Mariz
versus Bastos
Assassinato de jornalista põe frente
a
frente duas feras do direito criminal
Lúcia
Monteiro
Álbum de família
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Álbum de família
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Pimenta:
"Coloque tudo
em um saco e mande
entregar-me"
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Sandra:
quarenta pares
de sapatos e
muitas roupas
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Calcula-se
que o Brasil tenha cerca de 500.000 advogados. No topo dessa pirâmide,
duas castas se destacam. A dos que ganham muito dinheiro é
reservada aos advogados particulares que são chamados pelas
empresas em momento de aperto jurídico. A dos que ganham
muita fama é ocupada por criminalistas que tratam de casos
rumorosos. Duas dessas estrelas dos tribunais de crimes estão
em posição de combate no caso do assassinato da jornalista
Sandra Gomide, morta com dois tiros por seu ex-chefe e ex-namorado
Antonio Marcos Pimenta Neves, então diretor de redação
do jornal O Estado de S.Paulo. Márcio Thomaz Bastos,
65 anos, é assistente de acusação da promotoria.
Seu currículo inclui a condenação do cantor
Lindomar Castilho, que matou a ex-mulher, recebeu pena de doze anos
de prisão e cumpriu quatro. Na outra ponta, com a espinhosa
tarefa de defender Pimenta, está Antonio Cláudio Mariz
de Oliveira, 55 anos. Mariz livrou do impeachment o prefeito de
São Paulo, Celso Pitta, e representou a Botica Ao Veado D'Ouro
quando a empresa foi processada por falsificação de
remédios. Contratado para defender PC Farias, chegou a receber
700.000 reais. Mas isso era apenas parte do valor combinado. PC
deu-lhe um calote nas últimas parcelas do pagamento.
O julgamento em que ficarão frente a frente pode acontecer
em dezembro. "Vamos ter de pagar ingresso para assistir ao júri",
diz Rubens Approbato Machado, presidente da seção
paulista da Ordem dos Advogados do Brasil. Mariz espera conseguir
um habeas-corpus para seu cliente até o final do mês.
Se o caso não tivesse atingido tanta repercussão,
seria muito provável que Pimenta Neves respondesse ao inquérito
em liberdade. Em 1999, 450 mulheres brasileiras foram mortas por
seus parceiros. Metade dos réus aguarda julgamento em liberdade,
segundo cálculo da Sociedade de Combate à Violência
da Mulher.
A condição profissional do autor e da vítima
é que faz desse um episódio único. "São
pessoas da imprensa e, nesse meio, as informações
circulam mais rápido", afirma a procuradora Luiza Nagib Eluf.
Na semana passada, o Instituto de Criminalística divulgou
laudos da perícia realizada no computador da vítima,
com todos os e-mails trocados entre Sandra e Pimenta. "Você
ainda ficou com muitas roupas finas de lã e outros materiais
que eu exijo que devolva", escreveu Pimenta numa das mensagens em
que cobrava da ex-namorada a devolução de presentes
que lhe deu. "Coloque tudo em um saco e mande entregar-me ou mando
buscar", explicou o ex-diretor de redação do Estadão.
Depois, vem o trecho que a acusação entende como uma
ameaça: "Mas não cometa o erro de reter essas coisas,
pois você sabe que eu não tenho limites". João
Gomide, pai de Sandra, diz que ele próprio devolveu os presentes
a Pimenta. Eram quatro sacos de 100 litros com quarenta pares de
sapatos e muitas roupas.
O caso chegou a seu desenlace em torno de um triângulo. Pimenta
era namorado de Sandra, que se interessou pelo dono de um jornal
em Quito, no Equador. Com os e-mails, surgiu mais um personagem.
Trata-se de "Cecilinha", que, suspeitava Sandra, seria amante de
Pimenta. Cecilinha, segundo e-mail de Pimenta, é uma amiga
de infância do jornalista, a quem ele recorria quando estava
em depressão. Uma mulher culta, com doutorado e 62 anos de
idade. Um exame psiquiátrico a que o jornalista se submeteu
com os especialistas do Instituto de Medicina Social e Criminologia
de São Paulo também forneceu detalhes inéditos
sobre a vida de Pimenta Neves. Nele, o jornalista disse que durante
o período em que ficou separado de Sandra, em 1998, teve
um caso rápido com uma mulher que conhecia havia muitos anos.
"Em um processo normal, os e-mails e laudos seriam mantidos em sigilo",
protesta Mariz. "Neste caso, a imprensa os obtém antes dos
próprios advogados."
Até agora Mariz venceu pelo menos um round. Até a
última sexta-feira, evitou que Pimenta chegasse a pisar em
uma delegacia, mantendo-o numa clínica particular, onde tem
quarto individual, recebe visitas a qualquer hora e lê jornais.
Por possuir diploma universitário, o jornalista tem direito
a prisão especial até o julgamento, o que não
significa cela individual. O mais provável é que seja
confinado em uma cela do 77º Distrito Policial, no centro de
São Paulo, onde cumprem pena o vereador cassado Vicente Viscome
e o estudante Mateus da Costa Meira, o atirador do shopping.
O direito a cela especial foi implantado com o Código de
Processo Penal, em 1941. Além dos universitários,
o Artigo 295 garante o mesmo tratamento a militares, constituintes
e ministros, entre outros. "No que diz respeito a policiais e juízes,
não há dúvida de que se justifica, para evitar
o contato com criminosos que eles ajudaram a prender", avalia David
Teixeira de Azevedo, professor de direito penal na Universidade
de São Paulo. "Fora desses casos, é privilégio
puro e simples." Quando o réu é condenado, no entanto,
esse direito acaba. Segundo o jurista Ives Gandra Martins, o direito
a cela especial para universitários deriva de um preconceito
existente nos anos 40: a idéia de que as pessoas com mais
cultura não teriam razão para agir como criminosos
normais. O criminalista Luiz Flávio Gomes lembra que essa
prática funciona também na Espanha e em Portugal,
de onde o Brasil herdou boa parte de sua cultura jurídica.
Na semana passada, Mariz invocou até a Lei de Imprensa para
dizer que jornalistas devem ter celas individuais. "Esse é
um direito que só se aplica a crimes de imprensa, não
a homicídios", reagiu Thomaz Bastos. Ele divide a função
de assistente de acusação com o criminalista Luiz
Flávio Gomes. Seus honorários, ainda não definidos,
devem ser pagos por uma associação formada pela família
e por amigos de Sandra Gomide. Ruy Mesquita, um dos donos de O
Estado de S. Paulo, contribuiu com um cheque para o pagamento
da acusação a Pimenta, mas exigiu sigilo sobre a quantia.
Em caso de condenação, o tamanho da pena pode ser
motivo de extensa discussão. "Há mais de cinqüenta
possibilidades", diz Waldir Trancoso Peres, que defendeu 130 homens
e mulheres que mataram seus cônjuges, mantendo a maior parte
deles fora das grades. "Tudo depende da composição
do júri, faixa etária, escolaridade e sexo." Se o
homicídio for considerado qualificado, a pena varia de doze
a trinta anos, que podem ser reduzidos a dois terços. Portanto,
o mínimo seria oito anos. O próprio Thomaz Bastos
não acredita em condenação superior a quinze
anos, com redução de um terço. Ou seja, na
pior das hipóteses para ele, Pimenta não cumpriria
mais de dez anos. Penas de oito anos ou menos podem ser cumpridas
em regime de semiliberdade. Ou seja, o condenado só tem de
dormir na cadeia. Penas de quatro anos podem ser cumpridas em liberdade,
com algumas restrições, como ter de se apresentar
regularmente ao juiz. Assim, as perspectivas para o jornalista são
desde cumprir a pena em liberdade até ficar dez anos na prisão.
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Na
defesa
Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem
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Nome: Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, 55 anos,
advogado de Antonio Marcos Pimenta Neves
Retrospecto: Enfrentou Bastos em três casos,
perdeu dois (homicídio) e um prescreveu (crime contra
a honra)
Honorários: Deve cobrar cerca de 200 000 reais
pela defesa de Pimenta. No caso PC Farias, recebeu 700 000
reais
Não defende: Atentado ao pudor contra crianças
Currículo: Formado pela PUC, foi presidente
da OAB em São Paulo. Foi secretário de Justiça
e de Segurança Pública no governo Quércia
Clientes: Botica Ao Veado D'Ouro, Banco Noroeste, PC
Farias e Celso Pitta. Foi procurador da princesa Caroline
de Mônaco em um processo contra Chiquinho Scarpa, que,
na década de 70, afirmou que os dois tiveram um caso
amoroso
Vota em: Luiza Erundina, do PSB
Defesa: Afirma que a imprensa condena o réu
antes do julgamento. Critica a excessiva rapidez do inquérito.
A estratégia principal é alegar que Pimenta
agiu sob violenta emoção, o que reduziria a
pena. "Foi um crime de ímpeto, de momento, cometido
por um homem de bem. Qualquer um poderia agir da mesma maneira.
Sandra foi vítima no assassinato, mas talvez ela o
tenha vitimado anteriormente"
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Na
acusação
Gabriela Azevedo Marques/Folha Imagem
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Nome: Márcio Thomaz Bastos, 65 anos, assistente
da promotoria no caso do assassinato de Sandra Gomide
Retrospecto: Enfrentou Mariz em três casos, levou
a melhor em dois e o outro prescreveu
Honorários: Não costuma entrar em uma
causa por menos de 50 000 reais, mas não cobra de alguns
clientes. Ainda não definiu quanto vai custar a acusação
de Pimenta
Não defende: Torturadores e criminosos que abusaram
sexualmente de crianças
Currículo: Formado pela USP, presidiu a OAB
em São Paulo e o conselho federal da entidade
Clientes: Foi assistente da promotoria no caso do cantor
Lindomar Castilho, que matou a ex-mulher, condenado a doze
anos de prisão (cumpriu quatro). Defendeu Ângelo
Calmon de Sá, no escândalo da pasta rosa do Banco
Econômico, e o governador do Pará Almir Gabriel,
acusado de responsabilidade no massacre de dezenove sem-terra.
Trabalhou na acusação dos assassinos de Chico
Mendes
Vota em: Marta Suplicy, do PT
Acusação: "Pimenta é um
falso passional. É um sujeito prepotente, que agiu
premeditadamente e não deu alternativas à vítima.
Matou por vingança e ciúme. Usou crueldade,
pois escolheu balas especiais, que provocam uma lesão
maior que as normais. A Justiça tem de ser rigorosa
com um sujeito que teve tantas oportunidades como ele"
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Com
reportagem de Luísa Alcalde,
Ana Paula Dutra e Pedro Biondi
Saiba
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