Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Uma dupla do barulho

Embaixadas brasileiras em Lisboa
e Roma ganham neste mês titulares
de causar espanto

Neste mês de agosto, se tudo der certo, assumirão seus postos os novos embaixadores do Brasil em Lisboa e Roma, respectivamente o ex-deputado Paes de Andrade e o ex-presidente Itamar Franco. Pode ser que não dê certo. Com Itamar nunca se sabe – ele já adiou a viagem para a Itália porque queria assistir à posse de seu ex-ministro Maurício Corrêa no Supremo Tribunal Federal, depois porque precisava fazer um check-up, depois sabe-se lá por quê... Agora marcou-a para 16 de agosto, mas quem garante? Com Paes de Andrade ocorre o contrário – está difícil é seu antecessor, o ex-ministro José Gregori, deixar o posto. Gregori foi ficando, depois veio a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Portugal e ficou mais um pouco, depois tirou férias, depois... Agora a posse do sucessor está marcada para 22 de agosto.

Uma vez empossados, Itamar e Paes de Andrade constituirão uma dupla do barulho, no eixo Lisboa–Roma. Ambos são nomeações políticas. Ganharam o posto porque Lula julgou necessário contemplá-los com algum naco da máquina governamental. Têm tanto talento e preparo para a diplomacia quanto para disputar o Prêmio Nobel de Física, ou para subir ao ringue contra o lutador Popó. Acresce que são duas figuras cujas maiores contribuições, ao longo das respectivas carreiras públicas, têm sido no ramo a que se dá o nome de "folclore" – aquele em que o que chama atenção é o comportamento bizarro do protagonista.

Paes de Andrade, se o leitor já se esqueceu, é o inesquecível homem de Mombaça. Quando se fala nele, é inevitável que venha à mente o episódio em que, presidente da Câmara e na contingência de substituir o presidente José Sarney, então em viagem ao exterior, encheu de convidados o avião da Presidência e rumou para a cidade natal, onde se entregou a extensa programação de auto-homenagens. Mombaça, no Ceará, entrou no mapa político por essa via de duvidosa glória. Mais de uma década depois, Paes de Andrade continua o mesmo, na ardente admiração que nutre por si próprio. Por sua encomenda, a gráfica do Senado produziu um livreto de 48 páginas e tiragem de 500 exemplares, contendo o depoimento que prestou aos senadores por ocasião de sua aprovação para o posto de Lisboa. Esclareça-se, antes que se pense que aqui se faz uma denúncia do mau uso do dinheiro público, que o próprio Paes de Andrade pagou a publicação. O que nos interessa é o título do livreto – A Consagração de Paes de Andrade. O filho de Mombaça, de novo, prostra o mundo de espanto.

Itamar Franco, de seu lado, repete, com sua invencível queda pelas protelações, o comportamento que teve quando, no governo Fernando Henrique Cardoso, foi nomeado embaixador na mesma Lisboa que agora caberá a Paes de Andrade. Naquela ocasião, entre a formulação do convite e, depois de muitas idas e vindas, uma resposta enfim positiva, passaram-se 84 dias. E daí até a viagem a Portugal correram, em meio a rumores de que a qualquer momento poderia desistir, mais 76 dias. As errâncias do ex-presidente, no caso de agora, despertaram a atenção de Domenico de Masi, o popular sociólogo italiano do ócio criativo. "É penoso (...) constatar que há muitos meses a embaixada brasileira na Itália esteja sem seu titular", escreveu De Masi, num artigo publicado na Folha de S.Paulo do último dia 27. E ainda: "Dizem-me que o embaixador designado adia continuamente seu embarque, como se se tratasse do exílio primitivo num canto remoto da Terra". Nosso bom sociólogo, se estranha a ausência, pode vir a estranhar mais ainda a presença do novo embaixador. Não causará espanto se sua gestão for marcada pelas características idas e vindas, avanços e recuos. Nem se, dando-lhe na veneta, resolver vir embora muito antes do que determina a praxe e recomenda a polidez.

Circularam rumores de que, no afã de satisfazer aliados, o governo poderia premiar outros políticos com embaixadas. O goiano Iris Rezende, o paranaense Álvaro Dias e o paulista Orestes Quércia estariam na lista. A Iris Rezende caberia Madri. A Álvaro Dias, Bruxelas. Ultimamente esses rumores refluíram, mas a dupla do barulho, nesse caso, se transformaria num quinteto capaz de estremecer as Europas. Nomeações políticas não são uma exclusividade deste governo, nem estranhas a outros países. Nos Estados Unidos costuma-se até premiar doadores de campanha com embaixadas. O problema é 1) exagerar na dose; 2) condescender com tipos, digamos, excêntricos, e procedimentos, digamos, heterodoxos, como empurrar a posse para as calendas; 3) desprestigiar o quadro profissional do Itamaraty, de competência reconhecida; 4) desprestigiar o próprio governo, junto ao país em que é alocado o nomeado; 5) favorecer o surgimento de embaixadas que, pela idiossincrasia de seus titulares, ajam como enclaves alheios à hierarquia e independentes da orientação geral da política externa; e 6) causar mal-estar com governos estrangeiros. Misturar a diplomacia ao toma-lá-dá-cá da política partidária resolve alguns problemas imediatos, mas pode sair caro.

 
 
 
 
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