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Auto-Retrato
Qual é a sua primeira medida quando chega a um restaurante no papel de consultor? Peço para ver o cardápio. Ele é peça-chave para o sucesso do negócio. Deve funcionar como uma espécie de informe publicitário, no qual cada palavra tem o propósito de fazer vender. É muito melhor oferecer um "filé tostado com molho de ervas finas" do que um bife grelhado embora eles se refiram ao mesmíssimo prato.
Num bom restaurante, o que é mais decisivo na escolha de um prato: os ingredientes ou o preço? Os ingredientes. As pesquisas mostram que, quando alguém decide comer fora, pensa menos em dinheiro e mais em viver uma boa experiência. A diversidade de temperos e combinações tornou a ida ao restaurante uma das maiores diversões modernas. Como as pessoas estão abertas a gastar, meu papel é fazê-las gastar.
O que mais incentiva as pessoas a consumir num restaurante? O efeito do cheiro da comida é inquestionável. Sendo bom, ele desperta o instinto primitivo da fome. Por isso, oriento os chefs a começar a fritar os temperos antes mesmo de o restaurante abrir. Outra tática é deixar as bandejas descobertas, para que o aroma dos pratos se espalhe pelo salão.
E como estimular as pessoas a escolher os pratos mais caros? O primeiro passo é tentar fazê-las focar o máximo possível na comida e o mínimo no preço. A maioria dos restaurantes erra ao enfileirar os cifrões na coluna da direita. Isso facilita a comparação e pode levar as pessoas a fazer uma escolha mais econômica. Um cardápio eficiente é justamente aquele que embaralha os itens.
O prato mais caro costuma ter boa saída? Não. Mesmo que dispostas a gastar, as pessoas preferem optar pelo segundo ou terceiro maior preço do menu. A razão é curiosa. Perguntadas sobre o porquê da escolha, elas dizem que se sentem tomando uma decisão mais vantajosa. O prato de preço abusivo funciona, portanto, como um estímulo para que as pessoas peçam outros apenas um pouco mais baratos.
O senhor já mediu os efeitos dessa tática na conta? A observação em cerca de 100 bons restaurantes não deixa dúvida: coloque caviar no cardápio e ficará encalhado na cozinha. Em compensação, as pessoas acabam gastando cerca de 10% mais com a presença dele no menu. O fenômeno é tão conhecido no mundo da gastronomia chique que tem até nome: "efeito caviar".
O que mais lhe chama a atenção nos hábitos das pessoas à mesa? Embora elas se digam abertas a experiências gastronômicas, são conservadoras no restaurante. Pratos acrescidos de termos como "tradicional" ou "à moda da vovó" sempre aparecem no ranking dos mais vendidos. Eles não apenas remetem a um terreno conhecido como ajudam a despertar lembranças afetivas. É interessante observar que o comportamento das pessoas não varia: ele é o mesmo numa lanchonete ou no melhor três-estrelas de Paris.
O que os grandes chefs sentem quando alguém pede macarrão? Eles adoram. É, afinal, um dos pratos que dão mais lucro ao dono de um restaurante. Eles ganham cerca de 40% mais com um espaguete ao molho de tomate do que vendendo trufas e funghi. Os preços dos pratos mais caros são os que mais se aproximam do valor real. Quer fazer um bom negócio? Peça foie gras.
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