Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Entrevista: Armínio Fraga
"Acendeu-se a luz amarela"

O ex-presidente do BC diz que o governo
tem sido corajoso, mas adverte que um
clima
de insegurança para os investimentos
afeta a retomada do crescimento


Lauro Jardim

 

Oscar Cabral

"O conjunto dos conflitos traz a sensação de que estamos vivendo um momento de definição. O resultado geral é preocupante"



DOS ARQUIVOS DE VEJA
Entrevista com Armínio Fraga (14/3/2001)

Desde que deixou a presidência do Banco Central, Armínio Fraga impôs-se uma espécie de quarentena de silêncio: acompanhou atentamente os rumos do novo governo, mas não concedeu entrevistas nem escreveu artigos sobre economia. Nesses sete meses, usou seu tempo para jogar golfe e costurar sua volta ao mercado financeiro, de onde saiu em 1999 para comandar o BC. Teve também alguns encontros reservados com a cúpula da atual equipe econômica. No fim do mês, Armínio abre as portas da Gávea Investimentos, que vai operar dois fundos de investimento. Carioca, 46 anos, ele teve uma passagem pelo BC elogiada até pelo PT e é hoje a mais influente voz brasileira no alto mundo das finanças globais. Na semana passada, Armínio falou a VEJA na biblioteca de sua casa no Rio de Janeiro, onde, junto a centenas de obras sobre economia e história, se enfileiram cerca de 600 livros de golfe.  

Veja – Se o senhor ainda fosse o presidente do Banco Central, os juros estariam nos atuais 24,5% ou teriam caído mais?
Fraga – Quando saí do BC tomei a decisão de não entrar na discussão do dia-a-dia, se os juros deveriam estar em mais ou menos meio ponto. Já sentei naquela cadeira, e é muito difícil palpitar sem ter a visão completa que se tem no BC. E, se o BC em algum momento acelerou demais ou de menos a redução dos juros, pode corrigir no momento seguinte.

Veja – Sobre taxas de juro, então, o senhor não fala?
Fraga – Não. Ainda mais por ter saído há tão pouco tempo.

Veja – Nas últimas semanas, o país tem visto a crescente radicalização do MST, as invasões de áreas urbanas e o clima tenso entre o Executivo e o Judiciário. Quais as conseqüências da apreensão que isso provoca nos investidores internacionais?
Fraga – De modo geral, o governo tem sido firme e corajoso. E teve sucesso em dirimir uma série de dúvidas históricas que pairavam no ar no caso de uma vitória da então oposição, hoje situação. Foi um trabalho extremamente bem-feito: teve início antes das eleições, continuou no período pós-eleitoral e se mantém até hoje. O lado macroeconômico foi bem. Mas no micro temos problemas. Continua sendo difícil fazer negócios aqui. São questões históricas: muita burocracia, estrutura tributária difícil... Sem falar nesses conflitos que você citou e na incerteza quanto ao ambiente regulatório e jurídico em geral. Tudo isso cria um clima de insegurança. São temas da maior importância que precisam ser bem administrados, para que se estimule o investimento.

Veja – O risco de quebra de contratos o preocupa em que medida?
Fraga – Bastante. É natural que se discuta o chamado "marco regulatório" num sistema recém-privatizado como o nosso. É normal, portanto, que revisões de pontos específicos sejam negociadas. O que complica é quando surge o medo de um comportamento menos previsível – e até um pouco arbitrário. Não adianta enfiar a cabeça na areia. Esse é um problema concreto, que precisa ser equacionado aqui no Brasil, sob pena de ficarmos com déficit de investimento em setores vitais. O governo sozinho não consegue suprir essa necessidade, nem tem vocação ou competência para isso. É preciso assentar a poeira e definir certos rumos. Este é um momento importante para o governo. Quem olha de fora fica com a impressão de que, de repente, surgiram problemas demais. Vistas individualmente, talvez sejam questões que não assustem tanto. Em conjunto, no entanto, trazem a sensação de que estamos vivendo um momento de definição. E o resultado geral é preocupante. Acendeu-se uma luz amarela em relação ao crescimento. Reaquecer a economia um pouco é fácil. Difícil é produzir um ciclo de investimentos que traga o crescimento sustentado. É isso que está em jogo.

Veja – O senhor acha que o entusiasmo internacional dos primeiros meses em relação ao governo Lula cedeu lugar à preocupação?
Fraga – Há um grau de apreensão maior aqui dentro que lá fora. Aqui é onde sinto mais angústia por causa das questões que listei.

Veja – O senhor se coloca ao lado dos otimistas lá de fora ou dos angustiados daqui?
Fraga – Ambos têm sua dose de razão. Olhando de dez anos para cá, fica claro que o Brasil está melhorando. Superamos várias crises com o desempenho econômico razoável – aquém do que nós desejávamos, mas bom dadas as circunstâncias. Mesmo com todo o período de turbulência que o Brasil enfrentou nos últimos quatro anos, ficamos muito mais próximos do México e do Chile do que da Venezuela e da Argentina. As crianças estão na escola, a produtividade está aumentando, ou seja, há uma sensação de progresso subjacente a essa conjuntura turbulenta pela qual passamos. Esse é o lado que o investidor de fora às vezes vê com mais clareza. Aqui, estamos vivendo um momento recessivo. O Banco Central iniciou um processo de redução de juros, que tudo indica deva continuar. A sensação de recessão e essa questão da insegurança em suas várias dimensões aparentemente estão afetando mais a nós do que a quem olha o Brasil de fora. É um momento importante, que surge como o primeiro grande desafio do governo do presidente Lula. Tenho confiança em que será bem resolvido – mas precisa ser resolvido.

Veja – Nos anos 90, choviam investimentos diretos dos estrangeiros. Mas aquela explosão que trouxe para cá dezoito montadoras, por exemplo, parece ter-se evaporado. Hoje, o que entra mesmo é capital de curto prazo. Como é que se faz para trazer aquele investimento de volta?
Fraga – Parte da queda desses investimentos tem a ver com certos ciclos naturais. No nosso caso, por exemplo, foram os ciclos de privatização e de abertura de nossa economia. Então, era de esperar que em algum momento aquele fluxo inicial caminhasse para um número menos exuberante. Outra parte da queda tem a ver com a conjuntura global. Em alguns setores, como o automotivo, há muita capacidade ociosa quando se soma o que existe pelo mundo afora. E há também um certo período de adaptação ao novo governo. Creio que passou aquela sensação de pânico, que foi muito forte no ano passado. Com o tempo, o fluxo de investimentos tende a aumentar um pouco. Mas não vai voltar a ser o que foi na década passada, quando chegamos a números superiores a 30 bilhões de dólares por ano. E isso não é problema: é normal, faz parte dessa dinâmica.

Veja – Mas, para um país que precisa de investimentos para respirar, talvez não seja fácil encarar as coisas com fleuma...
Fraga – O problema maior não é a questão do "investimento estrangeiro", o problema é a questão do investimento, ponto. Ou seja, da construção de fábricas, da compra de equipamento novo, do treinamento, daquilo que leva à geração de empregos, à construção de galpões e moradias... Esse é o investimento relevante do ponto de vista do crescimento e do bem-estar do povo.

Veja – Com os juros a 24,5% ao ano dá para sonhar com esse ciclo de investimentos?
Fraga – Quem faz investimento em uma fábrica não olha para os juros de curto prazo, olha para os de longo prazo. Nós temos juros reais em torno de 10%. É o que existe hoje no mercado de títulos mais longos. São juros bastante elevados, sem dúvida. Mas não é a única consideração e talvez não seja nem a principal. O que mais atrapalha essa retomada é o clima para o investimento. São investimentos muito intensivos de capital de longo prazo, se não houver segurança o investimento não ocorre.

Veja – Se o senhor tivesse de citar três bons lugares para investir, o Brasil hoje estaria incluído?
Fraga – O Brasil, a China e a Índia são os grandes mercados para investimento. O Brasil é visto como um país de oportunidades. Se conseguirmos eliminar as condições de risco, vejo chances para uma fase muito boa de investimentos. Sempre se temeu que uma mudança política, como a chegada do PT ao poder, fizesse nosso trem descarrilhar. Hoje, o que está aí é justamente a chance concreta de isso não acontecer, o que muda a cabeça dos investidores. Insisto: não são os investidores estrangeiros, nós mesmos precisamos investir mais e poupar mais.

Veja – O que atrai no Brasil?
Fraga – O Brasil é uma economia muito diversificada. E o que atrai é essa sensação de que o país virou a curva da década de 80. Demorou, mas virou. Agora, temos condições de reencontrar uma trajetória de crescimento, baseada em produtividade e em aumento de poupança, mais de acordo com o que foram os primeiros oitenta anos do século passado. O Brasil sempre foi um país visto como de crescimento rápido. A questão maior, portanto, não são os investimentos estrangeiros. Depende principalmente de nós, não acredito que isso dependa tanto das questões internacionais.

Veja – Como não? E nossa vulnerabilidade externa?
Fraga – Essa questão quase sempre é identificada com o déficit em conta corrente, que está praticamente zerado. Há outro elemento nessa questão da vulnerabilidade, que é nosso crédito. O Brasil não é visto como um país de baixo risco. Quando surge um problema, em vez de o Brasil ter acesso a financiamento para suavizar o ajuste, acontece o oposto: somos obrigados a pagar um pedaço de nossas dívidas justamente no pior momento. Isso gera uma tremenda irritação. Mas a resposta tem de ser fria. Ou seja, temos de construir as condições para que o país chegue ao grau de baixo risco e possa ter uma vida mais tranqüila. Esse é o lado mais complicado da chamada vulnerabilidade externa: a falta de crédito vem de um histórico de moratórias, de hiperinflação, de intervenções arbitrárias na economia. Precisamos, com o tempo, jogar tudo isso nos escaninhos da história. Precisamos também de uma economia mais aberta, mais flexível. Assim, é possível ajustar sem exigir tanto da taxa de câmbio ou do nível de atividade econômica. Nossa economia vem aumentando seu grau de flexibilidade e abertura. Isso precisa continuar. E tem de ser recíproco.

Veja – Como assim?
Fraga – Infelizmente, as lideranças dos principais países da economia global têm sido extremamente pobres nessa área. Sinto falta de uma visão americana mais generosa, mais iluminada. Algo que traga uma dose de audácia no que diz respeito ao comércio global. Dos europeus, então, nem se fala. Eles têm tido uma postura ainda mais difícil que a americana. Isso nos ajudaria também.

Veja – Não seria o caso de o país ter uma atitude mais firme nas negociações, em vez de ficar esperando uma posição mais branda do outro lado?
Fraga – A realidade é que nosso poder de barganha é limitado. O Brasil é um país importante, mas infelizmente não é tão importante assim que possa ditar essas condições. Temos tido uma postura competente ao longo dos anos. O profissionalismo do Itamaraty tem dado inclusive a continuidade necessária a esse processo, e espero que isso siga desse modo. É o que dá para fazer do nosso lado. Tive inúmeras conversas com lideranças importantes do governo americano. Nessas conversas, sempre manifestei minha indignação com o fato de que algumas vezes os americanos ou os europeus nos dão rasteiras. Isso fragiliza os argumentos das pessoas como eu e muitas do atual governo, que querem construir uma sociedade aberta e justa.

Veja – A que rasteiras exatamente o senhor se refere?
Fraga – Posso citar as barreiras comerciais impostas pelos americanos no caso do aço e do suco de laranja.

Veja – O senhor acha que o regime de metas para a inflação tem ainda vida longa? Elas não emperram a retomada do crescimento?
Fraga – Ao contrário, só ajudam. É preciso não confundir aquecimento com crescimento, como dizem integrantes da atual equipe econômica. Aquecimento é fácil: o Banco Central reduz os juros e aquece a economia. Mas, se não houver investimento, isso não gera crescimento. Ou seja, é pileque e depois ressaca. O sistema de metas para a inflação é o limite da flexibilidade dentro da responsabilidade monetária. Dar um passo adiante seria não ter metas, e aí se corre o risco de reviver o passado de inflação. Não ter metas traz a tentação de sempre querer crescer um pouquinho mais no curto prazo. Seria um crescimento entre aspas – ou seja, só um aquecimento. Não vejo outra saída. Podem inventar outro método, mas eu não sei qual é.

Veja – Quando, afinal, o Brasil assistirá ao tal "espetáculo do crescimento"?
Fraga – O Brasil está ameaçando retomar esse ciclo. Em 2000 tínhamos a esperança de engrenar na fase de um crescimento sustentável. O país estava crescendo a um ritmo de mais ou menos 4,5%. Fez isso por seis trimestres, começando no último trimestre de 1999. E aí vieram as confusões de 2001, que foram de natureza externa, além da crise de energia, e a de 2002, que foi uma brutal crise de confiança. As condições que nos levaram em 2000 a um crescimento de 4,5% existem. Isso está a nosso alcance.

Veja – Recentemente, o senhor fez uma aparição no Casseta & Planeta. É possível que tenha sido o único ex-presidente de Banco Central até hoje no mundo a participar como ator de um programa humorístico. Não ficou preocupado com sua imagem?
Fraga – Para falar a verdade, não estava muito preocupado com isso. Não foi um improviso total, combinamos antes. Alguns amigos disseram "não entra nisso". Mas fizeram a proposta, achei divertido e fiz.

 
 
 
 
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