uma consulta?

Há dez dias, o equipamento foi usado no Jornal Nacional para mostrar cenas do depoimento à polícia do jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves, no hospital em que esteve internado depois de tomar uma dose excessiva de tranqüilizantes. Milhões de pessoas viram como o assassino de Sandra Gomide procurou desqualificar sua vítima. A reportagem mostrou, ainda, o instante em que ele exigiu que seu relato fosse transcrito. "Vai sair besteira aqui", esbravejava Pimenta. "Eu sou especialista nisso, eu sei." Como não havia nenhum jornalista presente ao depoimento, logo surgiu a pergunta: quem se havia disposto a levar a microcâmara escondida para dentro da sala? Pelo ângulo de filmagem, a suspeita recai sobre o promotor Marcelo Millani, responsável pela acusação. "Não fui eu", garante ele. Coincidência ou não, quando a Globo obteve a fita com a confissão do skinhead que matou o homossexual em São Paulo, o promotor do caso era o mesmo Millani.

É muito fácil ocultar uma microcâmara. O modelo mais comum tem apenas 3,2 centímetros de largura, se chama "cabeça de agulha" e capta imagens por um orifício de apenas 1 milímetro de diâmetro (veja quadro). É truque manjadíssimo colocá-la numa maleta 007. Tudo leva a crer que o depoimento de Pimenta foi registrado dessa maneira. Os detetives particulares que servem a uma clientela mais abastada dispõem da engenhoca para filmar cenas de adultério. E quem trabalha no ramo da espionagem industrial lança mão desse expediente com freqüência. Por preços que variam de 3.000 a 8.000 dólares, é possível comprar microcâmaras que já vêm camufladas – em celulares, relógios, botões, óculos, pagers e até gravatas. Algumas emissoras concorrentes da Globo recorrem ao aluguel. "Alugo freqüentemente para alguns canais de TV, mas não posso revelar o nome de meus clientes", diz o comerciante paulista Youssef Ben Riman. "Essa é a alma do negócio."

O médico que bolinava suas pacientes está processando a Globo por danos morais. Quer indenização de 2 milhões de reais. Não é certo que vá ganhar essa parada, já que filmar alguém em segredo não é necessariamente um ato ilegal. As imagens do Jornal Nacional que traziam um fiscal paulistano cobrando caixinha foram obtidas numa operação executada em conjunto com o Ministério Público. "A Justiça as aceitou como prova de acusação", diz o promotor Roberto Porto. Segundo ele, há um detalhe que faz toda a diferença perante a lei. A filmagem é considerada lícita se feita por um dos interlocutores da conversa ou transação. "Se, no entanto, for realizada por um terceiro, é ilegal. Pode ser enquadrada na mesma legislação que proíbe a escuta telefônica", explica Porto.

 

 

Ilustração sobre foto de Ricardo Salgado


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