|
|
EM
FOCO: Gustavo Franco
Confiança
e estabilidade
"O
crescimento não virá de programas de governo, mas
do setor privado, que sem confiança não é capaz
de atravessar a rua"
Ilustração Ale Setti
 |
A economia
brasileira não tem exibido bons números em matéria
de vendas, crescimento e emprego, exceto nas exportações,
as quais, infelizmente, ainda são pequenas para carregar
o Brasil nas costas. A responsabilidade pela retração
compete, em boa medida, à política monetária
austera e aos juros elevados, com vista a derrubar a inflação,
cabendo uma sempre inconclusiva discussão sobre dosagem.
Para muitos, a retranca foi excessiva, mas a vitória sobre
a inflação, ainda que sofrida, parece incontestável.
Há
algo mais, todavia, a incentivar o empresariado, nacional e estrangeiro,
a pisar no freio. Fala-se muito em "confiança", "risco regulatório",
"clima ruim" e em medos de natureza vaga, o que vale não
apenas para grandes companhias que cogitam fazer investimentos em
infra-estrutura como também para indivíduos que pensam
em comprar bens duráveis. Em ambos os casos, trata-se de
assumir compromissos por prazos longos em condições
de acentuada incerteza. Todos sabemos que o investimento é
a mola propulsora do crescimento, que a vontade de investir está
meio baixa e que depende de um conjunto amplo de fatores subjetivos
envolvidos na comparação entre o custo do capital
e o retorno esperado ao longo do período de vida de um novo
investimento.
Quem
quer que esteja ponderando iniciar um empreendimento, seja construir
uma nova fábrica, seja comprar um carro a prestação,
necessariamente fará cálculos cuidadosos envolvendo
risco e retorno, dívidas e dúvidas, passado e futuro.
O indivíduo refletirá sobre a possibilidade de perder
o emprego, e a empresa ouvirá conselhos de toda ordem, fará
planos e projeções, tentará adivinhar o que
fará o governo, e somente agirá se tiver segurança
sobre os resultados.
O
novo governo revela imensa vontade de acertar e tomou decisões
sensatas no tocante às grandes linhas de sua política
econômica. Muitas dessas decisões foram surpreendentes,
pois consistiram em dar prosseguimento a programas do governo passado.
Embora numa primeira observação se possam colocar
tais decisões na conta do pragmatismo, ou do calor de um
momento de crise, há algo mais nessas escolhas.
Na
exata medida em que o novo governo aceita que o Brasil é
uma construção coletiva, que não começou
em janeiro de 2003 e que muita coisa certa e boa foi feita antes
disso, inclusive pelo governo FHC, fica demonstrado que, no Brasil,
a oposição no poder não significa a revolução,
tampouco a desordem, nem um festival de expurgos e perseguições
contra tudo e todos ligados ao governo anterior. É claro
que o novo governo tem seus conceitos sobre como fazer as coisas,
e vai governar do jeito que bem entender. Existem idéias
em comum, mas viva a diferença, pois ela é da essência
da democracia. Em três anos e meio vamos ver o que dizem as
urnas, sendo certo que, um dia, todos os que estão no governo
hoje serão ex-alguma coisa.
O
fato é que, aceita essa conjectura, devem-se modificar para
melhor as análises do "risco Brasil", especialmente aquelas
de agências classificadoras de risco, cujo horizonte de análise
é bem mais longo que o dos mercados que transacionam diariamente
os títulos brasileiros. Melhores avaliações
seguramente viriam se ficasse demonstrado que o Brasil é
estável num sentido que vai bem além do poder de compra
da moeda nacional.
Mas
o fato é que essa conjectura precisa ser demonstrada. No
exterior, nas agências de risco, e também aqui, no
meio empresarial, existe genuína curiosidade sobre a real
personalidade deste governo. É verdade que o pensamento do
núcleo dominante no governo parece estar em constante evolução,
mas as diferenças internas são muito agudas. Posturas
de autoridades setoriais, de grupos e de "movimentos sociais" específicos
parecem inconsistentes com as grandes linhas traçadas pelo
presidente. Isso não contribui para insuflar confiança
nos investidores, nacionais e estrangeiros. Isso é muito
sério, pois o crescimento não virá de programas
de governo, mas do setor privado, que sem confiança não
é capaz de atravessar a rua.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
|