Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Diogo Mainardi
Estou com os paraplégicos

"A televisão não mostra a Paraolimpíada.
Se mostrasse, eu passaria o dia inteiro
grudado nela. É o evento esportivo mais
entusiasmante que há. E, contrariamente
ao que acontece nas Olimpíadas, o Brasil
não passa vergonha"

Eu só vejo filme de kung fu. Se não é de kung fu, mudo de canal. Tenho a coleção completa do diretor Chang Cheh em VHS. Quentin Tarantino, que entende do assunto e está para lançar um filme de kung fu, considera Chang Cheh o John Ford do gênero. O Espadachim Maneta, de 1967, é sua obra-prima. Wang Yu perde o braço direito numa luta. Depois de muito treinamento, aprende a combater com o esquerdo, com o qual dilacera uma infinidade de inimigos. Chang Cheh retomou o personagem do espadachim maneta em vários outros filmes, um melhor que o outro. E foi ainda mais longe em Os Vingadores Aleijados, no qual um cego, um surdo-mudo, um perneta e um deficiente mental se unem para enfrentar uma seita de guerreiros sádicos. É meu filme predileto. Vejo-o continuamente, pulando, com o controle remoto, os trechos mais aborrecidos, sem lutas.

Todos os deficientes físicos deveriam praticar artes marciais. O Hospital de Saint Louis, nos Estados Unidos, tem um curso de kajukenbo para portadores de paralisia cerebral. Kajukenbo é uma combinação de caratê, judô, jiu-jítsu e boxe chinês. Quem o introduziu no Hospital de Saint Louis foi a neurologista Janice Brunstrom, ela própria paralisada cerebral e boa de briga. O kajukenbo cumpre uma dupla função: melhora o desempenho físico dos pacientes e serve como instrumento de defesa pessoal. Deficientes físicos costumam sofrer as maiores humilhações. Os pacientes de Janice Brunstrom aprendem a revidar.

Quando não revejo velhos filmes de kung fu, revejo velhos episódios do desenho animado South Park. Claro que gosto de Eric Cartman e de Mr. Hankey. Meu personagem preferido, porém, é Timmy. Para quem não sabe do que estou falando, Timmy é um menino macrocéfalo numa cadeira de rodas que só sabe repetir o próprio nome e o de seu animal de estimação, um peru que, como ele, é deficiente físico, tendo o pescoço torto. Coleciono todos os episódios estrelados por Timmy. Recomendo aquele em que ele interpreta o papel de Helen Keller no teatro da escola. Ou aquele em que, invejoso do sucesso do paraplégico Christopher Reeve, forma uma gangue com outro deficiente físico, Jimmy. Comprei o boneco Timmy (29,99 dólares) e todos os dias tento me aperfeiçoar em seu jogo eletrônico. O competidor deve manobrar a cadeira de rodas de Timmy para encontrar seu peru, que foi raptado.

A televisão não mostra a Paraolimpíada. Se mostrasse, eu passaria o dia inteiro grudado nela. É o evento esportivo mais entusiasmante que há. E, contrariamente ao que acontece nas Olimpíadas, o Brasil não passa vergonha. Em Sydney, nossos atletas paraolímpicos ganharam seis medalhas de ouro, contra nenhuma dos atletas olímpicos. A velocista Ádria Santos bateu o recorde mundial nos 100 e 200 metros, na categoria dos deficientes visuais. A amputada Roseane Ferreira dos Santos ganhou mais dois ouros no arremesso de peso e disco, ambos com recorde mundial. Os brasileiros se orgulham dos pernas-de-pau do futebol. Deveriam se orgulhar de Ádria e Roseane. Uma vitória na Paraolimpíada é mais honrosa para um país do que uma vitória em qualquer outra competição. Eu sou do time dos paraplégicos.

 
 
 
 
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