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Entrevista:
Armínio Fraga
"Acendeu-se
a luz amarela"
O
ex-presidente do BC diz que o governo
tem sido corajoso, mas adverte que um
clima
de insegurança para os investimentos
afeta a retomada do crescimento

Lauro
Jardim
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Oscar Cabral

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"O
conjunto dos
conflitos traz a sensação de que estamos
vivendo um momento de definição. O resultado
geral é
preocupante"
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Desde
que deixou a presidência do Banco Central, Armínio
Fraga impôs-se uma espécie de quarentena de silêncio:
acompanhou atentamente os rumos do novo governo, mas não
concedeu entrevistas nem escreveu artigos sobre economia. Nesses
sete meses, usou seu tempo para jogar golfe e costurar sua volta
ao mercado financeiro, de onde saiu em 1999 para comandar o BC.
Teve também alguns encontros reservados com a cúpula
da atual equipe econômica. No fim do mês, Armínio
abre as portas da Gávea Investimentos, que vai operar dois
fundos de investimento. Carioca, 46 anos, ele teve uma passagem
pelo BC elogiada até pelo PT e é hoje a mais influente
voz brasileira no alto mundo das finanças globais. Na semana
passada, Armínio falou a VEJA na biblioteca de sua casa no
Rio de Janeiro, onde, junto a centenas de obras sobre economia e
história, se enfileiram cerca de 600 livros de golfe.
Veja Se o senhor ainda fosse o presidente do Banco
Central, os juros estariam nos atuais 24,5% ou teriam caído
mais?
Fraga
Quando saí do BC tomei a decisão de não entrar
na discussão do dia-a-dia, se os juros deveriam estar em
mais ou menos meio ponto. Já sentei naquela cadeira, e é
muito difícil palpitar sem ter a visão completa que
se tem no BC. E, se o BC em algum momento acelerou demais ou de
menos a redução dos juros, pode corrigir no momento
seguinte.
Veja Sobre taxas de juro, então, o senhor não
fala?
Fraga
Não. Ainda mais por ter saído há tão
pouco tempo.
Veja Nas últimas semanas, o país tem
visto a crescente radicalização do MST, as invasões
de áreas urbanas e o clima tenso entre o Executivo e o Judiciário.
Quais as conseqüências da apreensão que isso provoca
nos investidores internacionais?
Fraga
De modo geral, o governo tem sido firme e corajoso. E teve sucesso
em dirimir uma série de dúvidas históricas
que pairavam no ar no caso de uma vitória da então
oposição, hoje situação. Foi um trabalho
extremamente bem-feito: teve início antes das eleições,
continuou no período pós-eleitoral e se mantém
até hoje. O lado macroeconômico foi bem. Mas no micro
temos problemas. Continua sendo difícil fazer negócios
aqui. São questões históricas: muita burocracia,
estrutura tributária difícil... Sem falar nesses conflitos
que você citou e na incerteza quanto ao ambiente regulatório
e jurídico em geral. Tudo isso cria um clima de insegurança.
São temas da maior importância que precisam ser bem
administrados, para que se estimule o investimento.
Veja
O risco de quebra de contratos o preocupa em que medida?
Fraga
Bastante. É natural que se discuta o chamado "marco regulatório"
num sistema recém-privatizado como o nosso. É normal,
portanto, que revisões de pontos específicos sejam
negociadas. O que complica é quando surge o medo de um comportamento
menos previsível e até um pouco arbitrário.
Não adianta enfiar a cabeça na areia. Esse é
um problema concreto, que precisa ser equacionado aqui no Brasil,
sob pena de ficarmos com déficit de investimento em setores
vitais. O governo sozinho não consegue suprir essa necessidade,
nem tem vocação ou competência para isso. É
preciso assentar a poeira e definir certos rumos. Este é
um momento importante para o governo. Quem olha de fora fica com
a impressão de que, de repente, surgiram problemas demais.
Vistas individualmente, talvez sejam questões que não
assustem tanto. Em conjunto, no entanto, trazem a sensação
de que estamos vivendo um momento de definição. E
o resultado geral é preocupante. Acendeu-se uma luz amarela
em relação ao crescimento. Reaquecer a economia um
pouco é fácil. Difícil é produzir um
ciclo de investimentos que traga o crescimento sustentado. É
isso que está em jogo.
Veja
O senhor acha que o entusiasmo internacional dos primeiros
meses em relação ao governo Lula cedeu lugar à
preocupação?
Fraga
Há um grau de apreensão maior aqui dentro que lá
fora. Aqui é onde sinto mais angústia por causa das
questões que listei.
Veja O senhor se coloca ao lado dos otimistas lá
de fora ou dos angustiados daqui?
Fraga
Ambos têm sua dose de razão. Olhando de dez anos para
cá, fica claro que o Brasil está melhorando. Superamos
várias crises com o desempenho econômico razoável
aquém do que nós desejávamos, mas bom
dadas as circunstâncias. Mesmo com todo o período de
turbulência que o Brasil enfrentou nos últimos quatro
anos, ficamos muito mais próximos do México e do Chile
do que da Venezuela e da Argentina. As crianças estão
na escola, a produtividade está aumentando, ou seja, há
uma sensação de progresso subjacente a essa conjuntura
turbulenta pela qual passamos. Esse é o lado que o investidor
de fora às vezes vê com mais clareza. Aqui, estamos
vivendo um momento recessivo. O Banco Central iniciou um processo
de redução de juros, que tudo indica deva continuar.
A sensação de recessão e essa questão
da insegurança em suas várias dimensões aparentemente
estão afetando mais a nós do que a quem olha o Brasil
de fora. É um momento importante, que surge como o primeiro
grande desafio do governo do presidente Lula. Tenho confiança
em que será bem resolvido mas precisa ser resolvido.
Veja Nos anos 90, choviam investimentos diretos dos
estrangeiros. Mas aquela explosão que trouxe para cá
dezoito montadoras, por exemplo, parece ter-se evaporado. Hoje,
o que entra mesmo é capital de curto prazo. Como é
que se faz para trazer aquele investimento de volta?
Fraga
Parte da queda desses investimentos tem a ver com certos ciclos
naturais. No nosso caso, por exemplo, foram os ciclos de privatização
e de abertura de nossa economia. Então, era de esperar que
em algum momento aquele fluxo inicial caminhasse para um número
menos exuberante. Outra parte da queda tem a ver com a conjuntura
global. Em alguns setores, como o automotivo, há muita capacidade
ociosa quando se soma o que existe pelo mundo afora. E há
também um certo período de adaptação
ao novo governo. Creio que passou aquela sensação
de pânico, que foi muito forte no ano passado. Com o tempo,
o fluxo de investimentos tende a aumentar um pouco. Mas não
vai voltar a ser o que foi na década passada, quando chegamos
a números superiores a 30 bilhões de dólares
por ano. E isso não é problema: é normal, faz
parte dessa dinâmica.
Veja Mas, para um país que precisa de investimentos
para respirar, talvez não seja fácil encarar as coisas
com fleuma...
Fraga
O problema maior não é a questão do "investimento
estrangeiro", o problema é a questão do investimento,
ponto. Ou seja, da construção de fábricas,
da compra de equipamento novo, do treinamento, daquilo que leva
à geração de empregos, à construção
de galpões e moradias... Esse é o investimento relevante
do ponto de vista do crescimento e do bem-estar do povo.
Veja Com os juros a 24,5% ao ano dá para sonhar
com esse ciclo de investimentos?
Fraga
Quem
faz investimento em uma fábrica não olha para os juros
de curto prazo, olha para os de longo prazo. Nós temos juros
reais em torno de 10%. É o que existe hoje no mercado de
títulos mais longos. São juros bastante elevados,
sem dúvida. Mas não é a única consideração
e talvez não seja nem a principal. O que mais atrapalha essa
retomada é o clima para o investimento. São investimentos
muito intensivos de capital de longo prazo, se não houver
segurança o investimento não ocorre.
Veja Se o senhor tivesse de citar três bons lugares
para investir, o Brasil hoje estaria incluído?
Fraga
O Brasil, a China e a Índia são os grandes mercados
para investimento. O Brasil é visto como um país de
oportunidades. Se conseguirmos eliminar as condições
de risco, vejo chances para uma fase muito boa de investimentos.
Sempre se temeu que uma mudança política, como a chegada
do PT ao poder, fizesse nosso trem descarrilhar. Hoje, o que está
aí é justamente a chance concreta de isso não
acontecer, o que muda a cabeça dos investidores. Insisto:
não são os investidores estrangeiros, nós mesmos
precisamos investir mais e poupar mais.
Veja
O que atrai no Brasil?
Fraga
O Brasil é uma economia muito diversificada. E o que atrai
é essa sensação de que o país virou
a curva da década de 80. Demorou, mas virou. Agora, temos
condições de reencontrar uma trajetória de
crescimento, baseada em produtividade e em aumento de poupança,
mais de acordo com o que foram os primeiros oitenta anos do século
passado. O Brasil sempre foi um país visto como de crescimento
rápido. A questão maior, portanto, não são
os investimentos estrangeiros. Depende principalmente de nós,
não acredito que isso dependa tanto das questões internacionais.
Veja Como não? E nossa vulnerabilidade externa?
Fraga
Essa questão quase sempre é identificada com o déficit
em conta corrente, que está praticamente zerado. Há
outro elemento nessa questão da vulnerabilidade, que é
nosso crédito. O Brasil não é visto como um
país de baixo risco. Quando surge um problema, em vez de
o Brasil ter acesso a financiamento para suavizar o ajuste, acontece
o oposto: somos obrigados a pagar um pedaço de nossas dívidas
justamente no pior momento. Isso gera uma tremenda irritação.
Mas a resposta tem de ser fria. Ou seja, temos de construir as condições
para que o país chegue ao grau de baixo risco e possa ter
uma vida mais tranqüila. Esse é o lado mais complicado
da chamada vulnerabilidade externa: a falta de crédito vem
de um histórico de moratórias, de hiperinflação,
de intervenções arbitrárias na economia. Precisamos,
com o tempo, jogar tudo isso nos escaninhos da história.
Precisamos também de uma economia mais aberta, mais flexível.
Assim, é possível ajustar sem exigir tanto da taxa
de câmbio ou do nível de atividade econômica.
Nossa economia vem aumentando seu grau de flexibilidade e abertura.
Isso precisa continuar. E tem de ser recíproco.
Veja Como assim?
Fraga
Infelizmente, as lideranças dos principais países
da economia global têm sido extremamente pobres nessa área.
Sinto falta de uma visão americana mais generosa, mais iluminada.
Algo que traga uma dose de audácia no que diz respeito ao
comércio global. Dos europeus, então, nem se fala.
Eles têm tido uma postura ainda mais difícil que a
americana. Isso nos ajudaria também.
Veja Não seria o caso de o país ter uma
atitude mais firme nas negociações, em vez de ficar
esperando uma posição mais branda do outro lado?
Fraga
A realidade é que nosso poder de barganha é limitado.
O Brasil é um país importante, mas infelizmente não
é tão importante assim que possa ditar essas condições.
Temos tido uma postura competente ao longo dos anos. O profissionalismo
do Itamaraty tem dado inclusive a continuidade necessária
a esse processo, e espero que isso siga desse modo. É o que
dá para fazer do nosso lado. Tive inúmeras conversas
com lideranças importantes do governo americano. Nessas conversas,
sempre manifestei minha indignação com o fato de que
algumas vezes os americanos ou os europeus nos dão rasteiras.
Isso fragiliza os argumentos das pessoas como eu e muitas do atual
governo, que querem construir uma sociedade aberta e justa.
Veja A que rasteiras exatamente o senhor se refere?
Fraga
Posso citar as barreiras comerciais impostas pelos americanos no
caso do aço e do suco de laranja.
Veja
O senhor acha que o regime de metas para a inflação
tem ainda vida longa? Elas não emperram a retomada do crescimento?
Fraga
Ao
contrário, só ajudam. É preciso não
confundir aquecimento com crescimento, como dizem integrantes da
atual equipe econômica. Aquecimento é fácil:
o Banco Central reduz os juros e aquece a economia. Mas, se não
houver investimento, isso não gera crescimento. Ou seja,
é pileque e depois ressaca. O sistema de metas para a inflação
é o limite da flexibilidade dentro da responsabilidade monetária.
Dar um passo adiante seria não ter metas, e aí se
corre o risco de reviver o passado de inflação. Não
ter metas traz a tentação de sempre querer crescer
um pouquinho mais no curto prazo. Seria um crescimento entre aspas
ou seja, só um aquecimento. Não vejo outra
saída. Podem inventar outro método, mas eu não
sei qual é.
Veja Quando, afinal, o Brasil assistirá ao tal
"espetáculo do crescimento"?
Fraga
O Brasil está ameaçando retomar esse ciclo. Em 2000
tínhamos a esperança de engrenar na fase de um crescimento
sustentável. O país estava crescendo a um ritmo de
mais ou menos 4,5%. Fez isso por seis trimestres, começando
no último trimestre de 1999. E aí vieram as confusões
de 2001, que foram de natureza externa, além da crise de
energia, e a de 2002, que foi uma brutal crise de confiança.
As condições que nos levaram em 2000 a um crescimento
de 4,5% existem. Isso está a nosso alcance.
Veja
Recentemente, o senhor fez uma aparição
no Casseta & Planeta. É possível que tenha
sido o único ex-presidente de Banco Central até hoje
no mundo a participar como ator de um programa humorístico.
Não ficou preocupado com sua imagem?
Fraga
Para falar a verdade, não estava muito preocupado com isso.
Não foi um improviso total, combinamos antes. Alguns amigos
disseram "não entra nisso". Mas fizeram a proposta, achei
divertido e fiz.
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