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Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

O palanque eletrônico

"O programa eleitoral na televisão pode
ter seus defeitos, mas
não é irrelevante. Pode
produzir surpresas e até alterar completamente
o resultado esperado
das eleições"

Ilustração Ale Setti


Nas últimas duas semanas estive em várias capitais brasileiras, no Sudeste, no Nordeste e no Centro-Oeste. Em todas encontrei poucos vestígios da campanha eleitoral, um ambiente de frio distanciamento da população. Já comentei aqui o desinteresse em relação ao processo eleitoral, captado pelo Ibope no Rio e em São Paulo. Um pouco mais de metade dos entrevistados se mostra totalmente alheia, o que explica parte dessa frieza do clima de campanha. Outro fator importante é que, para boa parte do eleitorado – em incontáveis casos a maioria –, a eleição municipal foi descomplicada pela reeleição: se o prefeito está fazendo uma boa administração, prefere reelegê-lo.

É claro que, se a principal razão da escolha do eleitor for sua opinião sobre a gestão do prefeito, ele não precisa de acaloradas discussões em praça pública nem comparecer a passeatas, comícios, carreatas e afins. Eventualmente, verá a propaganda eleitoral gratuita, em busca de novidade, que pode ser a propaganda do prefeito, que o fará ainda mais decidido a reconduzi-lo ao cargo. Esse eleitor só precisa buscar informação para escolher seu prefeito nas próximas eleições, quando terá de trocar de administrador. É muito provável que tenhamos elevada taxa de reeleição na maioria dos municípios: capitais ou não, grandes, médios e pequenos.

As pesquisas já mostram essa tendência. Nas dez capitais estudadas pelo Datafolha, o prefeito é o favorito em seis. Em Porto Alegre, o PT está sendo reeleito, embora com outro candidato. Mas, se o prefeito estivesse na corrida, provavelmente estaria na frente, com chance de vitória ainda no primeiro turno. Coisa parecida pode acontecer com o PSDB em Goiânia. Além dessas capitais, há indicações de que podem reeleger-se os prefeitos de Vitória, Santo André, São Bernardo, São Caetano e Guarulhos. Em Belo Horizonte e Fortaleza pode dar reeleição no segundo turno.

A principal mudança foi no Rio de Janeiro, onde o prefeito, Luiz Paulo Conde, que não aparecia como favorito nas pesquisas antes do início da campanha eletrônica, cresceu 10 pontos em menos de um mês de propaganda na TV, segundo o Ibope. Cesar Maia, que liderava na base da "memória" de sua passagem pela prefeitura e de sua campanha para governador, quando perdeu para Garotinho, caiu 7 pontos. Esse movimento foi confirmado pelos dados do Datafolha, pelos quais o prefeito ganhou 7 pontos e Maia perdeu 3 – as datas das pesquisas variam, por isso a diferença nos números, que são convergentes.

O que dizer, então, de cidades ou capitais em que a reeleição não parece clara ou é impossível, como São Paulo? Por que nelas também não há mais calor de campanha que naquelas em que o eleitor pretende manter o prefeito como prêmio por uma boa administração? O que as pesquisas mostraram, nos últimos vinte dias, é que o eleitor em vez de buscar informação nas ruas usa a TV. A propaganda eleitoral, que muitos consideram inútil e outros chata, foi responsável pelas mudanças mais importantes captadas pelas pesquisas.

O palanque eletrônico permitiu a Geraldo Alckmin deixar de ser "candidato nanico", para empatar na disputa por uma vaga no segundo turno com Maluf e Luiza Erundina, ganhando 10 pontos em menos de vinte dias. Saiu de pífios 3% para 13%, de acordo com o Datafolha. Nesse mesmo período, Romeu Tuma evoluiu de 3% para 10% e embolou ainda mais a disputa pelo segundo lugar. A pesquisa do Ibope também captou esses saltos. Os dois dispõem do maior tempo de TV. O programa de Alckmin tem sido considerado o melhor e ele tem o menor índice de rejeição, pelo Datafolha.

Em Belo Horizonte, a TV tirou o favoritismo do prefeito e o levou ao empate técnico com o tucano João Leite. Em Fortaleza – não estive lá, logo não sei se a campanha esquentou nas ruas –, ajudou o atual prefeito, Juraci Magalhães, que empatou com a favorita do governador e do presidenciável Ciro Gomes.

O palanque eletrônico pode ter seus defeitos, mas não é irrelevante. Pode produzir surpresas e até alterar completamente o resultado esperado das eleições.

 

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