Mulheres em
risco
O
sexo feminino já responde pela maior
parte dos novos casos de Aids em mais
de 200 cidades do país
Cristina
Poles
O
Ministério da Saúde concluiu o último levantamento
sobre a disseminação da Aids no Brasil, com base nos
registros de 1999 a junho deste ano. O cenário revela o surgimento
de um novo perfil da síndrome. Em 229 cidades, o vírus
HIV contaminou mais mulheres do que homens, na proporção
de até duas para um. Embora a maior parte desses municípios
tenha menos de 50.000 habitantes e a
soma total dos casos seja pequena, os técnicos do governo
acreditam que esse quadro indica uma tendência nacional. "Nos
próximos anos, é provável que ele se repita
em grande parte do país", diz Paulo Teixeira, coordenador
do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis
e Aids. Era de esperar. A velocidade com que o sexo feminino se
transforma em alvo preferencial da epidemia é impressionante.
Em 1985, havia no Brasil 25 homens para cada portadora. Hoje, a
proporção é de dois para uma. A feminização
da doença acontece no momento em que o programa brasileiro
de controle da Aids é apontado como um dos melhores do mundo.
De 1998 para 2000, o registro de novos casos cresceu num ritmo bem
mais lento do que em períodos anteriores. Os contaminados
pelo HIV hoje somam 0,6% da população índice
de Primeiro Mundo, semelhante ao anotado no Canadá, Estados
Unidos, Inglaterra e França.
Os
números gerais, no entanto, escondem diferenças de
comportamento. Entre os usuários de drogas e homossexuais
masculinos, para os quais se dirigiram o grosso das campanhas de
prevenção, a epidemia está estabilizada. Nesses
grupos, a taxa de transmissão do HIV diminui a cada ano.
Situação inversa ocorre no universo heterossexual,
onde ela só faz crescer. Para se ter uma idéia, as
últimas estatísticas de 1999 mostram um aumento da
ordem de 34% em relação a 1998. E a contaminação
feminina contribuiu em muito para fermentar esse número.
Um dos dados mais estarrecedores divulgados pelo Ministério
da Saúde é que as brasileiras contaminadas estão
distribuídas em proporções equivalentes por
todas as classes sociais e graus de instrução. A quantidade
de novas pacientes com segundo e terceiro graus completos cresce,
em média, 25% ao ano. Já entre os homens com o mesmo
nível de escolaridade, apenas 5%. A exposição
ao HIV por parte das mulheres não se explica, no entanto,
por falta de informação.
A
verdade é que, apesar de todas as conquistas do sexo feminino,
até hoje muitas mulheres não se sentem seguras o bastante
para pedir que o parceiro use preservativo. "A submissão
feminina nesse ponto ainda está presente nas diversas classes
sociais", afirma a infectologista Rosana Del Bianco, médica
do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, centro de
referência para tratamento da doença. O irônico
é que, quanto mais estável o relacionamento amoroso,
mais inseguro é o sexo para as mulheres. Os especialistas
são unânimes: na hora H, por romantismo ou medo de
gerar desconfiança e irritação no companheiro,
elas concordam em manter relações sem camisinha, submetendo-se
ao risco da contaminação pelo HIV. O que muitas não
sabem é que não raro seu príncipe encantado
é um viciado que compartilha seringas sujas. Ou um bissexual
não assumido. Ou um dom-juan que vive pulando a cerca sem
cuidado. Essa passividade das mulheres está tão arraigada
que os técnicos do Ministério da Saúde acham
mais fácil falar aos homens nas campanhas para tentar deter
a contaminação feminina. Em 1º de dezembro, Dia
Mundial de Combate à Aids, o governo lançará
uma campanha direcionada ao sexo masculino, cujo slogan deve girar
em torno da seguinte idéia: "Você pode fazer a diferença.
Está nas suas mãos preservar a sua parceira".
Some-se
ao descuido feminino, um componente cultural incontornável
a curto prazo, o fato de que a doença é muito mais
perversa com elas do que com eles. Ao se relacionar com um portador
do HIV, os riscos de uma mulher ser contaminada são dez vezes
maiores que os de um homem que faz sexo com uma soropositiva. A
ciência explica. A concentração de vírus
no esperma é muito maior que a encontrada na secreção
vaginal. Além disso, o tempo de contato do pênis com
a secreção é menor do que o da mulher com o
esperma. A crescente contaminação do sexo feminino
tem outra conseqüência imediata e trágica: o nascimento
de crianças com o vírus. Algumas correm o risco de
contaminação ainda no útero, outras ao ser
amamentadas. Todas vivem sob a ameaça de se tornarem órfãs.
Há no país cerca de 200.000
filhos de portadoras do HIV. Três em cada dez são crianças
cujas mães já desenvolveram a doença. O número
de gestantes contaminadas chega a 13.000.
Sem nenhum cuidado, 25% delas passarão o vírus para
seus bebês. Para quebrar essa cadeia macabra, as portadoras
precisam tomar remédios a partir da décima terceira
semana de gravidez. Numa gestante medicada, os riscos de infecção
do recém-nascido caem para 8%. Atualmente, seis de cada dez
grávidas contaminadas recebem tratamento. As outras só
se descobrem com o vírus pouco antes de dar à luz.
Pode ser tarde demais. Tanto para ela quanto para o bebê.
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Uma
louca à solta
A
americana Christine Maggiore, de 44 anos, não rasga
dinheiro, mas é uma maluca e tanto: defende a tese
de que o vírus HIV não causa Aids. Diretora
de uma organização não governamental
baseada em Los Angeles e autora do livro What If Everything
You Thought You Knew about Aids Was Wrong? (E Se Tudo
que Você Pensava que Sabia sobre Aids Estiver Errado?),
ela encoraja os soropositivos a suspender os medicamentos
e abandonar o uso da camisinha. Portadora do HIV, noiva de
um destrambelhado e mãe de um menino de 3 anos, Christine
adota essa conduta para lá de incauta. Na sua opinião,
boa parte dos mortos de Aids foram vítimas dos medicamentos
que tomavam para conter o vírus. Ou do medo da doença.
Uma sandice só. Se ela fosse uma voz isolada, já
seria ruim. O pior é que arregimenta adeptos. Entre
eles, o presidente sul-africano Thabo Mbeki, com quem se encontrou
durante a realização da 13ª Conferência
Internacional sobre Aids, em Durban, apesar da chuva de protestos
dos cientistas presentes ao evento. Christine deveria estar
encerrada num hospício.
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