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Edição 2072

6 de agosto de 2008
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Brasil
Receita petista

Apesar dos recordes de arrecadação de impostos,
o governo demite o secretário da Receita Federal


Expedito Filho

Lula Marques/Folha Imagem
MISSÃO CUMPRIDA
O ministro Guido Mantega e a nova chefe da Receita, Lina Vieira: fama de durona

O desfecho de uma longa e pesada guerra de bastidores pelo controle da poderosa Secretaria da Receita Federal veio à tona na semana passada num aparente clima de tranqüilidade. Jorge Rachid, que ocupava o cargo desde o início do governo Lula, pediu demissão dias depois de anunciar com pompa o mais novo recorde na arrecadação de impostos – 327 bilhões de reais apenas no primeiro semestre de 2008. Em seu lugar, assumiu a auditora Lina Maria Vieira. A posse da secretária, ao contrário da tradição, aconteceu a portas fechadas. Lina não falou de seus planos, não anunciou sua equipe e nem cumprimentou o antecessor, que também preferiu o silêncio na despedida. Oficialmente, Rachid saiu de férias. Não havia alternativa ao ex-secretário. Na última quarta-feira, ele foi chamado ao gabinete do ministro Guido Mantega, que, sem nenhum rodeio, perguntou se ele preferia ser demitido ou pedir demissão. "Precisamos mudar de ares", limitou-se a explicar o ministro. Mantega ainda ofereceu a Rachid uma diretoria do Banco do Brasil ou a Secretaria de Fazenda do Rio de Janeiro. O ex-secretário ficou de dar a resposta quando voltar do descanso, provavelmente em setembro.

Antônio Cruz/ABR
MISSÃO CUMPRIDA II
O ex-secretário Jorge Rachid: na crise, foi a solução. Depois, virou apenas um problema

Jorge Rachid viveu durante cinco anos e meio o dilema de representar ao mesmo tempo a solução e o problema. A eleição de Lula, em 2002, provocou uma onda de desconfiança nos mercados, e, para estancar os problemas, o presidente precisava mostrar que não mudaria os fundamentos da economia. Indicou o então ministro Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda e colocou Rachid – braço-direito de Everardo Maciel, o ex-secretário da Receita no governo tucano – para comandar o Leão. Os petistas, porém, nunca se conformaram em não ter controle sobre um dos órgãos mais poderosos do governo. Em 2006, com a posse de Guido Mantega, começou a contagem regressiva para a troca de comando na Receita. O desgaste teve início quando Mantega demitiu antigos assessores de Rachid envolvidos em denúncias de corrupção. A pressão aumentou com o anúncio de que o ministério pretendia reabrir um processo que investigou a participação de Rachid em um suspeitíssimo processo envolvendo a empreiteira OAS.

Em 1993, quando era um simples auditor, Rachid aplicou uma multa de 1 bilhão de reais na empreiteira, que acabou, depois, reduzida para apenas 25 milhões. Os advogados que conseguiram realizar a mágica, além de auditores licenciados da própria Receita, eram amigos e assessores de Rachid. A dupla foi demitida a bem do serviço público, mas o ex-secretário foi poupado por Palocci. Com a arrecadação em alta e a economia apresentando excelentes resultados, os petistas descobriram que Rachid era somente um problema – e não hesitaram em apresentar a solução.



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