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Diogo
Mainardi
Estou com os paraplégicos
"A
televisão não mostra a Paraolimpíada.
Se
mostrasse, eu passaria o dia inteiro
grudado nela. É o evento esportivo mais
entusiasmante que há. E, contrariamente
ao que acontece nas Olimpíadas, o Brasil
não passa vergonha"
Eu só vejo filme de kung fu. Se não é de kung
fu, mudo de canal. Tenho a coleção completa do diretor
Chang Cheh em VHS. Quentin Tarantino, que entende do assunto e está
para lançar um filme de kung fu, considera Chang Cheh o John
Ford do gênero. O Espadachim Maneta, de 1967, é
sua obra-prima. Wang Yu perde o braço direito numa luta.
Depois de muito treinamento, aprende a combater com o esquerdo,
com o qual dilacera uma infinidade de inimigos. Chang Cheh retomou
o personagem do espadachim maneta em vários outros filmes,
um melhor que o outro. E foi ainda mais longe em Os Vingadores
Aleijados, no qual um cego, um surdo-mudo, um perneta e um deficiente
mental se unem para enfrentar uma seita de guerreiros sádicos.
É meu filme predileto. Vejo-o continuamente, pulando, com
o controle remoto, os trechos mais aborrecidos, sem lutas.
Todos os deficientes físicos deveriam praticar artes marciais.
O Hospital de Saint Louis, nos Estados Unidos, tem um curso de kajukenbo
para portadores de paralisia cerebral. Kajukenbo é uma combinação
de caratê, judô, jiu-jítsu e boxe chinês.
Quem o introduziu no Hospital de Saint Louis foi a neurologista
Janice Brunstrom, ela própria paralisada cerebral e boa de
briga. O kajukenbo cumpre uma dupla função: melhora
o desempenho físico dos pacientes e serve como instrumento
de defesa pessoal. Deficientes físicos costumam sofrer as
maiores humilhações. Os pacientes de Janice Brunstrom
aprendem a revidar.
Quando não revejo velhos filmes de kung fu, revejo velhos
episódios do desenho animado South Park. Claro que
gosto de Eric Cartman e de Mr. Hankey. Meu personagem preferido,
porém, é Timmy. Para quem não sabe do que estou
falando, Timmy é um menino macrocéfalo numa cadeira
de rodas que só sabe repetir o próprio nome e o de
seu animal de estimação, um peru que, como ele, é
deficiente físico, tendo o pescoço torto. Coleciono
todos os episódios estrelados por Timmy. Recomendo aquele
em que ele interpreta o papel de Helen Keller no teatro da escola.
Ou aquele em que, invejoso do sucesso do paraplégico Christopher
Reeve, forma uma gangue com outro deficiente físico, Jimmy.
Comprei o boneco Timmy (29,99 dólares) e todos os dias tento
me aperfeiçoar em seu jogo eletrônico. O competidor
deve manobrar a cadeira de rodas de Timmy para encontrar seu peru,
que foi raptado.
A televisão não mostra a Paraolimpíada. Se
mostrasse, eu passaria o dia inteiro grudado nela. É o evento
esportivo mais entusiasmante que há. E, contrariamente ao
que acontece nas Olimpíadas, o Brasil não passa vergonha.
Em Sydney, nossos atletas paraolímpicos ganharam seis medalhas
de ouro, contra nenhuma dos atletas olímpicos. A velocista
Ádria Santos bateu o recorde mundial nos 100 e 200 metros,
na categoria dos deficientes visuais. A amputada Roseane Ferreira
dos Santos ganhou mais dois ouros no arremesso de peso e disco,
ambos com recorde mundial. Os brasileiros se orgulham dos pernas-de-pau
do futebol. Deveriam se orgulhar de Ádria e Roseane. Uma
vitória na Paraolimpíada é mais honrosa para
um país do que uma vitória em qualquer outra competição.
Eu sou do time dos paraplégicos.
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