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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Uma
dupla do barulho
Embaixadas
brasileiras
em
Lisboa
e
Roma ganham
neste
mês titulares
de
causar espanto
Neste mês de agosto, se tudo der certo, assumirão seus
postos os novos embaixadores do Brasil em Lisboa e Roma, respectivamente
o ex-deputado Paes de Andrade e o ex-presidente Itamar Franco. Pode
ser que não dê certo. Com Itamar nunca se sabe
ele já adiou a viagem para a Itália porque queria
assistir à posse de seu ex-ministro Maurício Corrêa
no Supremo Tribunal Federal, depois porque precisava fazer um check-up,
depois sabe-se lá por quê... Agora marcou-a para 16
de agosto, mas quem garante? Com Paes de Andrade ocorre o contrário
está difícil é seu antecessor, o ex-ministro
José Gregori, deixar o posto. Gregori foi ficando, depois
veio a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Portugal
e ficou mais um pouco, depois tirou férias, depois... Agora
a posse do sucessor está marcada para 22 de agosto.
Uma vez empossados, Itamar e Paes de Andrade constituirão
uma dupla do barulho, no eixo LisboaRoma. Ambos são
nomeações políticas. Ganharam o posto porque
Lula julgou necessário contemplá-los com algum naco
da máquina governamental. Têm tanto talento e preparo
para a diplomacia quanto para disputar o Prêmio Nobel de Física,
ou para subir ao ringue contra o lutador Popó. Acresce que
são duas figuras cujas maiores contribuições,
ao longo das respectivas carreiras públicas, têm sido
no ramo a que se dá o nome de "folclore" aquele em
que o que chama atenção é o comportamento bizarro
do protagonista.
Paes de Andrade, se o leitor já se esqueceu, é o inesquecível
homem de Mombaça. Quando se fala nele, é inevitável
que venha à mente o episódio em que, presidente da
Câmara e na contingência de substituir o presidente
José Sarney, então em viagem ao exterior, encheu de
convidados o avião da Presidência e rumou para a cidade
natal, onde se entregou a extensa programação de auto-homenagens.
Mombaça, no Ceará, entrou no mapa político
por essa via de duvidosa glória. Mais de uma década
depois, Paes de Andrade continua o mesmo, na ardente admiração
que nutre por si próprio. Por sua encomenda, a gráfica
do Senado produziu um livreto de 48 páginas e tiragem de
500 exemplares, contendo o depoimento que prestou aos senadores
por ocasião de sua aprovação para o posto de
Lisboa. Esclareça-se, antes que se pense que aqui se faz
uma denúncia do mau uso do dinheiro público, que o
próprio Paes de Andrade pagou a publicação.
O que nos interessa é o título do livreto A
Consagração de Paes de Andrade. O filho de Mombaça,
de novo, prostra o mundo de espanto.
Itamar Franco, de seu lado, repete, com sua invencível queda
pelas protelações, o comportamento que teve quando,
no governo Fernando Henrique Cardoso, foi nomeado embaixador na
mesma Lisboa que agora caberá a Paes de Andrade. Naquela
ocasião, entre a formulação do convite e, depois
de muitas idas e vindas, uma resposta enfim positiva, passaram-se
84 dias. E daí até a viagem a Portugal correram, em
meio a rumores de que a qualquer momento poderia desistir, mais
76 dias. As errâncias do ex-presidente, no caso de agora,
despertaram a atenção de Domenico de Masi, o popular
sociólogo italiano do ócio criativo. "É penoso
(...) constatar que há muitos meses a embaixada brasileira
na Itália esteja sem seu titular", escreveu De Masi, num
artigo publicado na Folha de S.Paulo do último dia
27. E ainda: "Dizem-me que o embaixador designado adia continuamente
seu embarque, como se se tratasse do exílio primitivo num
canto remoto da Terra". Nosso bom sociólogo, se estranha
a ausência, pode vir a estranhar mais ainda a presença
do novo embaixador. Não causará espanto se sua gestão
for marcada pelas características idas e vindas, avanços
e recuos. Nem se, dando-lhe na veneta, resolver vir embora muito
antes do que determina a praxe e recomenda a polidez.
Circularam rumores de que, no afã de satisfazer aliados,
o governo poderia premiar outros políticos com embaixadas.
O goiano Iris Rezende, o paranaense Álvaro Dias e o paulista
Orestes Quércia estariam na lista. A Iris Rezende caberia
Madri. A Álvaro Dias, Bruxelas. Ultimamente esses rumores
refluíram, mas a dupla do barulho, nesse caso, se transformaria
num quinteto capaz de estremecer as Europas. Nomeações
políticas não são uma exclusividade deste governo,
nem estranhas a outros países. Nos Estados Unidos costuma-se
até premiar doadores de campanha com embaixadas. O problema
é 1) exagerar na dose; 2) condescender com tipos, digamos,
excêntricos, e procedimentos, digamos, heterodoxos, como empurrar
a posse para as calendas; 3) desprestigiar o quadro profissional
do Itamaraty, de competência reconhecida; 4) desprestigiar
o próprio governo, junto ao país em que é alocado
o nomeado; 5) favorecer o surgimento de embaixadas que, pela idiossincrasia
de seus titulares, ajam como enclaves alheios à hierarquia
e independentes da orientação geral da política
externa; e 6) causar mal-estar com governos estrangeiros. Misturar
a diplomacia ao toma-lá-dá-cá da política
partidária resolve alguns problemas imediatos, mas pode sair
caro.
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