|
|
Corrupção
O elo se fechou O empresário
Marcos Valério, que dizia não ter nada a ver com o PT, negociou
e avalizou empréstimo de 2,4 milhões para o partido. Mais: a
SMPB, uma de suas agências, que trabalha para o governo, bancou
uma parcela, pagando 350 000 reais 
Alexandre Oltramari
Clique
nos documentos para vê-los ampliados | Montagem
com fotos de Nélio Rodrigues/1º Plano/Denio Simões/BG Press
 | A
SOCIEDADE ATÉ ENTÃO INVISÍVEL No papel acima,
os dados do empréstimo bancário tomado pelo PT e avalizado por Genoíno, Delúbio
e Marcos Valério, cujas assinaturas aparecem no papel reproduzido acima: ele é
"avalista e devedor solidário" |
O empresário
Marcos Valério Fernandes de Souza, dono de duas agências de publicidade,
tem sido acusado de ser o operador do mensalão, apelido dado ao dinheiro
que o PT distribuiria para deputados do PP e do PL. Ele nega. Nega ter participado
do tal mensalão e nega até mesmo que tenha relações
próximas com o próprio PT. Em entrevista publicada na edição
passada de VEJA, Marcos Valério disse que é amigo íntimo
do tesoureiro Delúbio Soares, mas nada tem a ver com o partido. Admitiu
que já esteve treze vezes na sede do PT em Brasília apenas neste
ano, mas garantiu que foi para "tomar um cafezinho" com o amigo Delúbio
Soares e discutir "futilidades e um pouco de política". Na mesma entrevista,
questionado sobre ter sido avalista do PT num empréstimo bancário,
o empresário não confirmou nem negou, mas, três horas depois,
orientado por seu advogado, pediu para retificar sua resposta: "Não fui
avalista do PT". Na semana passada, VEJA descobriu que, como já se desconfiava,
nada disso é verdade. A verdade é muito pior. Marcos Valério
tem uma sociedade secreta com o PT cujos elos são financeiros. O homem
da mala e o partido que foi eleito para moralizar a política estão
umbilicalmente ligados por obscuras transações envolvendo dinheiro,
muito dinheiro. E o que é pior para todos: dinheiro público.
VEJA teve acesso a documentos bancários guardados nos arquivos do Banco
Central cuja leitura prova que o PT fez um empréstimo de 2,4 milhões
de reais no dia 17 de fevereiro de 2003 no BMG, em Belo Horizonte. O empréstimo
teve a assinatura de três avalistas. Dois são dirigentes conhecidos
e têm cargo formal na direção do partido. Um é José
Genoíno, que preside a legenda. O outro é Delúbio Soares,
o tesoureiro. O terceiro é ele mesmo: Marcos Valério. Sua assinatura,
cujos círculos lembram aqueles grandes rolos de arame farpado usado em
trincheiras, está colocada no documento sobre a seguinte identificação:
"Avalista e devedor solidário". Desmascara-se, assim, a maior mentira do
empresário: ele foi, sim, avalista do PT. Na realidade, ainda é,
pois a dívida ainda não foi quitada. Na semana passada, VEJA perguntou
ao presidente José Genoíno se Marcos Valério assinou algum
aval para o partido. "Não sei de nada disso, não. Eu tenho de me
informar. Acabei de descer do avião", disse Genoíno. Eram 9h37 da
manhã de sexta-feira passada e ele acabara de desembarcar em São
Paulo. "Acho que não tem isso. Vou me informar. Me ligue em uma hora."
Uma hora depois, Genoíno já estava
na sede do PT em São Paulo e travou-se o seguinte diálogo:
Veja E então?
Genoíno Olha, não tem isso, não. O que temos
com o Marcos Valério são dívidas de campanhas de políticos
que ele fez para a gente como publicitário.
Veja Ele nunca foi avalista do PT em alguma operação
bancária? Genoíno
Nunca. Ele nunca foi avalista do PT. Não tem isso, não.
Antonio Milena  |
IGUAIS, MAS NEM TANTO
Valério já foi comparado a PC Farias (foto): há,
sim, semelhanças, mas também há uma diferença central.
Lula não é Collor |
À primeira vista, fica difícil entender por que o PT faz tanta questão
de esconder que Marcos Valério já foi seu avalista. Em tese, seu
amigão Delúbio Soares poderia ter pedido que, num gesto de gentileza,
concordasse em ser avalista no empréstimo de 2,4 milhões de reais.
Não há crime numa operação assim. Examinando-se o
negócio mais a fundo, porém, descobre-se um motivo para o despiste:
Marcos Valério não foi apenas "avalista e devedor solidário",
mas chegou a pagar uma das prestações, no valor de 350.000 reais.
O dinheiro saiu da conta da agência publicitária SMPB Comunicação,
no Banco Rural. Em valores exatos, o pagamento foi de 349.927,53 reais e aconteceu
no dia 14 de julho de 2004. Seria até compreensível que o PT fizesse
algum depósito em favor da SMPB, que, afinal, é uma agência
de publicidade, trabalha em campanhas eleitorais e pode ter feito, conforme diz
José Genoíno, algum serviço publicitário para o PT.
Mas o contrário, a agência dar dinheiro ao partido, é uma
transação comprometedora. É prova de que a SMPB e o PT estão
entrelaçados em um casamento clandestino mas, ainda assim, um casamento,
daqueles em que se é fiel na alegria e na tristeza. SMPB e o PT ajudam-se
mutuamente nas urgências financeiras. Até aí se entende. Afinal,
cada um se casa com quem quer. É assunto privado. Só deixa de sê-lo
quando as ajudas são feitas com a participação do dinheiro
público. É esse justamente o caso de PT e Valério.
Uma das fontes de receita da SMPB é o governo do
PT. Isso mostra a existência de um ciclo conhecidíssimo, mas que
raramente se consegue trazer à luz com tanta nitidez como agora: o dinheiro
sai dos cofres públicos, faz uma escala na conta da agência de publicidade
e acaba aterrissando no caixa do PT. Simples. Muito simples. De uma simplicidade
tal que qualquer homem comum entende se tratar de grossa corrupção.
A SMPB de Marcos Valério tem dois contratos de publicidade com o governo.
Um é com os Correios, pelo qual a agência já recebeu, só
neste ano, 15 milhões de reais. O outro é com o Ministério
do Esporte, de 650.000 reais. A SMPB tem também contrato com a Câmara
dos Deputados, assinado na gestão do petista João Paulo Cunha, pelo
qual já recebeu 10,7 milhões de reais. Sua outra agência,
a DNA, possui três contratos com o governo. O maior deles é com o
Banco do Brasil, que rendeu cerca de 105 milhões de reais à agência
no ano passado. Depois, vem o contrato com a Eletronorte, cujo valor total é
de 12,5 milhões de reais. Há, ainda, um terceiro contrato, selado
com o Ministério do Trabalho, pelo qual a agência recebeu neste ano
506.000 reais.
Ailton de Freita/Ag. O Globo  |
AVARIADO, MAS INTEIRO
Jefferson, com os estragos no olho esquerdo produzido por um acidente
doméstico: novas suspeitas confirmadas |
Qual o total de dinheiro nosso entregue ao camarada Valério para prestar
serviços de propaganda ao governo? 144,4 milhões de reais. Quando
se contabilizam contratos de prazos maiores, a conta passa de 400 milhões.
Quanto disso entrou na ciranda financeira do casamento entre o PT e a SMPB? Não
se pode precisar. Mas é, sem dúvida, uma boa linha de investigação
para os órgãos competentes. O que se sabe com certeza é que
existe uma sociedade entre o partido e o falso publicitário e que
ambos se favorecem dela. No início do ano passado, a empresa de participações
de Valério, a Graffiti, que controla a agência de publicidade DNA,
contraiu um empréstimo de mais de 15 milhões de reais e deu como
garantia a receita de um contrato publicitário que, pouco antes, fora firmado
entre a SMPB e os Correios.
O empréstimo
de 2,4 milhões de reais foi pedido por Delúbio Soares assim que
o presidente Lula tomou posse, no começo de 2003. Verificando-se os bastidores
do negócio, constata-se que Marcos Valério entrou em cena logo no
início. Sua participação foi decisiva:
• Ao saber que Delúbio pedira o empréstimo mas não estava
tendo sucesso, Valério entrou na operação para reforçar
o pedido. • Ao perceber que o PT enfrentava dificuldades
na negociação, Valério fez questão de participar das
conversas com a direção do banco.
• Com a intenção de mostrar os músculos do PT no governo,
Valério levou a direção do banco a visitar o então
ministro José Dirceu, da Casa Civil. Quem? José Dirceu, aquele que
se propõe a incendiar a militância petista em defesa da luta contra
a corrupção e em defesa do governo.
• Por fim, para viabilizar o empréstimo, Valério resolveu usar a
força de seu patrimônio pessoal. Assinou o contrato como avalista
do empréstimo de 2,4 milhões. No
depoimento que prestou à Polícia Federal na semana passada, Valério
mentiu sobre esse assunto. Disse que nunca agendou nenhum encontro "pessoal ou
oficial" com o então ministro José Dirceu, da Casa Civil. Disse
ainda que só esteve com Dirceu "em reuniões sociais, tais como um
churrasco comemorativo do aniversário de um deputado" de cujo nome não
se lembra. Antes, em entrevista publicada em VEJA, contou que esteve "três
ou quatro vezes" com Dirceu e "quatro ou cinco vezes" na sua ante-sala no Palácio
do Planalto, onde jogava conversa fora com a assessora-chefe da Casa Civil, sua
amiga Sandra Cabral. Na negociação do empréstimo de 2,4 milhões
de reais, porém, os caminhos de Valério e Dirceu se cruzaram. Num
dado momento, dirigentes do BMG reuniram-se com Valério e Delúbio
no hotel Blue Tree, em Brasília, para discutir o empréstimo. Ainda
em Brasília, Valério levou os dirigentes do banco à presença
do então ministro José Dirceu. De quem? José Dirceu. Depois
disso, o empréstimo foi liberado. Os 2,4 milhões de reais foram
depositados na conta bancária do PT no Banco do Brasil. Procurado
por VEJA, que deixou três recados em seu gabinete, o deputado José
Dirceu não retornou as ligações. Contudo, o ex-ministro já
afirmara que não tinha relações nem políticas nem
pessoais com Valério, a quem recebeu, segundo ele, apenas duas vezes na
Casa Civil. Valério também foi procurado pela revista, que queria
saber as razões que o levaram a mentir sobre o aval ao PT. Ele acionou
seu advogado, Rogério Tolentino. "Por orientação dos advogados,
ele não vai fazer nenhuma afirmação que possa conflitar com
a defesa", disse Tolentino. "Por isso, ele não pode confirmar, desmentir
nem dar nenhum esclarecimento. Hoje ele está quieto", arrematou. VEJA também
procurou a direção do BMG para um esclarecimento: por que o banco
não executou as garantias do empréstimo já que a operação
não foi quitada pelo PT? A assessora de imprensa do banco, a jornalista
Angélica Appelt, enviou uma nota à revista na qual se lê:
"A direção do banco BMG não pode comentar as informações
levantadas pela revista em respeito à lei do sigilo bancário".
Marcos Valério entrou para o epicentro do escândalo
no dia 12 de junho, quando o deputado Roberto Jefferson, em entrevista ao jornal
Folha de S.Paulo, apresentou seu nome ao país e acusou-o de ser
o homem da mala do PT . De lá para cá, todos os indícios
que já apareceram conferem à perfeição com as suspeitas.
Jefferson disse que Valério era o operador do mensalão e que, nessa
condição, fazia viagens freqüentes a Brasília, nas quais
levava malas de dinheiro retirado do Banco Rural. De fato: Valério esteve
31 vezes em Brasília, apenas no período de maio a dezembro de 2003
o que dá uma viagem por semana. Na véspera de suas viagens
a Brasília havia saques vultosos nas contas de suas empresas, e os saques
eram mesmo feitos no Banco Rural. Cruzando-se as datas das viagens com as dos
saques, tem-se um balé perfeitamente simétrico. Entre julho e dezembro
de 2003, Valério sacou 11,2 milhões de reais de suas empresas. Desse
total, 6,2 milhões foram retirados na véspera de suas visitas a
Brasília ou no dia em que se achava na capital federal.
A agenda de sua ex-secretária Fernanda Karina Somaggio, que depôs
no Conselho de Ética da Câmara, trouxe um dado adicional. Há
uma anotação indicando que Valério lhe pedia que reservasse
suítes com cofre nos hotéis em Brasília. Em seu depoimento,
Karina contou que ouviu sua colega Simone Vasconcelos, que costumava acompanhar
Valério nas viagens a Brasília, reclamar que andava cansada de ficar
em quartos de hotel "contando dinheiro" e assistindo ao "entra-e-sai de homens".
Na semana passada, Jefferson, com o olho esquerdo avariado pela diz ele
queda de um armário, acrescentou novos detalhes às peripécias
de Valério e, de novo, os indícios não tardaram a vir. Disse
que o empresário fazia pagamentos do mensalão numa agência
do Banco Rural no 9º andar de um shopping em Brasília.
Pois bem: os registros da portaria do prédio informam que Valério
esteve lá pelo menos uma vez, em 19 de agosto de 2003. No mesmo dia, 150.000
reais foram sacados da conta da DNA no Rural, em Belo Horizonte. Givaldo
Barbosa/Ag. O Globo
 | NADA
SERÁ COMO ANTES O PT hoje, com Silvio Pereira,
José Genoíno e Delúbio Soares, e o PT ontem, com seus fundadores: trajetória política
exuberante tisnada agora pelas más companhias e pelos negócios obscuros | Carlos
Namba
 |
Com
tantos indícios conferindo com as suspeitas, Marcos Valério transformou-se
em peça-chave das denúncias. Jefferson, em seu depoimento da semana
passada, disse que o célebre PC Farias, o tesoureiro de Collor que enriqueceu
a si e ao patrão fazendo traficâncias dentro e fora do governo, "é
pinto" perto de Valério. Ele define o falso publicitário como uma
"versão moderna e macaqueada" de seu antecessor PC Farias. A comparação
é um lance de retórica, mas existem alguns paralelos entre os dois:
eram ambos obscuros até que as denúncias rasgassem o anonimato,
circulavam discretamente pelos gabinetes poderosos da República, tinham
uma penca de empresas e, sempre que eram questionados sobre seus negócios,
davam explicações que não resistiam à primeira checagem.
Há, no entanto, uma diferença fundamental. PC Farias atuava com
autorização expressa do então presidente Collor, e o produto
de suas propinas era dividido entre os dois. Agora, sabe-se que Valério
tinha salvo-conduto de dirigentes do PT, mas não se conhece nenhuma ligação
entre ele e o presidente da República. A amigos, Lula tem dito que nunca
ouvira falar do empresário. A descoberta
de que Valério e o PT se cruzam em negócios bancários reforça
as suspeitas de que o empresário atua em nome do partido, mas também
provoca um dano imenso à imagem do PT. Em seus 25 anos de vida, a legenda
virou um partido poderoso e parecia ter percorrido sua trajetória sem perder
as qualidades originais, entre as quais se ressaltava o compromisso com a ética
e a moralidade pública. Esse era seu diferencial, o que fez da estrela
vermelha um símbolo de esperança para o Brasil. Agora, o cenário
é outro. Na quinta-feira passada, o tesoureiro Delúbio Soares, ex-professor
de matemática, aproveitou um evento que reuniu trabalhadores da educação
na Assembléia Legislativa de Goiás, em Goiânia, e fez o discurso
que lhe resta diante de tantas evidências: disse que o impeachment de Lula
está sendo urdido pela "direita", acusou a imprensa de trabalhar a favor
dos "setores conservadores", incluindo VEJA no rol dos criticados, e acabou conclamando
a militância do PT a lutar contra os golpistas. A militância do PT,
outrora tão aguerrida, parece apática e perplexa diante da lama.
A atual liderança do partido é incapaz de arrastar multidões
às ruas. Também era o que faltava: esperar que pessoas honestas,
só porque são de esquerda, marchem sob a bandeira do falso publicitário
e do tesoureiro do PT gritando a palavra de ordem: "Dinheiro / público
/ É do Valério e do Delúbio".
As cinco pontas do dinheiro O
empréstimo do PT pago parcialmente por Marcos Valério é parte de um ciclo em que
o dinheiro público sai dos cofres de estatais e volta para a cúpula petista. O
ciclo tem cinco fases Montagem
sobre foto Nélio Rodrigues/1º Plano
 |
1.
O DINHEIRO SAI As agências de publicidade de Valério ganham
ou renovam contratos com empresas estatais. Em apenas um ano ele recebeu 144 milhões
de reais nesses contratos 2. MANOBRA DO EMPRÉSTIMO No
caso específico da transação desvendada por VEJA, Valério
aparece como avalista de um empréstimo de 2,4 milhões de reais feito
pelo PT 3. O SOCORRO AO PT O PT não
paga as parcelas do empréstimo. Elas vão se acumulando. As empresas
de Valério socorrem o PT e pagam uma parcela de 350 000 reais 4.
A RECOMPENSA Pelos bons serviços financeiros prestados ao PT, as
empresas de Valério continuam ganhando contratos oficiais 5.
O OUTRO PAGAMENTO Para tentar manter a sociedade secreta em funcionamento,
Valério mente à Polícia Federal sobre suas reais vinculações
com o PT. De quebra, tenta envolver políticos tucanos |
| |