Vovô
vai à
luta
Com mais tempo na ativa e renda
melhor, idosos participam cada vez mais do orçamento familiar
Consuelo Dieguez
Fotos Selmy Yassuda

Bencardino,
70 anos, e seu neto Igor: avô banca o colégio e
as aulas de inglês
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Até
bem pouco tempo atrás, envelhecer no Brasil era sinônimo
de dependência. Os idosos eram vistos como um fardo para os
filhos e para a sociedade. Nos últimos dez anos, contudo,
sem que ninguém percebesse, o jogo começou a virar.
Uma detalhada pesquisa recentemente concluída pelo Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou o que seria
impensável há alguns anos: os brasileiros com mais
de 60 anos vivem, hoje, em condições bem melhores
que os jovens. Em bom português, têm rendimentos mais
altos. Esta já seria uma constatação de impacto
em um país que se acostumou a identificar a população
da terceira idade como um conjunto de indivíduos que vivem
à custa dos mais jovens. Mas o fenômeno é mais
profundo. Enquanto o padrão de vida dos idosos melhorou,
os jovens foram sendo apanhados pela crise econômica. A gangorra
social acabou por provocar uma revolução nas relações
familiares nesta última década. Se antes eram os filhos
que bancavam o sustento dos pais idosos, hoje a situação
é radicalmente diferente. Dados do IBGE indicam que a turma
de mais de 60 anos é responsável por 45% do orçamento
dos lares onde vive com seus filhos. Quando o idoso é o chefe
da família, essa contribuição sobe para 69%.

Anna Carvalho, 72 anos,
e as amigas: pensão de 1 000 reais dividida com os filhos
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Mas
como os velhos estão numa rota ascendente se o governo não
reajusta as aposentadorias há tanto tempo? Antes que alguém
atire a primeira pedra, acusando o Ipea de pintar um retrato falso
da situação dos idosos brasileiros, é preciso
deixar claro o seguinte: não se está afirmando que
a maioria dos idosos brasileiros tenha alcançado, por exemplo,
os confortáveis padrões americanos e europeus. O estudo
registra uma melhora relativa nos indicadores. Foi essa faixa da
população que registrou os índices mais favoráveis
de melhoria de condições de vida nos últimos
anos. Boa parte do avanço se deve à ampliação
das aposentadorias, que foram estendidas a uma parcela bem maior
da população a partir da Constituição
de 1988. Em 1970, 20% das pessoas acima de 60 anos não tinham
nenhum rendimento. Em 1998, essa proporção estava
reduzida a 2,4%. Entre as mulheres, as mudanças foram ainda
mais expressivas. Entre 1986 e 1998, o número de mulheres
idosas com renda superior a dez salários mínimos dobrou.
No mesmo período, o porcentual de homens que recebiam menos
de meio salário mínimo despencou de 18% para 3%.
Além disso, houve melhoria nos serviços de saúde
e nos hábitos alimentares da população, e isso
influenciou na qualidade de vida dos mais velhos. Muitos estão
ficando mais tempo no mercado de trabalho, o que tem contribuído
para uma elevação significativa de sua renda. O resultado
é a participação crescente dos idosos no orçamento
familiar. É claro que, desde que o mundo é mundo,
os filhos recorreram a seus pais em momentos de aperto. Mas, nos
últimos anos, o que era esporádico virou rotina. Neto
na escola? Lá vem a ajuda da avó. Curso de inglês,
médico, dentista? O avô socorre. Supermercado, conta
de luz, aluguel alto? Abrigo na casa materna.
O advogado aposentado do BNDS Walter Bencardino, de 70 anos, é
um defensor da ajuda paterna. Morador da Lagoa, na Zona Sul do Rio
de Janeiro, com uma renda superior a 10.000 reais por mês,
ele socorre os filhos sempre que necessário. Logo que Igor,
seu primeiro neto, nasceu, ele tomou a decisão de pagar a
escola da criança. Depois, assumiu o curso de inglês
do mais velho e da neta caçula. "A vida hoje para os jovens
está muito mais difícil", afirma. Sem sua ajuda, seus
filhos teriam dificuldades para manter o padrão de vida que
têm hoje. A mesma opinião tem a dona-de-casa carioca
Anna Carvalho, de 72 anos. Apesar de viver da pensão alimentícia
do ex-marido, em torno de 1.000 reais, ela não se furta a
dar uma mãozinha para a filha e faz questão de pagar
o curso de inglês do neto. "Eu e meu ex-marido sempre ajudamos
quando necessário. A vida está difícil para
todo mundo. Não dá para ignorar as dificuldades dos
filhos", afirma.
A importância da terceira idade tem crescido tanto que é
cada vez maior o número de famílias com idosos como
chefes. Em 1986, 32% das famílias tinham filhos que moravam
com pais acima de 60 anos. Em 1998, a proporção subiu
para 36%. Esta situação se explica em parte pela crise
econômica, que está levando os filhos a sair de casa
mais tarde ou a retornar depois de casados, separados ou não.
Para Ana Amélia Camarano, coordenadora da pesquisa do Ipea,
o ciclo de vida no Brasil mudou muito rapidamente nestes últimos
anos. "A infância encurtou, a adolescência se prolongou,
a vida adulta começa mais tarde e, como conseqüência,
também acaba mais tarde", diz. As dificuldades para entrar
no mercado de trabalho têm contribuído bastante para
ampliar a adolescência, fazendo com que os filhos fiquem por
muito mais tempo na casa dos pais. O estudo do Ipea aponta situações
como gravidez precoce e separações como fatores que
também aumentam o grau de dependência dos filhos.
Esta mudança nas relações familiares confirma
a nova realidade brasileira. O país de jovens está
envelhecendo. Entre 1940 e 1998 a expectativa de vida aumentou trinta
anos é de 68 anos , e os idosos começam
a ampliar sua participação no mercado de trabalho.
Estão na ativa por mais tempo e já competem com os
mais jovens em algumas funções. Um dado que chamou
a atenção dos pesquisadores do Ipea foi o comportamento
das empresas em relação aos seus office-boys. Muitas
preferem contratar pessoas mais velhas para este serviço.
A razão é simples. Além de confiarem nos funcionários
mais maduros, as empresas enxergaram vantagens financeiras em manter
este pessoal em seus quadros: não descontam aposentadoria,
pois já a recebem, não ficam em fila no banco e não
pagam vale-transporte, pois a condução para esta faixa
etária é gratuita. "Se por um lado o idoso contribui
com a renda, por outro acaba tirando a renda do mais jovem por ocupar
o seu lugar no mercado", analisa a pesquisadora. É uma contradição
que nem de longe reduz o avanço social de uma vida melhor
para os idosos.
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