Meu cachorro
e o papa
Ilustração Ale Setti
 |
Um cachorro não tem muitos privilégios, mas um deles
consiste no seguinte: em seu caso, a eutanásia não
é proibida por lei. A frase é de Milan Kundera,
no final do romance A Insustentável Leveza do Ser.
O cachorro do protagonista sofre de câncer. Arrasta uma
pata. Fica jogado num canto. Geme de dor. Até o dia em
que o protagonista o sacrifica. Na semana passada, aconteceu a
mesma coisa comigo. Meu cachorro estava com câncer. Doente
terminal. Segundo o veterinário, restava-lhe, no máximo,
um mês de vida. Quando começou a vomitar, a arrastar
a pata e a gemer de dor, decidimos sacrificá-lo. Um dia
antes da data marcada ele morreu por conta própria. Foi
um alívio não ter de matá-lo. Mas também
teria sido um alívio matá-lo, poupando-o de um sofrimento
inútil. Seu nome era "Tatu". Agora eu ando pela cidade
e desato a chorar toda vez que passo por uma de suas ruas preferidas.
A eutanásia é um desses assuntos de competência
exclusivamente civil a respeito do qual a Igreja Católica
se sente no direito de interferir. Não é o único.
Tem também o divórcio, o aborto, as drogas leves,
a fecundação artificial, a pena de morte. Em minha
última coluna, citei, de passagem, o recente encontro do
papa com 2 milhões de jovens em Roma. Foi impressionante.
Tão impressionante que todos os políticos italianos
se acotovelaram na ânsia de beijar-lhe o anel. Os únicos
que se atreveram a contrariá-lo foram dois ou três
pensadores católicos que se assustaram com o messianismo
papal. Eles alegaram que esse tipo de religiosidade massificada
tem mais a ver com o protestantismo dos telepregadores americanos
do que com o catolicismo romano, que sempre privilegiou a interioridade
da fé. Qual é a diferença entre um casamento
coletivo do reverendo Moon, por exemplo, e a confissão
coletiva realizada durante o encontro do papa com os jovens?
João Paulo II consagrou mais santos do que qualquer outro
papa. Esse dado reflete o seu modo de ver a religião: mágica,
miraculosa, irracional. Neste exato momento, dia 3 de setembro,
ele está beatificando mais dois: os papas João XXIII
e Pio IX. Além de se tornar santo, Pio IX passa por um
processo de revisionismo histórico. Até hoje, os
italianos associaram a criação do Estado a figuras
como Garibaldi e Cavour. Agora um movimento ligado a João
Paulo II decidiu atacar essas figuras porque suas idéias
liberais minaram o poder temporal da Igreja. Pio IX é conhecido
por ter proclamado o dogma da infalibilidade papal logo depois
que as tropas garibaldinas ocuparam o Estado Pontifício.
O que os atuais sectários de Pio IX pretendem afirmar,
portanto, é que a palavra do papa é lei, devendo
ser estendida à sociedade inteira. Para o resto de nós,
a palavra do papa pode ter um grande peso moral, mas só
vale dentro da Igreja, servindo para guiar o comportamento individual
de seus fiéis. O risco é que, no ano 2000, os sectários
de Pio IX acabem por prevalecer. Quanto mais a política
se desmoraliza, mais a Igreja ocupa espaços que não
lhe competem. Não digo que vamos virar um Afeganistão.
Mas, se a Igreja pudesse proibir contraceptivos, censurar a TV,
cercear pesquisas científicas e controlar a maneira como
nos vestimos, certamente o faria. Assim como faz de tudo para
impedir a eutanásia. Eu gostaria de decidir como vou morrer.
Gostaria de ter os mesmos direitos do meu cachorro. Um beijo no
focinho do "Tatu".