Entrevista Susie Orbach

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Sexo não é obrigação

A psicanalista da princesa Diana diz que a
cobrança por uma vida sexual ativa é uma
enorme fonte de frustração nas mulheres

Monica Weinberg

A psicanalista inglesa Susie Orbach, 53 anos, é professora da London School of Economics, escreveu nove livros, incluindo um best-seller sobre a obsessão feminina pela magreza, e fundou o Centro de Terapia da Mulher, uma das referências na área. Mas só ficou conhecida do grande público graças à popularidade de sua paciente mais famosa, a princesa Diana. Susie não gosta de falar sobre a ex-paciente e não revela nem quanto tempo durou o tratamento. "O assédio a Diana estendeu-se a mim", conta. "Todos os dias, recebia telefonemas de jornalistas fazendo perguntas sobre sua vida." Susie chega ao Brasil no início de outubro para lançar sua última obra, A Impossibilidade do Sexo (Imago Editora). Um dos mais vendidos na Inglaterra, o livro fala da relação entre psicanalista e paciente e contraria uma tese muito em voga, segundo a qual quanto mais sexo melhor. Para Susie, é perfeitamente possível ser feliz fazendo sexo apenas uma vez por mês. Casada há vinte anos e mãe de dois filhos, de 11 e 16 anos, ela mora em Londres, de onde deu esta entrevista a VEJA.

Veja – Em seu último livro, a senhora diz que o sexo pode ser uma grande fonte de frustração para as mulheres. Como isso acontece?
Susie – A sociedade acredita que uma pessoa sexualmente satisfeita é uma pessoa feliz. Esta é uma das maiores fontes de frustração do mundo moderno. As mulheres sentem-se cobradas a ter uma vida sexual muito ativa. Só que, muitas vezes, elas simplesmente não querem fazer tanto sexo. É como se estivessem cometendo um erro gravíssimo por não desejar tanta atividade sexual quanto imaginam que seria correto. Vivem frustradas com a sensação de que não conseguem acertar.

Veja – Mas as pesquisas não mostram que as mulheres estão fazendo cada vez mais sexo?
Susie – Boa parte dessas mulheres está mentindo. Elas dizem que fazem sexo com o namorado todo dia porque acham que essa é a resposta certa, que é isso que as pessoas esperam delas. Só que continuam com a sensação de que há algo errado com elas, porque, de alguma forma, não estão correspondendo a uma expectativa. O pior de tudo é que essa cobrança faz com que elas se sintam insatisfeitas com o relacionamento sexual que têm. Se não houvesse tanta pressão externa, muitas poderiam ter uma relação sexual por mês e ser perfeitamente felizes. Em meu consultório aparecem muitas mulheres jovens e bonitas para as quais ler um livro ao lado do namorado pode ser tão prazeroso quanto fazer sexo.

Veja – Sexo, então, não é a base da felicidade, como sustentam alguns psicanalistas?
Susie – Acho que essa é uma idéia ultrapassada e perigosa, porque gera insatisfação, medo e vergonha. Em mais de vinte anos atendendo mulheres em meu consultório, o que percebo é que sexo para muitas delas é como se fosse uma espécie de mercadoria. Sexo é um objeto que pode ser usado quando desejarem. É bom, mas está longe de ser encarado como parte essencial de suas vidas, como enxergar ou ouvir. Para muitas mulheres, sexo não é crucial.

Veja – Isso quer dizer que essas mulheres não conseguem se satisfazer sexualmente?
Susie – O fato de muitas mulheres não colocarem o sexo no centro de suas vidas não quer dizer que elas não possam ser sexualmente felizes. A relação sexual é tão poderosa que é capaz de ser satisfatória de qualquer maneira, com maior ou menor freqüência.

Veja – E por que para tantas mulheres sexo não é crucial?
Susie – As mulheres que hoje estão na faixa dos 50 anos passaram duas mensagens contraditórias para suas filhas de 20 anos. Ao mesmo tempo que diziam "sexo é bom, vá em frente", seu comportamento transmitia uma idéia de sexo sem erotismo. Por incrível que pareça, muitas mães espelharam o velho modelo ocidental da Madonna de Leonardo da Vinci, a imagem sagrada da progenitora para quem sexo serve unicamente para reproduzir. As jovens cresceram diante dessa imagem ambígua do sexo. Sentem-se cobradas a colocar o sexo no centro de suas vidas, mas não conseguem fazê-lo plenamente.

Veja – A senhora acha que essa situação tende a mudar nos próximos anos?
Susie – Sem dúvida. Acredito que as filhas dessas meninas que hoje estão na faixa dos 20 anos farão mais sexo não porque a sociedade exige, mas porque terão vontade. A imagem do sexo como um bem de que a mulher pode dispor está começando a dar lugar ao conceito do sexo como uma necessidade natural, uma parte integrante de suas vidas.

Veja – E com os homens é diferente?
Susie – Eles reagem de modo diferente à cobrança por uma vida sexual ativa. Enquanto as mulheres escondem sua freqüência sexual por vergonha, muitos homens tentam corresponder à exigência da sociedade. Atendo vários casanovas em meu consultório. Eles têm relação sexual com várias mulheres e depois as rejeitam. Usam de terrorismo psicológico, alimentando o amor nas parceiras e depois desaparecendo. É uma maneira que alguns homens encontram de se sentir poderosos quando estão sem poder. Na realidade, vivem tão frustrados em relação ao sexo quanto as mulheres.

Veja – Por que estariam frustrados, se têm uma vida sexual tão ativa?
Susie – Os casanovas fazem bastante sexo, mas sofrem por não encontrar o amor verdadeiro. Homens e mulheres partiram de pontos diferentes, mas de quatro décadas para cá vêm se aproximando em relação à demanda afetiva. Hoje, ambos procuram relações estáveis em que haja espaço para a vulnerabilidade e a paixão.

Veja – A senhora diz que uma das impossibilidades do sexo é manter a paixão acesa em relacionamentos estáveis. O casamento é ruim para o sexo?
Susie – A monotonia que toma conta das relações estáveis é um assunto muito freqüente em meu consultório. Observo que os raros casais bem-sucedidos são aqueles que não são nem muito próximos nem muito distantes. O afastamento faz com que percam a cumplicidade, o que se reflete negativamente em sua vida sexual. Mas o que mais me chama a atenção é o que acontece com os casais que vivem grudados. É um paradoxo interessante: o excesso de intimidade atrapalha a vida sexual deles. Isso porque a falta de distância faz com que as pessoas se sintam fazendo sexo consigo mesmas. É uma experiência frustrante e fatal para a paixão. Há outras coisas que contribuem para a frustração das pessoas em relação ao sexo. Uma delas é o modelo de beleza apregoado pela sociedade atual e que afeta especialmente as mulheres.

Veja – Que modelo é esse?
Susie – É o corpo feminino perfeito, magro e esguio. A apologia do corpo perfeito é uma das mais cruéis fontes de frustração feminina dos nossos tempos. A obsessão pela magreza virou uma epidemia. Considero a busca do corpo perfeito um retrocesso no processo de emancipação feminina. Houve apenas um breve momento de progresso das mulheres nos anos 70. Depois disso elas começaram a recuar, escravizadas por um modelo inalcançável de beleza. Há uma ironia nesse fato: justamente em um tempo em que as mulheres dizem querer ganhar espaço elas procuram ficar cada vez menores e mais esquálidas. É uma forma de ligação com o passado.

Veja – E por que tantas jovens mulheres estão insatisfeitas com seu corpo?
Susie – Em grande parte elas herdaram essa insatisfação de suas mães. Se a mãe odeia seu próprio corpo, terá dificuldade de transmitir à filha a sensação de que o corpo dela é bonito. A psicanálise clássica diz que o corpo é o espelho da mente. Se a cabeça não vai bem, o corpo mostra isso. Acho essa visão muito reduzida. O corpo é independente da mente. Ele tem seus próprios problemas. O fato é que os milhares de mulheres que manifestam enorme insegurança em relação a seus corpos estão vulneráveis a qualquer outro modelo de beleza.

Veja – Durante os períodos mais críticos de sua vida, a princesa Diana sofreu de bulimia nervosa (doença em que a pessoa vomita logo depois de comer). O caso dela é um exemplo de insatisfação com o corpo?
Susie – Sem dúvida. No caso específico de Diana, em plena crise emocional seu corpo emagrecido era o espelho da cabeça. Era a imagem do sofrimento. Mas mais do que isso. O que Diana estava dizendo era: "Se meu corpo fosse de outra maneira, aí, sim, seria perfeito". Não era um problema só da cabeça, mas também do corpo. Milhares de mulheres sentem-se tremendamente angustiadas em relação a seus corpos. Elas controlam o apetite, tomam remédios e passam por cima de suas necessidades vitais porque acham que suas silhuetas devem encaixar em determinado modelo.

Veja – Por que esse modelo de beleza se tornou um padrão na sociedade atual?
Susie – Existe uma poderosa indústria de produtos de emagrecimento e de beleza que ajuda a disseminar a insatisfação. Ela amplifica a imagem do corpo perfeito nos meios de comunicação de massa. Isso vem contribuindo para o problema tomar a forma de uma epidemia. Como interessada no assunto, estou sempre lendo artigos de jornais do mundo inteiro. Essa é uma questão do mundo ocidental. Fico chocada com o número de mulheres que passam fome ou fazem cirurgias para reduzir o abdome com o objetivo de emagrecer. É assim na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil. A utilização desses métodos é uma forma de maltratar o corpo com o qual as mulheres não estão satisfeitas.

Veja – Os homens também estão correndo atrás de algum modelo de beleza?
Susie – Estão. O fenômeno entre os homens é mais recente e também está tomando uma dimensão assustadora. Se você ler as principais revistas masculinas, verá que elas estão cheias de segredinhos para alcançar o chamado corpo ideal, repleto de músculos. É a mesma linguagem das revistas femininas de vinte anos atrás.

Veja – Até hoje muitas pessoas têm vergonha de dizer que se submetem a sessões de psicanálise. É como se estivessem assumindo publicamente que sofrem de alguma doença estranha. Seus pacientes chegam envergonhados para pedir ajuda?
Susie – A situação é curiosa. As mulheres têm muito mais vergonha de procurar uma terapia que os homens. De modo geral, elas cresceram colocando as necessidades dos outros na frente das suas. Não estão acostumadas a pedir ajuda, por isso sentem mais dificuldade de receber. Só depois de algumas semanas de tratamento minhas pacientes costumam dizer "muito obrigada". Com os homens é diferente. Eles se sentam na cadeira e desandam a falar desde o primeiro minuto.

Veja – Em seu livro, a senhora fala dos sentimentos do psicanalista em relação a seus pacientes. É natural que um paciente se apaixone pelo analista e vice-versa?
Susie – Sim. Ao contrário de Freud, não acho que a atração sexual entre as duas partes necessariamente ameace o tratamento. Acho que, se o médico se apaixona pelo paciente, ele deve ir até o limite desse sentimento. Considero precipitada a atitude de romper a terapia. Acredito que essa paixão possa ser um manancial de informações importantíssimo para a compreensão do paciente. O que não dá é para realizar o amor. O sentimento pelo paciente só pode ser platônico e todo o questionamento deve ser interno.

Veja – A senhora já se apaixonou por algum paciente?
Susie – Não, mas às vezes sinto tédio ou raiva em relação a determinado paciente. Nesses casos paro e me pergunto: "Por que estou achando esse sujeito tão chato?" Vou a fundo no sentimento para entender melhor meu paciente como um ser social. Tento compreender não só o que ele pensa ou deseja, mas também o impacto de suas reações em mim. Isso me serve de material para alcançar o que as outras pessoas possam vir a sentir em relação a ele.

Veja – A popularidade da princesa Diana atrapalhou o processo de psicanálise dela no seu consultório?
Susie – O assédio à princesa Diana estendeu-se a mim. Todo dia, eu recebia telefonemas de jornalistas fazendo perguntas sobre sua vida. Nunca disse nada, é claro. Mas só o fato de as pessoas saberem que eu era sua médica quebrava nossa intimidade. Certamente nos atrapalhou.

Veja – Por que a princesa Diana foi tão popular?
Susie – Diana tornou-se um fenômeno de popularidade porque representa duas importantes facetas da mulher moderna: uma triste e outra feliz. Sua história de mulher abandonada e traída desperta a identificação de tantas outras mulheres que passaram pela mesma situação. É a faceta da vítima passiva. Mas ela não era só isso. O outro lado, o da mulher que conseguiu dar uma reviravolta em sua vida, também faz com que outras mulheres se identifiquem. Tanto as que viveram a mesma história quanto as que gostariam de um dia viver. Diana passou de uma pessoa doente e triste a um poderoso símbolo de glamour.

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