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Todos querem ser Zulu

Chegou a vez dos homens: beleza põe a
mesa para eles também. Tem alguns até
sofrendo por isso, coitados

Marcelo Camacho

 
Rui Mendes

O Paulo Zulu aí de cima não sai da cabeça das mulheres. Bonitão, 1,86 metro de altura, 80 quilos, 100 centímetros de tórax, corpo musculoso na dose certa, a surpresa é que ele anda pela cabeça de muitos homens também. Isso mesmo, dos homens. Enquanto as mulheres sonham em ter um Paulo Zulu a seu lado, muitos homens sonham em ser um Paulo Zulu na vida. Ou, pelo menos, algo que se aproxime dessa estampa capaz de incendiar libidos femininas. Bombardeados por uma quantidade sem precedentes de imagens de bonitões, os homens começam a sentir o gostinho, desagradável, de problemas há muito conhecidos das mulheres: o bafo na nuca da concorrência estética, o trauma da comparação com inalcançáveis modelos de beleza, a necessidade de se esforçar constantemente para melhorar o visual.

Pois é, chegou a vez dos homens. Quase dá para ouvir as risadinhas femininas, curtindo o doce gosto da vingança. Na corrida para suprir o que a natureza não deu, são eles que agora lotam academias de ginástica, suam nos exercícios aeróbicos, esfalfam-se nos aparelhos de musculação. Falam de dieta e trocam figurinhas sobre as últimas novidades na área com afinco outrora dedicado apenas às oscilações da bolsa. Se for preciso, os mais convictos dão um passo adiante. No ano passado, das 300.000 cirurgias plásticas realizadas no Brasil, 60.000 foram em homens que criaram coragem para entrar na faca por motivos estéticos (quatro anos atrás, só 20.000 se habilitaram). A mudança de comportamento que alimenta essa fornalha das vaidades masculinas é evidente. Criados sob o falacioso sistema que vigorou durante milênios – "Homem não precisa ser bonito" –, marmanjos de gerações variadas estão se confrontando com a realidade crua: precisam, sim. Se não deuses gregos, que sejam pelo menos sujeitos apresentáveis, sem papadas, dobras, vincos, pelancas ou rugas que, no passado, davam até atestado de masculinidade.

Os homens cuidam-se melhor hoje porque acreditam que, se estiverem em forma, bem dispostos e bem-arrumados, terão maiores chances no mercado de trabalho, mais disposição nas horas de lazer, maior satisfação consigo próprios e, acima de tudo, mais sucesso nas conquistas amorosas. Basta dar uma olhadinha em volta para constatar como a beleza masculina anda valorizada. As revistas com peladões são um sucesso – e não apenas no ambiente gay. Quem já viu um grupinho de mulheres com uma dessas revistas nas mãos, tomadas por uma espécie de transe coletivo, sabe do que estamos falando. Hollywood, a eterna fábrica de galãs, tem uma constante linha de produção de belos, com tipos para todos os gostos. Qual o mortal comum que pode comparar-se à virilidade triunfante de Mel Gibson, ao sorriso iluminado de Tom Cruise, ao conjunto da obra de Brad Pitt? No Brasil, a televisão assume essa função de provedora de padrões de beleza. A novela das 7 da Globo, Uga Uga, é uma profusão de braços musculosos, peitorais ostensivos, abdomes tipo tábua. Até bumbum de fora tem (veja quadro).

 
Selmy Yassuda


MAMÃE, ESPERA AÍ NO BANQUINHO
Reynaldo Gianecchini, cobiçado por mãe e filha na novela e pelo resto das brasileiras na vida real, é vaidoso profissional, do tipo que sabe muito bem de onde vem o seu ganha-pão. Jogou-se de corpão e alma na rotina da malhação quando iniciou a carreira de modelo. Chegava a passar uma hora só fazendo abdominais. Nem o amor filial conseguia desviá-lo do objetivo. "Minha mãe vinha do interior de São Paulo me visitar e ia me encontrar na academia. Eu a deixava esperando num banquinho até acabar os exercícios", conta. "Cuidar do corpo é um trabalho para mim. A hora da academia é sagrada, ela tinha de esperar mesmo." Mamãe (e Marília Gabriela) releva, claro. Que mulher não faria o mesmo?

Disciplina militar – Submetido à saraivada inclemente de imagens de homens esplendorosos, o cidadão comum acaba criando o desejo de se igualar ao que vê na mídia – um fenômeno sobejamente conhecido pelas mulheres. "Criar modelos faz parte da formação do psiquismo de uma pessoa. Não há como evitar isso", diz o psiquiatra Paulo Mattos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "E o que existe hoje como ideal na cabeça dos homens é ser atraente do ponto de vista físico. Ver a Vera Fischer beijar um garotão bonito na novela mexe com a cabeça dos homens. Parece que a única saída é ser bonito daquele jeito." O sujeito equilibrado pode ter duas reações diante disso: ignorar solenemente o apelo e continuar com sua barriguinha ou tentar os métodos conhecidos de aperfeiçoamento estético. Psiquismos mais frágeis correm risco de frustração maior. Afinal, por mais ginástica que se pratique, ninguém vira um Paulo Zulu da noite para o dia. Aliás, ninguém vira um Paulo Zulu: nasce-se. Para ter um corpo remotamente parecido com o dele, é preciso disciplina militar nos exercícios, alimentação reguladíssima, distância das bebidas alcoólicas; enfim, dedicação integral.

"O homem busca corresponder ao padrão de beleza aceito como ideal pela sociedade. Só que a vida real é diferente. Muitos não conseguirão chegar a esse padrão. Por causa disso vão desenvolver um sentimento de inferioridade, ficarão inibidos nas conquistas amorosas e sofrerão problemas de baixa auto-estima", diz a sexóloga baiana Gilda Fucs. O fenômeno já tem até nome. Nos Estados Unidos, os médicos Harrison Pope, Katharine Phillips e Roberto Olivardia identificaram no homem obcecado pela aparência física uma nova síndrome, batizada de complexo de Adônis. Segundo eles, a síndrome consiste na busca insana do ideal de beleza representado pelo herói grego, o guerreiro que conquistou o amor da deusa Afrodite. Em seu livro O Complexo de Adônis – A Obsessão Masculina pelo Corpo, da Editora Campus, que acaba de chegar às livrarias, eles afirmam que os homens estão sendo arrastados rumo à mania pela perfeição física. Um exemplo no universo americano: uma pesquisa de 1997 mostrou que 45% dos homens estavam insatisfeitos com seu corpo, quase o dobro do porcentual registrado em 1972.

Enquanto nas mulheres a obsessão pelo corpo ideal é construída em torno da magreza e costuma se traduzir em distúrbios alimentares como a anorexia ou a bulimia, entre os homens predomina o padrão estético do quanto mais forte melhor. Ou seja, as mulheres acham sempre que estão gordas demais e eles, excessivamente fracos. Um estudo realizado por Harrison Pope, que é professor de psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard, indica uma disseminação do fenômeno. Participaram dele 200 entrevistados – americanos, franceses e austríacos. Diante de um corpo masculino projetado em computador, eles tinham de demonstrar como viam a si mesmos, fisicamente, e como gostariam de ser. O corpo ideal escolhido pelos entrevistados tinha em média 13 quilos de musculatura a mais do que seu físico real. Os exageros sobre o físico ideal podem atingir até fortões como o ator Ricardo Macchi, que atualmente exibe o melhor de seu talento na peça Deu Broadway na Cabeça, em cartaz no Rio de Janeiro, em que aparece nu por alguns segundos. Macchi, o inesquecível cigano Igor da televisão, acha-se fraco demais quando não segue à risca o roteiro do malhador profissional.

 
Claudio Rossi

Cida Souza

VOCÊS SE LEMBRAM DELE?
O apresentador Otávio Mesquita começou a mudar o visual há dois anos. Não parou até agora. Só de plásticas, foram três: nariz, papada e abdome (uma lipoescultura sugou-lhe 3,5 litros de gordura). Isso sem contar o implante de cabelo. Assistido por nutricionista, personal trainer e geriatra, faz refeições balanceadas, malha duas horas por dia e toma vitaminas. "Tive muita força de vontade", gaba-se. "Sou muito mais feliz hoje." Se tivesse de pagar por tudo, calcula que teria gasto 50 000 reais.

A insatisfação provocada por disparidade tão grande pode levar a dois tipos de comportamento. Um é a depressão e o sentimento de baixa auto-estima que brota da frustração de não ter o físico considerado ideal. O outro é a perseguição cega do modelo de corpo forte e belo que se almeja. É óbvio que não há nada de errado em praticar exercícios. Os problemas aparecem quando se exagera. "É normal lavar as mãos cinco vezes por dia. Mas lavar as mãos 200 vezes por dia é sinal de que alguma coisa está errada", compara o psiquiatra Pope. "Há homens que estão abdicando de coisas importantes na sua vida para malhar compulsivamente, esperando conseguir um peitoral maior ou uma barriga menor", diz em seu livro. Acontece de verdade, até com quem já nasceu privilegiado. O ator Reynaldo Gianecchini, que vive Edu, o tal garotão bonito que conquistou Vera Fischer na novela Laços de Família, começou a carreira como modelo há quatro anos e logo percebeu que precisava burilar o físico para enfrentar a concorrência. Malhar em academia tornou-se quase uma religião – a ponto de passar uma hora inteira só fazendo os abomináveis exercícios abdominais.

O apresentador da Rede TV! Otávio Mesquita não é assim nenhum Gianecchini, mas também aprendeu a cuidar do visual com afinco de dar inveja a muita mulher. Há um ano não sabe o que é uma feijoada. Se tem um jantar para ir, come antes de sair de casa sua refeição balanceada recomendada por um nutricionista. Mesquita já foi cheinho, barrigudinho, com um começo de calvície – enfim, o previsível num sujeito de 41 anos. Hoje, está com o corpo cheio de músculos bem delineados. A impressionante repaginação de seu visual, o tipo de projeto que até recentemente só era constatado entre mulheres, começou há dois anos e redundou num novo homem, literalmente. A transformação de Otávio Mesquita não é para qualquer um. Se ele tivesse de pagar por tudo o que fez, calcula que já teria gasto uns 50.000 reais. Como é personagem da televisão, levou muita coisa de graça. Ele acha que está bem, mas o tal complexo de Adônis não o deixa em paz. Acredita que pode ficar melhor. Seu ideal? "Queria ficar igual ao Paulo Zulu, só que com um pouco mais de peito", divaga ele.

Limite genético – Sonhar não custa nada. Caro mesmo é o preço pago por aqueles dispostos a turbinar o sonho – os homens que ficam tão obcecados pelo corpo ideal a ponto de recorrer às substâncias ilegais que ajudam a ganhar massa muscular. Calcula-se que nos Estados Unidos cerca de 3 milhões de homens tomem esteróides anabolizantes e outras drogas perigosas para incrementar a musculatura. Não há dados sobre o Brasil, mas sabe-se que nas academias da moda não é tão difícil assim conseguir essas substâncias ilegais. O consumo de anabolizantes leva a resultados rápidos de crescimento muscular. É sedutor. Mas a longo prazo seu uso pode causar distúrbios psicológicos, infertilidade, impotência sexual e até câncer de fígado.

"Todo corpo tem um limite genético, um potencial de crescimento próprio. Sempre chega uma hora em que o desenvolvimento muscular atinge o máximo", alerta o médico Carlos Heitor Bergallo, dono da academia Fisilabor, no Rio de Janeiro. Há uma explicação para o desejo que alguns homens têm de ver seus músculos crescer tanto. Segundo uma das pesquisas dos médicos de O Complexo de Adônis, os homens acham que as mulheres querem homens com a musculatura na estratosfera. Só que as mulheres, na mesma pesquisa, afirmam não gostar de homens tão fortes assim. Está duvidando? Pois aqui vão dois depoimentos autorizadíssimos. "Mulher gosta de homem com o corpo definido, mas sem exageros. Aquele cara que passa três horas por dia na academia e é prisioneiro do espelho não agrada, não", diz a linda Luma de Oliveira. "Não acho graça naquele tipo de cara peso pesado, que usa camisetinha cavada ou então tira a camisa em público. Acho ridículo", diz a morenaça Scheila Carvalho, do É o Tchan. "Bonito mesmo é o Paulo Zulu." Olha ele aí de novo!

A ele, então. Paulo Zulu, considerado hoje o homem mais bonito do Brasil, credita seu corpo perfeito aos esportes e a uma alimentação saudável. Dos 8 aos 14 anos praticou natação, corrida e basquete. Aos 12 começou no surfe, esporte que exercita até hoje. Também faz caça submarina e treina jiu-jítsu. Às vezes recorre à musculação para fortalecer alguma parte do corpo. Não bebe álcool nem refrigerante, não come carne vermelha, evita todo tipo de alimento industrializado. "Abri mão de coisas que todo mundo gosta, mas já estou acostumado", diz o belo. "Isso se chama disciplina."

 
Selmy Yassuda

BONITÃO PREOCUPADO
Nem a genética nem a disciplina acalmam a ansiedade do ator Ricardo Macchi. Ele não come carne vermelha há doze anos, não bebe e é louco por suplementos nutricionais. Faz musculação desde os 14 anos. Se pára, um pouco que seja, já começa a pensar bobagem. Não quis mostrar os bíceps na foto (acima). "Estou fraco", alegou.

Se nem isso resolve? Resta sempre o caminho da cirurgia estética, tábua de salvação de egos e carreiras. "A plástica é muito procurada pelos homens que se sentem pressionados pelo mercado de trabalho. Querem estar bem porque acham que isso ajuda na competição profissional", diz o cirurgião plástico Luiz Fernando Dacosta. Que ajuda, ajuda. Nos processos de seleção de executivos para grandes empresas, boa aparência não é fundamental, mas pode ter um peso importante. "No desempate entre dois candidatos com as mesmas qualificações, o indivíduo magro, com aparência de quem pratica esportes, vai se sair melhor", avalia o headhunter carioca Antônio Carlos Martins. O homem que procura a plástica, em geral, também está preocupado em rejuvenescer por motivos afetivos. "É o sujeito na casa dos 50 anos, que trocou a mulher por uma garotinha", define o cirurgião Dacosta. Aconteceu com o locutor esportivo Galvão Bueno. Aos 50 anos, já avô, ele está namorando uma moça de 32 e vai ser pai de novo. Fez dieta e uma plástica para retirar as bolsas embaixo dos olhos e a papada, além de lipoaspiração na cintura. "Meu novo relacionamento me estimulou a ficar bem fisicamente", diz Galvão. O locutor, evidentemente, não tem nada de complexo de Adônis. É um gatão de meia-idade, tocado pelo eterno desejo de ser feliz – que não deforma músculos nem faz mal a ninguém.

 

NORMAL
As diferenças entre o homem vaidoso...

Praticar atividades físicas até cinco vezes por semana, durante cerca de uma hora

Verificar quanto está pesando de vez em quando

Manter uma alimentação balanceada, mas sem deixar que isso prejudique a vida social

Não permitir que os horários de malhação atrapalhem a vida profissional

Passar em frente a um espelho e dar uma olhadinha no próprio visual

Vestir-se com roupas que sejam apropriadas para o tamanho de seu corpo

Gastar no máximo uma hora para fazer a barba, pentear-se e escolher a roupa que vai usar

Cuidar dos cabelos com um bom xampu e dar uma passada periódica no barbeiro para um novo corte

Levar uma vida normal, com boa alimentação e prática de atividade física

 

OBSESSÃO
...e o que cultiva preocupação doentia com a aparência

Ir à academia todos os dias e passar mais de duas horas fazendo exercícios

Subir na balança antes e depois da ginástica – todos os dias

Deixar de jantar fora com os amigos porque o restaurante escolhido não tem nada que você possa comer

Chegar atrasado ao trabalho ou desmarcar compromissos profissionais porque resolveu ficar mais tempo na academia de ginástica

Virar escravo do espelho

Usar roupas bem largas para disfarçar quilos a mais ou a menos

Passar horas obcecado com o visual antes de sair de casa, chegando a trocar de roupa mais de três vezes

Checar de meia em meia hora se caiu mais um fio de cabelo e pensar se já não está na hora de fazer outro implante capilar

Virar aquele chato que só fala de dieta e academia

 

A novela dos descamisados

Fotos Fernando Martinho    

Nem os seios plastificados de Danielle Winits nem os atributos naturais de Mariana Ximenez. Sucesso, mesmo, em termos de atributos peitorais fazem Cláudio Heinrich, Humberto Martins e Marcelo Novaes, entre outros descamisados da novela das 7 da Globo, Uga Uga. Carlos Lombardi, o autor que faz malabarismos na trama para justificar tantos torsos nus, diz que quem manda no horário são as mulheres – e elas querem ver homens bonitos.

 
Saiba mais
Teste: o questionário do Complexo de Adônis
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Os feios que me perdoem...

 

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