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Em bicas, aos baldes

Transpirar em excesso é doença.
Seu nome: hiper-hidrose.
Seu tratamento: cirurgia

Anna Paula Buchalla

 
Fotos Ricardo Benichio

"Aos 3 anos, eu já suava nas mãos. Estraguei mais
de um telefone celular por causa das mãos, que viviam molhadas. Para enxugá-las a todo momento, andava com a bolsa cheia de lenços. Até fiquei conhecida como 'Sarita dos lencinhos'. Ao final do dia, eles estavam invariavelmente ensopados. Durante o estágio de nutrição na faculdade, sentia que algumas pessoas ficavam incomodadas quando eu as tocava. Também era complicado manipular alimentos. Cheguei a procurar ajuda psicológica. Não resolveu. O que funcionou foi a operação. Sinto-me outra pessoa."
Sarita Marques Valentim, 21 anos

Suar é essencial ao organismo. Regula a temperatura do corpo e ajuda a eliminar o excesso de sais minerais. Também é uma forma de extravasar tensão e insegurança. A título de curiosidade, há quem credite a um tremendo suadouro a derrota de Richard Nixon para John Kennedy, na eleição presidencial americana de 1960. Em um debate pela televisão, Nixon deixou má impressão ao transpirar em bicas diante de um Kennedy enxutérrimo (em mais de um sentido). Mas atenção: suar demais, além da conta, é por si só uma doença. Chama-se hiper-hidrose e atinge perto de 2 milhões de brasileiros. Suas causas são psicossomáticas. Ou seja, não se encontrou até agora nenhuma disfunção orgânica que a explicasse. Como não é possível combater o excesso de transpiração com remédio, a hiper-hidrose expõe suas vítimas a um constante martírio social. O problema tende a se manifestar na infância e é aguçado na adolescência, quando a pessoa enfrenta um turbilhão de emoções. Na idade adulta, pode perturbar a vida profissional. Constrangido pela hiper-hidrose, um executivo de uma das maiores redes de supermercados do país, que prefere se manter no anonimato, decidiu construir uma mesa comprida e larga o suficiente para ficar distante dos colegas de trabalho.

As implicações da hiper-hidrose muitas vezes extrapolam o aspecto moral. Técnicos em eletrônica que padecem desse distúrbio volta e meia tomam choques ao manipular equipamentos. Motivo: o suor que cai sobre os aparelhos. Usuários de computador que sofrem da doença são obrigados a trocar os teclados de suas máquinas a cada dois ou três meses – o pingar constante do "humor aquoso incolor", segundo a definição do dicionário, os estraga. Pior ainda era o sufoco dos clientes de um dentista de São Paulo. A boca aberta e a gota escorrendo pela testa do doutor... A estudante de nutrição Sarita Marques Valentim, de 21 anos, conhece bem a repugnância que um doente de hiper-hidrose causa nos outros. Quando ela tinha de mexer em alimentos ou tocar em pacientes, deparava com o olhar de nojo provocado pela umidade de suas mãos. Há um mês, Sarita submeteu-se a uma cirurgia para acabar com o suadouro excessivo.

Costas e barriga – A operação é, sem dúvida, o mais eficiente tratamento contra o mal. A técnica foi introduzida no Brasil pelos médicos José Ribas Milanez de Campos, integrante do grupo de cirurgia torácica do Hospital das Clínicas de São Paulo, e Paulo Kauffman, professor de cirurgia vascular da Universidade de São Paulo. O procedimento é simples, ainda que o paciente tenha de receber anestesia geral. Dois pequenos cortes abrem caminho para que cânulas – uma delas dotada de uma microcâmara – localizem e retirem ou cauterizem os gânglios que estimulam o suor nas mãos e nas axilas (veja quadro). "Graças à tecnologia, esse tipo de operação é, hoje, menos invasivo e arriscado", afirma o doutor Ribas. Quando não contavam com esse aparato, os médicos tinham de tomar cuidado para não lesar certos nervos, como o responsável pelos movimentos das pálpebras. Se algo desse errado, o paciente deixava de transpirar, mas ficava com um olho mais fechado que o outro.

A hiper-hidrose é daquelas doenças que se auto-alimentam. Diante da perspectiva de suar baldes, o doente se aflige e acaba transpirando em dobro. "Suava só de pensar em enfrentar uma reunião e, conseqüentemente, o nervoso piorava ainda mais o meu tormento", conta o empresário paulista Élcio Burguese, de 41 anos, que fez a cirurgia. O maior inconveniente da operação: em 30% dos casos, o paciente passa a suar com mais freqüência nas costas e na barriga. É a maneira que alguns organismos encontram para compensar a falta de transpiração nas axilas e nas mãos. "Esse tipo de suor, no entanto, é menos intenso e socialmente mais tolerável", diz Kauffman. Depende do tamanho da barriga, é claro.

 
"Por volta dos 20 anos, comecei a suar excessivamente nas mãos e nas axilas. Tentei de tudo para controlar o problema: de consultas com dermatologistas a tratamentos alternativos. Nada adiantou. Minha vida social era terrível. Passei a usar apenas camisas brancas para disfarçar o suor. Só dirigia com uma toalha ao lado, para enxugar as mãos. Podia estar um calor danado -- se tivesse de sair, sempre usava uma malha para esconder as marcas do suor. Transpirava só de pensar em enfrentar uma reunião em uma sala fechada. E o nervoso fazia aumentar o meu problema. O que mais me marcou depois da cirurgia foi que pude voltar a usar camisas coloridas."
Élcio Burguese, 41 anos



 

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