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Indo água abaixo

Pesquisa adverte que comportas projetadas
para proteger Veneza causarão maior estrago

 

Veneza deve tudo às águas que circulam por seus canais. Elas dão beleza e romantismo à cidade construída numa laguna e através dos séculos a mantiveram a salvo de invasões. O problema é que, com freqüência cada vez maior, a maré cheia inunda ruas e praças. As águas salgadas do Mar Adriático também corroem as fundações de palácios e igrejas, ameaçando arruinar patrimônios históricos como a Basílica de San Marco. A esperança dos venezianos e dos 10 milhões de turistas que anualmente visitam a cidade é um ambicioso projeto de comportas para proteger Veneza e suas ilhas. Elaborado pelo governo, está prestes a ser votado pelo Conselho de Ministros italiano. Na semana passada, eles receberam uma má notícia: a obra bilionária poderá causar problemas ainda maiores à cidade. A advertência está num estudo do arqueólogo americano Albert Ammerman, uma autoridade no subsolo veneziano. Ele valeu-se de registros coletados até 2 metros abaixo do nível do mar para demonstrar que os técnicos que projetaram as comportas não levaram em conta dados históricos cruciais, como o ritmo de oscilação das marés na laguna além dos últimos 100 anos. Eles não previram que o nível do mar está subindo num ritmo cada vez mais acelerado e que as comportas precisariam ser fechadas com tal freqüência que impediriam a circulação de água, essencial para a vida da laguna. O impacto do isolamento seria devastador para a ecologia da laguna e para a própria cidade.

A advertência de Ammerman foi levada à manchete dos principais jornais italianos. Desde 1981 os venezianos apostam no projeto Mose (Módulo Experimental Eletromecânico) como forma de controlar melhor a aqua alta, como se chama a maré que invade a Praça de San Marco. As comportas custarão entre 2 e 4 bilhões de dólares e levarão oito anos para ser concluídas. Serão acionadas sempre que a meteorologia previr tempestades ou o aumento das marés ultrapassar os padrões normais. O problema apontado pelo arqueólogo é que será necessário fechá-las de 94 a 150 vezes por ano, número muito maior que o apresentado pelo Mose. Há dez anos, ele explora sítios arqueológicos do arquipélago. Com as amostras coletadas, ele e outros pesquisadores da Universidade Colgate, nos Estados Unidos, calcularam o padrão de mudança do nível do mar desde 4.000 a.C. e puderam fazer uma previsão para os próximos 100 anos. O resultado foi surpreendente. Veneza afundava em média 7 centímetros por século, mas desde 1900 já foram 23 centímetros. A cidade atual repousa inteiramente sobre estacas de madeira fincadas no lodo da laguna. "Com o aquecimento global e o aumento no nível dos oceanos estimado para os próximos 100 anos, a situação será muito pior", acredita Ammerman. Além de o nível do mar estar subindo, detritos industriais e urbanos acumulados nos canais aumentam o impacto das marés. Mudanças nas placas tectônicas do Mar Mediterrâneo causam ainda erosões na laguna e fazem com que o solo alagadiço de Veneza continue afundando, como um buraco cheio de areia movediça engolindo a cidade.

 

 

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