A partir desta semana,
VEJA trará pequenas
reportagens em forma de notas sobre a Olimpíada,
o cotidiano de Pequim e de outras cidades da
China onde estão seus enviados especiais
Ser
forasteiro na rua cintilante
Em 1920, um guia turístico inglês já dizia
sobre a principal rua comercial de Xangai: "The Chinese
delight in brilliant light" os chineses deliciam-se
na luz brilhante. Tão cintilantes quanto os luminosos
da Nanjing Road, só os de Times Square, em Nova York,
e os de Ginza, em Tóquio. Da manhã à
noite, sete dias por semana, milhares de chineses passeiam
pelo seu calçadão de 1 quilômetro. Aos
poucos, os negócios mais populares estão dando
lugar a luxuosas lojas de departamentos, com grifes globalizadas.
Mas ser ocidental em Nanjing Road continua a guardar algo
do passado colonial. Numa única caminhada noturna,
o forasteiro pode ser abordado dezenove vezes por homens e
mulheres oferecendo bugigangas; sete vezes por cafetões
apresentando seu cardápio feminino ("O senhor
paga um café e decide depois"); e quatro vezes
pelos próprios pratos dos cardápios femininos.
Os números são exatos. Mario Sabino
Citius, altius,
fortius e mais cultos Em Pequim, o atleta que quiser
ir um pouco além do lema dos Jogos (o latinório
acima significa "Mais rápido, mais alto, mais
forte") e aprender noções básicas
do mandarim e da cultura chinesa pode freqüentar um centro
de ensino na Vila Olímpica. Trinta professores voluntários
ensinam os rudimentos do idioma, entre os quais três
dezenas de frases de alguma forma relacionadas à competição.
No tocante a hábitos e costumes, a vila também
dispõe de cerimônias do chá e horários
de acupuntura. Convenhamos, é ideal para os que não
têm nada a perder. Ou melhor, nenhuma medalha a ganhar. Mario Sabino
Sharron Lovell
MAO
NÃO APROVARIA
"Noivos" posam para foto anos depois do casamento:
indumentária burguesa liberada
Retratos da
festa que não houve Considerado "indumentária
burguesa", o vestido de noiva foi banido da China durante
todo o período em que durou a Revolução
Cultural, o movimento liderado por Mao Tsé Tung que
perseguiu, histérica e violentamente, supostos "reacionários"
no país ao longo de dez anos. Entre 1966 e 1976, quem
quisesse que se casasse de uniforme e bonezinho maoísta
e sem nenhum fricote que pudesse ser associado à
"decadência capitalista", incluídas
aí as fotografias comemorativas. Foi assim que uma
geração inteira de casais, atualmente com idade
entre 60 e 70 anos, ficou sem o seu álbum de casamento.
Pensando nela, um empresário de Pequim, depois de herdar
o ateliê de fotografia do pai, decidiu montar o "Alegria
do Crepúsculo", hoje uma cadeia de doze estúdios
espalhados pela China, dedicados exclusivamente a retratar
casais de meia-idade em trajes de casamento. Com maquiadores,
cabeleireiros e fotógrafos, além de um acervo
de vestidos e roupas masculinas para aluguel, nos estilos
chinês e ocidental, os estúdios reconstituem
uma cerimônia que nunca existiu, mas que fez falta para
muita gente, como prova o estrondoso sucesso da cadeia. "Já
chegamos a receber vinte casais por dia", diz a gerente
do ateliê de Xangai, Jing Zong. "E todos saem muito
felizes daqui, especialmente as mulheres." Thais Oyama
Mark Ralston/AFP
SEGURANÇA LINHA-DURA Revista policial na Praça
da Paz Celestial, em Pequim: prevenção contra
terroristas e bandeiras do Tibete
Praça
sitiada A Praça da Paz Celestial,
em Pequim, está inteiramente cercada por cordões
de isolamento. Nos pontos de vistoria instalados nas suas
entradas, policiais revistam as bolsas dos visitantes e os
submetem a exames por detectores de metal. Depois da cerimônia
diária de descida da bandeira nacional, que atrai alguns
milhares de espectadores no fim da tarde, a polícia
evacua imediatamente o local e a praça em que
centenas de manifestantes foram mortos, nos protestos de 1989,
dorme completamente vazia. Durante o dia, estrangeiros e chineses
pertencentes a alguma minoria étnica formam o público
mais visado pela segurança. Isso porque o governo chinês
teme atentados terroristas mas teme também que,
no meio de um grupo de estrangeiros, surja de repente uma
bandeira do Tibete. A independência da região,
causa que conta com a simpatia de diversos países,
é o último assunto sobre o qual os chineses
desejam falar nesta Olimpíada. Thais Oyama
Feira de noivos
AFP
QUEM QUER CASAR
COMIGO? Na Praça do
Povo, pais olham currículos de candidatos
a subir ao altar com seus filhos: bom salário
é condição fundamental
Mesmo no calorento verão
de Xangai, todo sábado e domingo, eles estão
lá. As centenas de pais e mães que se
reúnem à tarde na Praça do Povo
abanando-se com seus leques e espiando a concorrência
com o canto do olho têm um mesmo objetivo:
ajudar seus filhos e filhas, quase sempre únicos,
a encontrar um parceiro para casar. O método
lembra o de uma feira livre: fichas com os dados dos
candidatos são penduradas nas árvores
ou pregadas em sacolinhas de compra que ficam encostadas
nos bancos para apreciação dos passantes
todos pais de solteiros também (curiosos
não são exatamente bem-vindos). As fichas
trazem uma breve descrição do candidato
ou candidata ao altar: "Senhorita Zhou, filha única,
nascida em dezembro de 1981, 1,62 metro de altura, beleza
modesta, colegial completo, empregada em uma companhia
de transportes aéreos, salário anual de
80 000 iuanes (o equivalente a 11 700 dólares),
descontadas as deduções". Em seguida,
o cartaz explica o que a senhorita Zhou (ou seus pais)
espera do seu futuro marido: bom emprego e bom salário
são itens obrigatórios. Esse tipo de exigência
ajuda a explicar o fato de que, embora o último
censo afirme existirem 116,9 homens para cada 100 mulheres
na China (conseqüência da política
do filho único, instituída em 1979, e
da grande quantidade de abortos de meninas que ela provocou),
as mulheres, ao menos as da cidade, não levam
grande vantagem na hora de escolher o parceiro. Embora
mais disputadas do que eles, acabam tendo menos opções,
já que são também mais exigentes.
Com a China dando o seu verdadeiro salto para a frente,
as chinesas não querem ficar para trás. Thais Oyama