Edição 1912 . 6 de julho de 2005

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Música
A década que ressuscitou

As polainas e o blazer com ombreiras
continuam enterrados, mas a indústria
da nostalgia conseguiu reviver o pop
tolinho dos anos 80


Sérgio Martins

 
Fernando Moraes/Folha Imagem
Kid Vinil, Dulce Quental, Ritchie, Leo Jaime e Nasi (à esq.). Abaixo, Magal na Trash 80's: eles têm a força
Divulgação

Se alguém tivesse passado os últimos vinte anos dentro de uma câmara criogênica e ressuscitasse numa noitada dos dias de hoje, poderia achar que ainda está na década de 80. Como já ocorreu com a psicodelia dos anos 60 e a discoteca dos 70, a onda do momento é a nostalgia do pop tolinho daquele período. Em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Fortaleza, festas com até 8.000 pessoas são animadas por artistas que desde aqueles tempos andavam longe das paradas, como Leo Jaime, Kid Vinil e Ritchie. "Pensei que meu público tivesse se dissolvido para sempre. Mas agora faço dez shows por mês", diz Ritchie, autor de Menina Veneno e hoje com 53 anos. O sucesso desses eventos já repercute nas vendagens de discos de alguns veteranos. O carioca Leoni, que integrou o Kid Abelha e foi líder do extinto Heróis da Resistência, atingiu a marca de 32.000 cópias comercializadas com seu disco Ao Vivo – que está entre os dez CDs mais vendidos no país. Até gente que pouco teve a ver com os anos 80 pegou carona. A época áurea de Erasmo Carlos foi na década de 60 e a de Sidney Magal e Gretchen, na de 70 – mas isso não impede que entrem no mesmo pacote.

Os anos 80 viraram uma indústria e tanto. As gravadoras já se mexem – estão previstos para breve os lançamentos de um disco acústico do grupo Ultraje a Rigor e de um enésimo ao vivo dos Titãs. Mas o forte do negócio está nas festas temáticas. Atualmente, há quatro grandes eventos do gênero. O maior deles é o Geração 80, realizado duas vezes por mês nas principais cidades do país, com um rol de atrações que vai de Nasi, vocalista do Ira!, a Dulce Quental – aquela do grupo Sempre Livre, que ultimamente se virava como assessora de imprensa. Por trás do evento está o empresário Alexandre Ktenas, o mesmo que gestou a Banda Eva e os sertanejos Bruno & Marrone. O Geração 80 acaba de virar um programa de TV, que será transmitido no fim deste mês pelo canal pago Multishow. O projeto se completa com um CD e um DVD, a ser lançados nos próximos meses. A disputa por esse mercado causou um cisma. O empresário Manoel Poladian resolveu criar um evento parecido com o Geração 80 e levou duas atrações de seu elenco, a banda Blitz e o cantor Paulo Ricardo. Circula no meio musical que ele fez isso depois de propor, em vão, sociedade ao concorrente. "A diferença é que meus artistas realmente fizeram sucesso", alfineta Poladian.

O interesse atual pelos anos 80 tem a ver com um dado novo da cena noturna. Muita gente mais velha já não deixa de freqüentar as chamadas "baladas" depois de casar ou ter filhos. Esse público que passou dos 30 ou 40 anos e tem dinheiro no bolso é o consumidor natural desse tipo de nostalgia. "O cara tem de ouvir U2 e se emocionar, lembrar daquele período mágico", diz o organizador Kleber Dias. Pode-se também especular a respeito daquilo que psicólogos e sociólogos têm chamado de infantilização dos adultos. "Não há problemas em reviver a juventude. Só quem fica eternamente preso a esses elementos tem com que se preocupar", diz a psicóloga Rosane Mantilla, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Além de tigrões em busca da eterna mocidade, um segundo grupo com presença forte nessas festas é o daqueles que eram crianças nos anos 80 e invejavam o pessoal um pouco mais velho. "O sujeito ouvia A Fórmula do Amor no playground e sonhava em ver o Leo Jaime", diz o promotor de uma dessas festas.

No furor revivalista, os anos 80 passaram a ser santificados – basta ser daquele período para um artista virar objeto de culto. Isso inclui a cantora Rosana e os grupos Dominó, Dr. Silvana e Balão Mágico. "O público é fiel. Pede músicas cuja letra eu nem lembro", diz Afonso Nigro, ex-cantor do Dominó. A festa Trash 80's, criada há três anos em São Paulo, é o supra-sumo dessa nostalgia caricata. "A gente elimina qualquer artista que tenha o mínimo de qualidade", diz o DJ Tonyy, um de seus mentores. Em outras palavras, quase nada.

 
 
 
 
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