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Turismo da vasectomia

Inglaterra oferece a franceses
cirurgia proibida na França



Cartaz de promoção da vasectomia que os jornais parisienses recusaram: Napoleão adulterado

Desta vez, a ofensiva foi inglesa e a velha rixa com os franceses ganhou novo ímpeto. O golpe partiu da Fundação Marie Stopes International, uma das principais organizações não governamentais britânicas, e foi, pode-se dizer, abaixo da linha da cintura. Trata-se do uso da imagem de Napoleão Bonaparte para promover entre os franceses um método contraceptivo proibido na França, a vasectomia. No cartaz, a mão que tradicionalmente aparece à altura do peito do imperador foi transferida maliciosamente para a braguilha das calças. O texto diz: "Dois séculos mais tarde, ele ainda os tem à mão". É a lei contra a automutilação promulgada por Napoleão no início do século XIX que ainda hoje impede que se realize vasectomia em solo francês. A fundação inglesa, que se dedica a divulgar métodos de planejamento familiar, está em campanha para atrair clientes franceses, oferecendo-lhes a microcirurgia pelo preço de 300 dólares. A ONG já tentou publicar anúncios em dois dos maiores jornais da França – mas eles se recusaram a fazê-lo, sob o argumento de que se tratava de uma "idéia infeliz". Tentou-se então uma nova versão para ser afixada nas estações do metrô de Paris, com a alteração da clássica postura da mão. A companhia também a rejeitou, com a justificativa de que poderia ofender os católicos.

O problema do cartaz é juntar no mesmo pacote um símbolo nacional e um assunto controverso no país. A Justiça francesa entende que a vasectomia está banida pelo artigo do Código Civil que proíbe "atentados à integridade do corpo humano". A técnica, conhecida desde meados do século XIX, consiste em seccionar o microcanal que os espermatozóides percorrem dos testículos ao canal ejaculatório. A operação hoje requer somente anestesia local e leva menos de dez minutos. É bastante comum na Inglaterra e realizada sem restrições no Brasil (veja quadro). Na França, contudo, só é feita em dois hospitais – e apenas 1% dos franceses já se submeteu à cirurgia. Um índice, aliás, igual ao brasileiro. Apesar da proibição, nenhum médico ou paciente francês foi processado pela prática nos últimos quarenta anos. Mesmo assim, os poucos que optam pela microcirurgia preferem recorrer a clínicas de outros países. A vasectomia é recomendada pelos médicos quando o casal enfrenta problemas com outros métodos contraceptivos, como alergia ao látex dos preservativos ou intolerância à pílula. A esterilização causada pela cirurgia pode ser revertida, mas não em todos os casos.

A lei francesa não inibe apenas a vasectomia. Outros procedimentos médicos relacionados com a reprodução humana, como a inseminação artificial e os tratamentos de fertilização, estão legalmente restringidos. Por outro lado, a pílula anticoncepcional é usada livremente e até distribuída pelo governo às adolescentes nas escolas públicas. O resultado é que os franceses praticam um tipo inusitado de turismo sexual, aquele com finalidades médicas. Como a lei só permite a inseminação artificial para casais formados por um homem e uma mulher em idade reprodutiva, duplas de lésbicas e mulheres solteiras que desejam ter um filho buscam a solução em hospitais da Bélgica. Já as mulheres na menopausa que querem fazer tratamento de fertilização recorrem às clínicas especializadas de Roma.

O objetivo da fundação inglesa foi mesmo criar confusão e forçar os franceses a discutir o assunto. "Ficamos preocupados com a possibilidade de ofender os franceses", admite Tony Kerridge, um dos diretores da ONG. "Mas optamos por publicar o anúncio porque queremos provocar o debate sobre a vasectomia. Deu certo: por causa dele, as pessoas estão falando mais sobre o assunto." Em Paris, o Ministério da Saúde diz que a campanha não passa de uma artimanha comercial de pessoas interessadas em se promover e ganhar dinheiro. Sem alternativa para expor seu anúncio em território francês, a Marie Stopes colocou-o na internet. O interessado só precisa agendar a microcirurgia on-line e pegar o trem para Londres. Até o fim da semana passada a fundação vinha ganhando clientes franceses ao ritmo de um por dia.

 

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