O povo tem raiva

Para o dirigente do MST, o governo de Fernando
Henrique vai entrar para a História como o que
mais agravou a questão social

Expedito Filho

"É ridículo o Fernando Henrique se comparar a Tony Blair, o trabalhista inglês. FHC é nossa Thatcher de calças"
Foto: Liane Neves  

Líder do Movimento dos Sem-Terra, o economista João Pedro Stedile está empenhado num projeto claro: quer derrubar o modelo econômico neoliberal do governo. Nos últimos tempos, Stedile tem percorrido o país para dar palestras -- dá uma por dia, pelo menos. Fala para estudantes em universidades, trabalhadores nos sindicatos e também para pequenos empresários. Quando viaja a convite, vai de avião, com passagem paga pelo anfitrião. Se anda por conta do MST, só viaja de ônibus. Não cobra um tostão pelas palestras. Mas, quando abre a boca, incomoda o governo, que, pela segunda vez, pretende processá-lo por incitação ao crime e à desordem, devido aos seus convites para que os excluídos invadam escolas e terras. Aos 43 anos, quatro filhos, gaúcho de Lagoa Vermelha, Stedile gosta de jogar futebol (é um zagueiro do tipo que dá canelada até no juiz) nas horas vagas e diz que sua maior diversão é ler crônicas de Luis Fernando Verissimo. Na semana passada, entre uma palestra numa universidade e outra num sindicato, Stedile deu a seguinte entrevista a VEJA:

Veja -- O que o senhor pretende quando prega ocupação de terras, invasão de terrenos baldios, de escolas...

Stedile -- Queremos derrubar o modelo neoliberal. Com ele, não haverá reforma agrária. Nós estamos convencidos de que a reforma agrária só acontecerá se houver um mínimo de desenvolvimento, o que não vai acontecer com esse modelo.

Veja -- Para derrubar o modelo, o senhor também quer derrubar o governo?

Stedile -- Espero que não seja necessário. Mas é certo que estamos diante do pior governo da História em termos de propostas para o social. No ano que vem, com as eleições, vamos ter uma oportunidade de mudar o governo. Seria caótico se estivéssemos longe das eleições, mas há uma chance em 1998. Fernando Henrique ficou embasbacado com as idiotices da globalização e esqueceu que o povo precisa comer, precisa morar, quer terra, quer saúde, educação. A reeleição não é mera vaidade do Fernando Henrique, como certos oposicionistas dizem. O governo precisa repetir quatro anos para terminar a implantação do modelo que nós vamos derrubar. O Fernando Henrique não conseguiu privatizar tudo em quatro anos, não conseguiu destruir a agricultura nesse prazo. O modelo é lento. Ele precisa de mais quatro anos para terminar o serviço. Toda noite, quando dona Ruth chega para ele e diz "Deixa isso para outro", ele diz "Você sabe, nós precisamos implantar o modelo". E aí se candidata de novo. Ele não está a serviço de sua vaidade, mas a serviço de um modelo que nem é brasileiro. Ele é um instrumento. Não é o motor.

Veja -- O que é esse governo, então?

Stedile -- O governo não possui um modelo econômico para a sociedade brasileira. A política econômica fere a soberania nacional, pois o principal compromisso é com o capital financeiro internacional. Para o governo, esse compromisso vale mais do que os direitos do povo. Quando o Fernando Henrique se aposentar, ele vai se arrepender do que está fazendo. Seu governo vai entrar para a História como o que mais agravou a questão social. Se ele não fizer essa autocrítica, espero que dona Ruth faça e diga "Fernando, você estava enganado".

Veja -- A primeira-dama tem influência?

Stedile -- Nenhuma. Nós imaginávamos que ela pudesse atuar mais no social, mas o governo não tem a sua marca.

Veja -- Com as ameaças de processá-lo por suas declarações, o governo está querendo calá-lo?

Stedile -- O Iris Rezende não tem moral para me processar. Quando foi guindado à condição de ministro da Justiça, ele disse que "o crime, às vezes, é inevitável". Portanto, ele próprio fez apologia do crime. Além disso, até agora não explicou quem pagou as kombis chapas-brancas que levaram funcionários de Goiás para Brasília no dia de sua posse. É lamentável que ele só tenha assumido o cargo como fruto de negociatas de voto. No governo, como denunciou Sergio Motta, esse ministro e zero são a mesma coisa. Ele não faz nem desfaz.

Veja -- A sua idéia de formar pelotões populares no 7 de setembro é uma tentativa de atrair a simpatia dos militares?

Stedile -- A palavra pelotão tem uma conotação militar, mas essa idéia é da CNBB e já vem há três anos. Resolvemos, agora, chamar com mais força. Queremos neste ano chegar a 1 000 cidades. É uma manifestação contra a quebra da soberania nacional. O objetivo não é nos associarmos aos militares, mas à pátria. Os militares que façam o julgamento que quiserem.

Veja -- As pesquisas asseguram uma margem de apoio confortável para o governo. Como o senhor explica isso?

Stedile -- Eu não acredito nelas. O governo está mal. Nas conversas com o povo, sabe-se que em cada família brasileira há um desempregado. Eles sabem que a culpa é do governo. Em cada família brasileira há um aposentado e eles viram como afronta o aumento de 8 reais. Fernando Henrique não imagina como a situação está complicada. O povo tem raiva dele. Na população pobre, está muito mal. O grau de indignação chegou à classe média. Metade dela está viajando para Nova York, Miami e Bariloche e aplaude o governo. Mas a outra metade foi esquecida. Recentemente fui convidado para o Congresso Nacional dos Lojistas, promovido pela Confederação Nacional. Quando cheguei, o presidente da confederação, Gerson Gabrielli, foi logo avisando: "Você não precisa falar mal da política econômica nem dos juros, porque isso nós fazemos". Sabe por que me convidaram para fazer uma palestra? Eles queriam saber como se organizar para tornar o movimento deles mais forte. Eles também querem acabar com o neoliberalismo.

Veja -- A marcha dos sem-terra em Brasília, em abril passado, ajudou?

Stedile -- Com a marcha, forçamos o governo a mudar de tática. Até lá, eles adotavam a política de isolamento em relação ao MST. Isso acabou. Agora o governo conversa e depois bate. É uma política de pancada e prosa. Teve também um efeito multiplicador no ânimo da militância. Mas, da reunião no Palácio do Planalto, não ficou nada que indique avanço na reforma agrária e muito menos mudança da sua política agrícola.

Veja -- Só agora o MST descobriu a disposição do governo com relação à reforma agrária?

Stedile -- O governo estava nos enganando. Eu não tinha tanta clareza sobre isso. No processo percebemos as verdadeiras intenções do governo.

Veja -- E quais são?

Stedile -- Eles querem copiar o modelo americano. A expectativa é de que só 5% da população permaneça no campo na próxima década. Então, o governo vai estimular as empresas produtoras de grãos para exportação. Para eles, falar de pequena propriedade ou de agricultura familiar é perda de tempo. Eles acham que só irão sobreviver os pequenos produtores que estiveram ligados à agroindústria. O peso vai para tecnologia e capital. Só entrará no mercado quem colocar seu produto em Porto Alegre e em Porto Velho ao mesmo tempo. Os pequenos ficarão de fora. Desapropriar e assentar não faz sentido para quem tem essa visão. Não cabem, aí, nem o pequeno agricultor nem a reforma agrária.

Veja -- O MST quer virar partido político?

Stedile -- Não. Nós não queremos organizar os excluídos, não temos capacidade nem é a nossa missão. Só achamos que se os excluídos não se organizarem o caminho deles será um só: a marginalidade. Há poucos dias, um comandante de Boeing me chamou na cabine e me contou que deu parte do salário para ajudar o seu irmão, que trabalhou no Banco do Brasil durante 22 anos, para comprar uma caminhonetinha para vender cachorro-quente na rua. Aqui vem o meu alerta para Fernando Henrique e a elite brasileira: se uma população tão grande de excluídos continuar à solta, sem organização, aí sim o Brasil vira barril de pólvora. O desempregado tende às saídas individuais, que são a bandidagem, a prostituição, o tráfico de drogas. Só ficam multiplicando as mazelas do capitalismo que ferem moralmente a nossa sociedade.

Veja -- O senhor será candidato a deputado nas próximas eleições?

Stedile -- De jeito nenhum. A minha função é continuar a ajudar a construir o movimento dos sem-terra e lutar pela reforma agrária. Mas não desmereço o trabalho parlamentar e institucional. Ele é necessário, mas o fundamental é a organização de massas. Em toda história da humanidade só o povo organizado em mobilização de massas fez mudanças profundas.

Veja -- O senhor gosta de criar polêmica?

Stedile -- Imagina. Eu acho que a imprensa está mancomunada com o Palácio do Planalto. Hoje eu li quatro editoriais e os quatro falam sempre a mesma coisa. Em determinados momentos, eu sou usado e viro bode expiatório.

Veja -- Como assim?

Stedile -- Sempre disse que os sem-teto devem ocupar os terrenos baldios. Tem coisa mais pacífica que famintos fazendo manifestação em supermercado? É uma forma de chamar a atenção para a fome. Falei isso um tempo atrás, numa palestra no Rio de Janeiro, e só teve aquela retumbância toda porque o governo queria tirar a atenção do escândalo da compra de votos da reeleição. Cumprimento os marketeiros do Palácio do Planalto. Eles têm uma capacidade impressionante. Pautam o que querem. A imprensa se pauta por conversas telefônicas com marketeiros palacianos ou por jantares com ministros. Vai aqui outro apelo: jornalistas do Brasil, larguem mão da vaidade de ser paparicados pelos governos de plantão, pois eles são efêmeros. Os problemas e a História do Brasil são perenes. Os jornalistas ainda vivem querendo dizer que eu sou isso ou aquilo...

Veja -- O que o senhor é?

Stedile -- Sou um socialista cristão. A maioria dos militantes do MST é isso. Cristão pela formação nas comunidades eclesiais. E socialista por causa da tradição histórica dos trabalhadores. Não existe nada mais moderno que sonhar com o socialismo. Atrasado é continuar defendendo o capitalismo, o latifúndio.

Veja -- O MST vive elogiando aquela revolta camponesa em Chiapas, no México. Por quê?

Stedile -- Chiapas cumpriu um papel histórico importante ao mostrar ao mundo que o neoliberalismo fracassou no México. Antes, as elites, dentro e fora do Brasil, apresentavam aquele país como modelo, e agora ninguém mais fala nisso. Num certo sentido, Chiapas foi a queda do Muro de Berlim para o capital financeiro internacional.

Veja -- O que o senhor acha da vitória da esquerda reformista na França e na Inglaterra?

Stedile -- É um sinal importante de que o neoliberalismo não conseguiu resolver problemas sociais nem nos países desenvolvidos. Houve aumento do desemprego e pioraram as condições de vida da população. As eleições, embora não apontem para mudanças radicais, mostram que o povo quer mudanças. Achei ridículo quando o Fernando Henrique se comparou ao Tony Blair, o primeiro-ministro inglês. Ele é nossa Margaret Thatcher de calças.

Veja -- O MST resolveu copiar a revolução bolchevique de 1917, na Rússia?

Stedile -- Não. Nós não somos bolcheviques, somos um movimento de massas que luta pela reforma agrária. Toda vez que procuram um bode expiatório nos acusam de bolcheviques. É uma grande bobagem. Podem botar o rótulo que quiserem, que não vai pegar.

Veja -- Mas o senhor admira os bolcheviques russos?

Stedile -- Admiro a forma simples com que eles se comunicavam com os marginalizados. Com uma linguagem simples, eles apresentavam as soluções concretas para a Rússia de 1917, resumida na palavra de ordem "pão, paz e terra". Isso todos entendem. Há poucos dias, falei num debate acadêmico que o modelo do MST é mais parecido com o Zapata (Emiliano Zapata, líder da revolução mexicana de 1910) do que com o bolchevismo.

Veja -- O que o senhor anda lendo de interessante?

Stedile -- Agora estou lendo O Horror Econômico, de Viviane Forrester, livro com que pretendo presentear o presidente Fernando Henrique na próxima audiência.

Veja -- O senhor teve alguma surpresa agradável com a política brasileira nos últimos tempos?

Stedile -- Nenhuma. Mas a esperança é a última que morre.

Veja -- Como o senhor acha que vai estar o Brasil daqui a vinte anos?

Stedile -- Tenho certeza de que algumas coisas terão melhorado. O Brasil terá feito sua reforma agrária, tenho certeza. Terá uma sociedade mais igual, mais socialista. A idéia de igualdade irá ganhar cada vez mais influência daqui para a frente.

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