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Mário de Andrade: 1 100 correspondentes, 7 000 cartas e influência em várias áreas |
O escritor paulista Mário de Andrade é um caso único na vida cultural brasileira. Morto em 1945, quando tinha apenas 51 anos de idade, produziu romances, poesia, contos, ensaios, crônicas e, em meio a toda essa atividade frenética, arranjava tempo para escrever cartas. Correspondeu-se, ao longo da vida, com cerca de 1.100 pessoas. Outros nomes, como Ruy Barbosa e Joaquim Nabuco, também eram pródigos nessa atividade. O que torna a correspondência de Mário de Andrade um caso único é que, por meio dela, o escritor teve uma poderosa influência sobre os artistas mais relevantes de sua época, nas mais variadas áreas. Na literatura, trocou cartas com os dois maiores poetas brasileiros do século -- Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira --, além de Oswald de Andrade e Cecília Meirelles, entre muitos outros. Na música, com Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Souza Lima. Na pintura, com Anita Malfatti, Lasar Segall, Tarsila do Amaral.
Depois da morte de Mário, muitos dos que se correspondiam com ele publicaram as cartas recebidas, enchendo mais de duas dezenas de livros. O primeiro foi Bandeira, em 1958. Depois vieram Cândido Portinari, Antonio Candido, Pedro Nava, Drummond e muitos outros. Isso faz com que Mário de Andrade seja um dos poucos brasileiros a ter, no jargão dos professores de literatura, uma vasta "obra epistolar". Já as cartas que recebeu não eram conhecidas do público, até agora. Metódico e organizado, o escritor arquivou a maior parte delas em pastas e, em seu testamento, determinou que só poderiam ser abertas no ano do cinqüentenário da sua morte. Durante esse período, elas ficaram guardadas num cofre no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, depositário do legado do escritor. O cofre foi aberto em janeiro de 1995. Durante mais de dois anos, uma equipe de quinze pesquisadores, chefiados pela professora Telê Porto Ancona Lopez, cuidou da leitura, resumo e catalogação das 7.000 cartas. Hoje, elas podem ser lidas -- mas só com autorização, por escrito, da família dos missivistas.
Nas cartas que escrevia, Mário de Andrade em geral assumia o papel de professor. Teorizava sobre poesia com Drummond, música com Francisco Mignone e pintura com Anita Malfatti. É isso que se depreende da leitura dos livros publicados. Já as cartas de seus interlocutores, abertas agora, trazem um atrativo diferente. Por meio delas é possível mapear cerca de vinte anos da cultura brasileira. Entre os anos 20 e 40 não havia Internet, e os telefones brasileiros eram ainda piores que hoje. Por carta, os artistas falavam de suas inquietações, de política, brigavam, fofocavam e até namoravam. Pouco mais do que uma adolescente, Anita Malfatti enviou uma carta apaixonada a Mário de Andrade, parte de uma correspondência tumultuada e prolífica (veja quadro).
Entre as cerca de 7.000 cartas disponíveis no IEB, dois conjuntos se destacam. Um é o de Drummond. Lê-se a pilha de setenta cartas, escritas em momentos agudos da vida, como uma autobiografia feita de pequenos mas fundos desabafos. Além disso, há um caderno com várias poesias inéditas em livro. O outro é o de Bandeira, o conjunto mais caudaloso -- 289 cartas -- e que mapeia, de forma vibrante, a época modernista. Sairá num livro organizado por Marcos Antonio de Moraes, um dos pesquisadores da equipe. VEJA teve acesso, com exclusividade, às principais pastas da correspondência passiva de Mário de Andrade, e publica aqui alguns dos trechos mais expressivos.
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mulher do
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da que não foi nem uma Da que ficou sorrindo
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| Acervo Mário de Andrade |
| Drummond, em foto enviada a Mário em 1927, um poema seu inédito em livro e o caderno manuscrito: conselhos úteis |
DRUMMOND
"Eu sou francês, acho o Brasil infecto"
"Preguiçoso demais", "indolente", como ele próprio se definia em suas cartas, Drummond não era capaz de escrever com constância. Mesmo assim, teve muitos correspondentes. "Ele escreveu para muita gente, mas nada tem o peso nem a densidade dessa correspondência com o Mário", avalia o crítico Silviano Santiago. "Do ponto de vista confessional, também não se conhecem documentos como esses. Talvez tenha falado de si próprio nas cartas que escreveu para a mãe, entre 1938 e 1948, que nunca foram publicadas. Para amigos, escrevia principalmente cartas sociais. Ele era muito reservado." A correspondência entre Drummond e Mário de Andrade começou em 1924, quando o primeiro era um jovem de 21 anos com pretensões literárias e o outro, o escritor já conhecido entre seus pares em função da Semana de 22. Dono de gosto literário duvidoso, Drummond era admirador do escritor Anatole France. Mário tentava convencê-lo a deixar de lado essas influências e se voltar para os temas e a linguagem do Brasil. Não era fácil. O mineiro, fã de literatura francesa, era teimoso -- até porque adorava falar mal do Brasil e dos brasileiros, como se lê:
22 de novembro de 1924
"Pessoalmente, acho lastimável essa história de nascer entre paisagens incultas e sob céus pouco civilizados. Sou um mau cidadão, confesso. É que nasci em Minas, quando deveria nascer (não vejo cabotinismo nessa confissão) em Paris. Acho o Brasil infecto. Perdoe o desabafo, que a v., inteligência clara, não causará escândalo. O Brasil não tem atmosfera mental; não tem literatura; não tem arte; tem apenas uns políticos muito vagabundos e razoavelmente imbecis ou velhacos. Detesto o Brasil como a um ambiente nocivo à expansão do meu espírito. Sou hereditariamente europeu, ou antes: francês. Agora, como acho indecente continuar a ser francês no Brasil, tenho que renunciar à única tradição verdadeiramente respeitável para mim, a tradição francesa. Tenho que resignar-me a ser indígena entre os indígenas, sem ilusões. Enorme sacrifício."
30 de dezembro de 1924
"Pois olhe: estou com o Oswald num ponto. A suprema expressão de brasilidade é a estupidez. E se nós quisermos ser brasileiros de facto, sejamos burros, bárbaros, primitivos, não façamos pesquisas psicológicas; não viajemos em Joyce (o escritor irlandês James Joyce, autor de Ulisses), Conrad (Joseph Conrad, autor de O Coração das Trevas, base do filme Apocalypse Now), Cendrars (o poeta francês Blaise Cendrars), Proust (Marcel Proust, autor de Em Busca do Tempo Perdido) e outros ilustríssimos estrangeiros... Ah! Se o obrigassem a isto, meu velho... V. preferiria suicidar-se."
O tom das cartas de Drummond nos primeiros cinco anos é angustiado. Pede conselhos sobre o casamento, idéia que o apavorava, mas sua grande fonte de angústia era mesmo a literatura. Em 31 de maio de 1926, enviou um caderno manuscrito a Mário. A primeira parte trazia poemas publicados em jornais. A segunda, um livro, dedicado a Mário de Andrade, com o título Minha Terra Tem Palmeiras. O juízo do intelectual paulista foi arguto. Destacou com elogios escritos a mão os poemas que passariam à posteridade: "Família", "No meio do caminho", "Cidadezinha qualquer". Espinafrou o título "Minha Terra Tem Palmeiras" e, por carta, deu alguns conselhos úteis ao poeta que escrevia versos do tipo E havia nos teus seios escondidos/ eu bem que percebia/ o desejo duns lábios... e duns dentes. "As reticências tiram a sensualidade dessas frases e tornam elas perversas", aconselhou Mário. "Bote a frase franca que assim ela fica sensual mas pura. E o poema de você é puro." O livro saiu em 1930 com o título Alguma Poesia. As cartas mostram que, publicado o livro, a angústia de Drummond diminuiu.
| Manuel Bandeira: fofocas sobre a turma do modernismo e exaltação ao Carnaval e ao futebol | ![]() |
27 de abril de 1930
"Eis aí, Mário e amigo, a história da impressão de minha obrinha primeira. Ela aí vai. (...) A sensação que experimento, ao ver esse livro concluído, é de alívio. Sim senhor! Que coisinha mais difícil de parir. Sinto que me libertei de alguma coisa incômoda, que me aporrinhava silenciosamente. Estou purgado de dez anos de lirismo desenfreado. Agora posso fazer outra coisa ou voltar a não fazer coisa nenhuma; de qualquer maneira, sou um cidadão impresso."
Drummond pouco escreve sobre política. Quando o faz, é em tom de perplexidade em relação às angústias de Mário nesse campo.
18 de maio de 1930
"Olhe, eu também sou um homem que gostaria de pegar em armas. (...) Mas quando penso que iria marchar em defesa desses pobres candidatos eleitos do PRM (Partido Republicano Mineiro), por exemplo, ou desse pobríssimo candidato Getúlio, palavra que perco o furor bélico. Não, é inútil tentar consertar o Brasil, ou por outra, o desconcerto eterno do Brasil é o seu próprio traço diferencial, o seu modo de ser... Acho que você está-se tornando infeliz sem motivo, e só compreenderia essa infelicidade por uma topada legítima nalguma pedra de meio de caminho, mas pedra de fato, dessas que a gente encontra na nossa vida individual."
Sobre a vida pessoal, o maior desabafo de Drummond vem no ano seguinte, com a morte do pai, o fazendeiro Carlos de Paula Andrade.
29 de setembro de 1931
"Há dois meses perdi meu pai, bruscamente, sem nenhuma preparação espiritual para isso. Até hoje não sei o que esse golpe representa para mim. A lembrança dele, com a reflexão de que talvez eu pudesse ter contribuído para que vivesse mais algum tempo, e a tristeza de não ter sabido que ele ia morrer, formam para mim uma impressão penosa e difícil de cultivar. E em mim há uma grande secura interior, que às vezes faz com que me censure a mim mesmo por não sofrer bastante essa perda. Pensei que ela me tornaria melhor, mas a verdade é que não sinto dentro de mim nenhum amadurecimento, nenhum perdão para os homens, a vida... E para cúmulo de tudo não creio em Deus, se é possível ter uma frase tão arrogante como essa."
BANDEIRA
"Monteiro Lobato é um canalha"
O poeta pernambucano Manuel Bandeira foi o maior correspondente de Mário de Andrade. No acervo constam 289 cartas escritas ao longo de vinte anos, entre 1922 e 1944. Mário e Bandeira tinham muitas coisas em comum. Ambos eram poetas e gostavam de artes plásticas e música. "O curioso é que, ao vivo, ambos eram tímidos e quase não conversavam", observa Marcos Antonio de Moraes, o organizador do livro com as cartas de Bandeira. "Só trocavam confidências por carta." Eram também hipocondríacos. Mário adorava queixar-se de sua úlcera e de sua enxaqueca. Em Bandeira, que era tuberculoso, encontrou um interlocutor à altura.
31 de maio de 1923
"Perguntas pelos meus poemas e pelos meus projetos. Não tem projetos quem vive, como eu, ao Deus-dará do amanhã. Sabes o que um médico de Clavadel (cidade suíça onde Bandeira fez tratamento médico) me disse quando me auscultou pela última vez em 1914? Que eu tinha lesões teoricamente incompatíveis com a vida! O meu organismo acabou espontaneamente vacinado contra a infecção tuberculosa, mas fiquei um inválido. Sou incapaz de um esforço seguido. (...) Como eu teria vontade de fazer, de escrever dois ou três romances! Isto, então, é completamente impossível."
O que há de mais divertido nas cartas de Bandeira são as fofocas sobre a vida mundana da turma modernista. Tenta colocar panos quentes nas famosas brigas com o escritor Oswald de Andrade, autor do Manifesto Antropofágico e uma espécie de rival de Mário no papel de guru do modernismo.
13 de outubro de 1924
"Se te afastaste do Oswald por causa dos outros, agiste mal. Tenho ouvido coisas tremendas contra o caráter do Oswald. Inclino-me até a crer que sejam verdades. Mas o Oswald tem aquela perigosa e deliciosa ingenuidade nos olhos. Acredito mais na amizade dele para contigo do que na de outros. Os outros temem-te. O Graça (Aranha, escritor de Canaã e participante da Semana de Arte Moderna) não é amigo de ninguém. É só um organizador de grupos."
Há também desabafos:
24 de setembro de 1923
"O Monteiro Lobato acaba de me comunicar que não publicará mais meu livro, conforme ele se comprometera formalmente há um ano, compromisso esse várias vezes renovado. Sendo que a última confirmação veio de lá há um mês. É um canalha, cuja palavra não merece fé. E como não posso confiar que ele me devolva os originais com a devida cautela para que não se percam no Correio, peço-te, meu caro Mário, o grande favor de passares pelo escritório da firma dele."
Ao contrário de Drummond, Bandeira era um entusiasta das coisas brasileiras. Gostava de Carnaval, futebol e de viajar pelo país, como atestam os trechos abaixo.
7 de março de 1923
"O carnaval do Rio é bem o que você diz. A alegria popular, desavergonhada, mas também sem bestialidade. Os estrangeiros, habituados aos festejos do populacho europeu, sentem-se encantados com as nossas festas. Parece que lá na Europa o regozijo plebeu é de uma ferocidade repugnante. Meu pai estava de passagem em Londres quando se assinou o armistício. Ficou horrorizado com o que viu nas ruas."
16 de abril de 1925
"Tenho me esquecido de falar nas vitórias do Paulistano (time de futebol da elite de São Paulo da época). Por aqui o entusiasmo foi grande também mas não faltaram os 'intelectuais' protestando contra essa 'escola de coice', desolados por verem toda a humanidade sacudida por essa 'paixão inferior'. Como é que esses araras não percebem que esses movimentos coletivos hão de por força ter um significado mais profundo do que o que eles aparentam? O foot empolga as gentes mais arredias ao sport. Tenho visto negociantes, reumáticos, embevecidos na paixão abrasante de ganhar, interessadíssimos em discussões."
18 de janeiro de 1927
"Mário, Mário, estou apaixonadíssimo pela Bahia! É uma terra estupenda. Centenas, centenas de baitas sobradões de quatro andares. Se eu pudesse levava um pra mim e outro pra você. Solares de forte e sóbria linha senhoril com portas de pedra lavrada, de madeira de lei, onde moram pretinhas meretrizes e a gente pobre mais pobre deste mundo! Você espia um lugar onde só vive rato e vê um oratoriozinho com a lamparina de azeite queimando. O largo do Pelourinho é a vista urbana que um brasileiro pode mostrar a um francês sem ter nenhuma dor de corno pela perspectiva dos Campos Elíseos ou da avenida da Ópera."
OSWALD
"Estou na intimidade de Picasso e Cocteau"
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São poucas as cartas de Oswald de Andrade guardadas por Mário. Vinte e sete ao longo de nove anos. A primeira foi recebida em 1919 e a última, em 1928. Esperava-se que esclarecessem o verdadeiro motivo da briga entre Mário e Oswald de Andrade, que ficaram sem se falar de 1928 até a morte do autor de Paulicéia Desvairada, em 1945. Mas as cartas não tocam no assunto. "É possível que Oswald tenha enviado cartas a Mário depois dessa data. Nesse caso, teriam sido destruídas", diz Telê Ancona Lopez. O interesse da correspondência de Oswald é outro, literário. A maior parte das cartas foi escrita em 1923, ano em que Oswald viajou para a Europa com o intuito de, segundo ele próprio, divulgar o modernismo brasileiro. Na verdade, queria passear e conhecer gente famosa. Suas cartas são saborosas crônicas de viagem, escritas no estilo telegráfico que o consagrou. Há também, em algumas delas, desenhos feitos pelo próprio Oswald satirizando figuras do modernismo. O escritor era capaz de perder um amigo, mas nunca a anedota mordaz. Numa das cartas faz uma blague com o escultor Victor Brecheret, o autor do Monumento às Bandeiras, cartão-postal de São Paulo: "O Brecheret está fazendo um auto-retrato. Finalmente, vou ver um cavalo em tamanho natural".
29 de janeiro de 1923
"Lisboa ainda e sempre.
(Para ser lida e gozada numa terça-feira.)
A geração contemporânea está, surpreendentemente, à
nossa disposição.
Dói a você eu estar com essa amável incumbência.
Você, o mais bonito da nossa geração (estamos em
Portugal, terrinha da piada).
Ontem, Janelas Verdes.
Jerônimos, hoje.
Amanhã estarão verdes as janelas dos Jerônimos!
E eu no Chiado, na Baixa, andando no ferro-carril. Este
mundo dá voltas, dá voltas! E o ferro-carril também,
comigo dentro."
Em outras cartas, em Paris, Oswald gosta de aparentar
intimidade com celebridades.
18 de abril de 1923
"Manhã paulista num 1º
andar do Boulevard de Clichy de 18 de abril do bom ano de
1923.
Recebi tua carta ansiosa. Que se passa? Todos os dias
passam-se coisas novas.
Estou já há bastante tempo na intimidade de (Pablo) Picasso
e Cocteau (Jean Cocteau, poeta francês). Há
dificuldades em encontrar outros. Max Jacob vive num
convento do Louvre.
Brecheret, você, Menotti e a corja serão lançados por
mim em próxima conferência. Grande agitação nos
maiores da América Latina em Paris."
Oswald também gosta de brincar com a mania de Mário de tentar criar uma língua brasileira e escreve errado de propósito:
"Mestre Mário,
O intrigante do Yan (de Almeida Prado, historiador)
me mostrou prá mim uma carta de você que diz assim que
você não imita eu. É verdade. Você é a prática
culta da língua. Eu é a prática inculta. Pobrezinho
que nem Minino Deus.
Sabe. Me deu pra mim uma comoção de você oferecer prá
mim o seu livro da tal escrava que não se chama Inzaura.
Eu prifiria uma iscrava chamada...
Malicioso! Tá rindo!
Feio!
Em todo caso fico muito agradecido e não miricia tamanha
honra. Sei que você agora deu pra jogador e corrupiê no
Automovis Club. Bem bão! Tá pagando a má língua.
Té logo.
Osvardo
Cidade-luz-domingo-depois-do-baile."
Passado o ano de 1923, há uma carta curiosa, de 1928, em que Oswald, novamente em Paris, esboça tipos de seu romance mais conhecido, Serafim Ponte Grande.
1º de março de 1928
"Andei com Serafim pelo Oriente, confirmando adivinhações. A Grécia. Aquilo mesmo em Constantinopla. No fox-trot do Pera-Palace uma conquista... e um amigo.
A conquista chama-se Claridad.
O amigo chama-se Calimerio Modernophilos e revela ao 'nosso herói' o 'Losango Caqui' e 'Pilaf' (...) Pilaf é o arroz. Serafim pensa que é o nome da guilhotina de kamal Pachá, degolador de... fezes. Pilaf é simplesmente o arroz turco com moscas. Caridad Claridad viaja com o pai que lê a Bíblia, a mãe que namora, o irmão que dança como um negro. Complicações para o nosso herói (...).
Foi no Egito a tragédia. Serafim teve que escafeder-se de quatro, no trem branco de Luxor, no trem louco de Luxor. O general atrás. O tal que lia a Bíblia. Como vês, nunca mais que sempre querido Mário, estou ficando parecido com o Eça de Queiroz."
O livro Serafim Ponte Grande foi publicado cinco anos mais tarde, em 1933. Caridad Claridad é uma das personagens. Calimerio Modernophilos ficou de fora.
A paixão secreta da pintora
Reza uma velha fofoca modernista que Anita Malfatti tentou seduzir Mário de Andrade. Agora é possível reconstituir a história. Em 23 de fevereiro de 1924, Manuel Bandeira escreveu a Mário: "O que lhe contaram de Anita não era intriga. Ela está apaixonada por você e esperava que você se definisse. Escreveu-lhe uma carta em outubro falando claramente no assunto e não tem resposta de sua parte. Está agitada e balançava entre: amor próprio ofendido, se você recebeu a carta e não quis responder; apreensão, de que a carta tenha ido para outras mãos que não as suas". Na correspondência de Anita Malfatti não é possível encontrar a tal carta. Mas há outra, em que a pintora se desculpa e pede para que Mário rasgue a carta, "por cavalheirismo". O escritor, ao que tudo indica, foi cavalheiro -- pois não há sinal da carta apaixonada. "Sempre houve esse boato, e agora as cartas trazem a confirmação", diz a professora Martha Rossetti Baptista, estudiosa da vida e da obra de Anita Malfatti há vinte anos. Outra especulação, levantada por Oswald nos anos 20, diz respeito à suposta homossexualidade de Mário de Andrade. Essa as cartas do IEB não esclarecem. Mas há uma carta lacrada de Mário a Bandeira na Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro. Na semana passada, jornais insinuaram que ali estaria a chave do mistério. Diante da nova onda de boatos, herdeiros de Mário de Andrade deram ordem para manter o lacre. |
O narciso
Como escrever poesia não dá camisa a ninguém, Mário de Andrade tinha também uma profissão: professor de música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Por entender do assunto, Mário adorava dar palpite na obra de vários músicos da época, e suas opiniões eram respeitadas. O maior de todos, Heitor Villa-Lobos, não dava espaço para Mário opinar. Já com algum prestígio quando a Semana de Arte Moderna aconteceu, não fazia perguntas nem expunha dúvidas em suas cartas. Limitava-se a contar suas proezas em solo europeu, para que Mário as divulgasse no Brasil. Numa carta de 7 de novembro de 1929, chega a falar de si próprio na terceira pessoa, prática que Pelé iria consagrar décadas mais tarde. "Dizem que o prometido é devido, portanto... lá vão uns rabiscos meus dando conta da nova estada em Barcelona. Escrevo ainda emocionado com o sucesso do Villa em Barcelona. Foi um dos grandes triunfos por ele conquistado, um sucesso delirante! Era uma série de quatro concertos ibero-americanos. Três já se realizaram, ficando o Brasil por último, aguardando a chegada do Villa. Como sabes, o Villa foi convidado para reger pessoalmente suas obras. Com os bons amigos que temos em São Paulo, conseguimos vencer as primeiras dificuldades!" |
O vermelho"Você então não compreende que cada vez que um intelectual do teu valor faz uma crítica à Rússia, pensando que está ressalvando sua independência e liberdade intelectual, está prestando um serviço à burguesia. É um serviço dos mais ignóbeis, Mário, que é o de atacar o país da ditadura do proletariado, fingindo confundir essa ditadura com as outras ditaduras e falando em nome de uma liberdade de espírito que não existe, Mário, fora da Rússia." O jovem Carlos Lacerda, então com 20 anos, não poupava o intelectual Mário de Andrade da patrulha ideológica, como se vê por essa carta, datada de 18 de setembro de 1934, em que ataca um artigo publicado pelo escritor. Nessa época, Carlos Lacerda, que mais tarde seria governador do Estado da Guanabara pela UDN, estudava direito e era uma das estrelas da Juventude Comunista, com amigos em Moscou e tudo o mais. Acreditava poder fazer de Mário, além de amigo, "um companheiro" e, para tanto, enche sua carta de citações que vão de André Malraux a Gorki. Pena que as respostas do intelectual se tenham perdido. "Tenho guardadas umas quatro ou cinco cartas do Mário de Andrade para o meu pai. Em uma delas, de 1942 ou 1943, o Mário fala sobre o poema 'Carro da miséria', sobre sua posição política e o comunismo. As outras são cartas mais do dia-a-dia. Só essas eu consegui salvar, porque meu pai nunca teve um arquivo organizado", diz Sebastião Lacerda. |
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