Panorama:
Imagem da Semana
A dança dos sete véus
Na Turquia, o nó
eterno entre religião e estado

Vilma Gryzinski
Ibrahim Usta/AP
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Imaginem uma decisão do Supremo Tribunal Federal que
colocasse na ilegalidade o presidente Lula, os seus ministros
e o PT. Foi de um pandemônio similar que a Turquia se
livrou na semana passada, quando o Tribunal Constitucional
rejeitou a medida que cassava os direitos políticos
do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) e,
portanto, de seus membros, incluindo o primeiro-ministro Recep
Tayyip Erdogan e o presidente Abdullah Gul. Acusação:
tentativa de islamizar o país. O nó remonta
à origem da Turquia moderna, no começo do século
passado. Seu fundador, Kemal Ataturk, substituiu a lei islâmica
pelo código civil suíço, mudou o alfabeto,
proibiu os trajes tradicionais dos homens e o uso do véu
na cabeça, pelas mulheres, em instituições
públicas. O Exército e o Judiciário tornaram-se
centuriões dessa doutrina. Mas a religião renasceu
politicamente. Como na dança dos sete véus,
camadas de mistério se sucedem. Os seculares têm
direito de temer a islamização, mas não
de conspirar quando os religiosos ganham eleições.
O governo atual mostra-se equilibrado, mas força a
mão em questões como o uso do véu (Hayrunnisa
Gul é a primeira mulher de um presidente turco
a cobrir a cabeça e fazer propaganda disso). Para complicar,
atentados como o que matou dezessete pessoas em Istambul no
domingo passado. E quem achou que a comparação
inicial não era má idéia precisa ser
relembrado das regras do jogo democrático.