Edição 1912 . 6 de julho de 2005

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Entrevista: Alexandre Kalache
Um mundo mais velho

O brasileiro que coordena o programa
de envelhecimento da OMS diz que a
sociedade deve se preparar para ter
igual número de idosos e jovens


Tiago Cordeiro

 

Oscar Cabral

"O fato de a humanidade ter acrescentado 29 anos a sua expectativa de vida é a maior conquista do século XX e o grande desafio do século XXI"

Para o médico gerontologista Alexandre Kalache, o rápido envelhecimento da população mundial, tendência que costuma alarmar os especialistas no assunto, deve ser motivo de comemoração. Segundo ele, esse novo quadro demográfico vai obrigar os países a transformar os idosos de fardos para a economia em pessoas integradas à sociedade produtiva. Kalache coordena desde 1995, em Genebra, na Suíça, o Programa de Envelhecimento e Curso de Vida, da Organização Mundial de Saúde, que estabelece políticas públicas globais para a terceira idade. Segundo o médico, as sociedades terão de se preparar em várias frentes para um mundo que, em 2050, terá o mesmo número de idosos e de jovens. A instituição da aposentadoria, por exemplo, deverá ser totalmente revista. "A tendência é que, em vez de se aposentar de um dia para o outro, a pessoa reduza a carga horária devagar, com o passar dos anos. Esse procedimento é o ideal porque mantém o cidadão integrado à sociedade", opina Kalache. Na semana passada, o médico, que é carioca, esteve no Rio de Janeiro para participar do Congresso Internacional de Gerontologia. Ele deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – A média da expectativa de vida no mundo, que era de 50 anos em 1900, pulou para 79 anos em 2000. A sociedade está preparada para abrigar tantos idosos?
Kalache – O fato de a humanidade ter acrescentado 29 anos a sua expectativa de vida é a maior conquista do século XX e o grande desafio do século XXI. Em muitos países, mesmo na Europa, ainda persiste a mentalidade de que a população é predominantemente jovem. O sistema de saúde e a infra-estrutura urbana não levam em consideração o aumento acelerado de pessoas na terceira idade. Na França, um país rico, idosos morreram aos milhares durante a onda de calor de 2003. Em 2050 o número de idosos no mundo vai ser equivalente ao de jovens, e é preciso que as sociedades se preparem para essa mudança. O idoso de 2050 não é uma abstração, ele é o jovem de hoje. A geração que atualmente está próxima da aposentadoria, os chamados baby boomers, nascidos depois da II Guerra, talvez mude a forma como entendemos o envelhecimento.

Veja – De que maneira isso pode acontecer?
Kalache – Essa geração, nascida entre 1950 e 1964, criou o conceito de adolescência como o conhecemos hoje, uma fase com seus próprios problemas e demandas. Ela promoveu uma revolução sexual e de costumes. Agora, está redefinindo as expectativas pessoais e profissionais da vida adulta. Essa geração vai nos ensinar que envelhecer participando da sociedade é mais importante do que envelhecer com saúde. Seus integrantes têm um padrão educacional muito mais alto do que seus pais e avós. Vão envelhecer exigindo ter voz ativa e serão muito mais exigentes com seus médicos e familiares. Serão também grandes consumidores. O mercado de turismo já tem muitas agências especializadas nesse setor. Há carros sendo projetados especialmente para essa geração, com portas mais largas, poltronas que se elevam para que o motorista entre com mais facilidade e pára-brisa maior. Por causa dos baby boomers, o design do século XXI vai ser simplificado.

Veja – As famílias estão ficando menores e a diferença de idade entre as gerações está aumentando. Esse distanciamento pode provocar conflitos na convivência doméstica?
Kalache – O risco de conflitos não tende a aumentar porque o avô e a avó sempre exercem um papel conciliador. O mesmo vale no ambiente profissional. Uma grande rede de supermercados da Inglaterra tem como política contratar pessoas com mais de 60 anos para fazer pequenos trabalhos. A administração chegou à conclusão de que a presença do idoso no ambiente profissional faz com que os conflitos entre chefes e empregados diminuam. O mais velho é aquele que conversa com o chefe, dá algumas sugestões ponderadas e acalma o ambiente. O mesmo pode acontecer na família, desde que os membros mais idosos não participem dela apenas por falta de opção.

Veja – Como será possível sustentar cada vez mais idosos aposentados sem que o sistema previdenciário dos países entre em colapso?
Kalache – Para pagar a conta dos aposentados, a solução é manter as pessoas trabalhando por mais tempo. A previdência social, no mundo todo, está numa encruzilhada. O risco é acontecer em muitos países o que acontece no Brasil, em que se tem um sistema fantástico só para a elite e quase nada para a maioria da população.

Veja – Isso significaria rever a instituição da aposentadoria?
Kalache – Exatamente. A idade média em que as pessoas se aposentam vinha caindo de forma alarmante, mas hoje há uma reversão nesse quadro. Em 1995, nos países-membros da União Européia, 30% dos trabalhadores tinham mais de 50 anos. Esse número deve aumentar para 48% em 2030. A tendência é que, em vez de se aposentar de um dia para o outro, a pessoa reduza a carga horária devagar, com o passar dos anos, e faça trabalhos que não dependam da força física. Esse procedimento é o ideal, porque mantém o cidadão integrado à sociedade.

Veja – Mesmo que queiram continuar produtivos, os idosos têm pouco espaço no mercado de trabalho. É possível aproveitar melhor a experiência deles?
Kalache – A integração do idoso à sociedade pode acontecer de outras formas. Não é de hoje que a economia de mais de 3.000 municípios do Brasil gravita em torno daquele dinheirinho da pensão. O valor da pensão parece uma miséria, mas é fundamental, movimenta o comércio e gera crédito para toda a família. Na África, é a mulher idosa que cuida dos filhos e dos netos vítimas de aids. Na Espanha, segundo uma pesquisa recente, as mulheres entre 75 e 84 anos que têm doentes em casa dedicam em média cinco horas e meia por dia para cuidar deles. Se essas mulheres idosas fizessem greve, o sistema de saúde entraria em colapso.

Veja – Os problemas de saúde enfrentados pelos idosos são diferentes nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento?
Kalache – Não. As causas de mortalidade do idoso são as mesmas na África ou na Noruega. Nos países em desenvolvimento, depois que se escapa da morte prematura na infância, a expectativa de vida passa a ser muito próxima à dos países desenvolvidos. O idoso favelado no Brasil hoje morre de câncer, de derrame, do coração e de diabetes. Antes, ele não vivia o suficiente para sofrer desses males, que eram considerados doenças de rico. Hoje, os pobres têm acesso a um sistema de saúde melhor do que há vinte anos. Os ricos, por outro lado, aprenderam a se alimentar melhor e, beneficiados pelos avanços da medicina, adquiriram condições de evitar ou adiar males fatais.

Veja – Como evitar que o dinheiro destinado à saúde dos idosos sacrifique os gastos no atendimento a gestantes e crianças?
Kalache – Trinta anos atrás, os médicos precisavam de muito treinamento nas áreas de obstetrícia e pediatria, porque havia uma massa enorme de mulheres tendo filhos. Agora, as demandas são outras. Continuar com aquele modelo antigo, do centro de saúde feito para a criança, é perder a perspectiva de que o mundo está em transformação. Um hospital que atenda ao idoso beneficia a todos. É um lugar com facilidade de acesso aos quartos, sinalização clara, profissionais bem treinados, uma sala de espera confortável e banheiros adequados.

Veja – A chegada à terceira idade é igual para homens e mulheres?
Kalache – As mulheres vivem mais e são mais pobres porque recebem aposentadorias menores. Além disso, por causa de hábitos culturais, elas se casam com homens mais velhos, o que traz um período de viuvez empobrecida que dura em média quinze anos. É nesse período que elas mais precisam de ajuda e acabam indo morar com a família. Uma pesquisa recente apontou que a mulher mais propensa à depressão é a idosa que vive com os filhos e mora num apartamento apertado, dormindo no quarto dos netos adolescentes. Essa idosa acaba sendo vítima de vários tipos de abuso.

Veja – Que tipo de abuso?
Kalache – A OMS estima que entre 7% e 10% dos idosos do mundo sofrem algum tipo de maus-tratos físicos e psicológicos constantemente. Uma forma cada vez mais comum, principalmente nos países ricos, é o abuso financeiro. O idoso acaba sendo extorquido pelos familiares. Há vinte anos, os países se recusavam a admitir a violência doméstica contra a mulher e a criança. Agora estamos começando a levantar dados sobre os maus-tratos aos idosos.

Veja – Os países orientais têm fama de tratar bem seus idosos. É verdade?
Kalache – À medida que as sociedades se modernizam e se urbanizam, a cultura de reverência aos idosos vai se diluindo. A sociedade oriental se transformou e a juventude tem outros valores. No Japão existem delinqüentes juvenis especializados em assaltar velhinhas. Em países da Ásia, já andei em ônibus em que os velhinhos vão em pé e ninguém se levanta para oferecer o assento.

Veja – Que países protegem melhor seus idosos?
Kalache – As nações ricas têm melhor infra-estrutura e oferecem mais oportunidades de emprego, recreação e educação. Porém, existem outros fatores igualmente importantes para o bem-estar dos idosos. Os brasileiros ainda cultivam um carinho no trato pessoal e uma afabilidade com os mais velhos que não existem na Europa e na Ásia. Essa atitude é muito positiva e difícil de medir. Tanto o Brasil como a África do Sul têm projetos fantásticos com os quais se pretende garantir a pensão automática para os idosos pobres que não contribuíram para a Previdência.

Veja – Com que idade é preciso se preparar para envelhecer?
Kalache – A partir da hora em que se nasce. Envelhecer é um processo e, agora que a vida das pessoas se tornou mais longa, a sociedade precisa responder com medidas práticas. Transporte público, por exemplo. Uma sociedade que não tem ônibus adequados condena o idoso a ficar ilhado em casa. Outra questão é o calçamento. Como é que você vai pedir que o idoso tenha uma atividade física se as ruas estão cheias de buracos?

Veja – Depois do Viagra, a vida sexual dos idosos deixou de ser tabu?
Kalache – Em alguns países, como a Dinamarca, a Holanda e a Inglaterra, já não é tão escandaloso que o idoso viúvo saia para paquerar. Mas o homem é mais bem-aceito do que a "velha assanhada". Esta é pressionada para viver seus últimos anos como uma pessoa recatada, que não pode pensar em sexo.

Veja – Um mundo mais idoso será mais conservador?
Kalache – Uma população envelhecida não é necessariamente mais conservadora. Na França, no recente referendo sobre a Constituição da União Européia, 58% dos cidadãos de 50 a 64 anos votaram a favor de sua aprovação. Se dependesse deles, o país teria dado um sim categórico à Constituição. Na Europa, pela primeira vez os países têm de se preocupar com o envelhecimento da população imigrante. Agora, o trabalhador da Jamaica ou do Paquistão que se aposenta na Inglaterra tem força política e tende a não ser conservador. O idoso do passado não tinha o hábito de votar. Hoje, vota.

Veja – Não é difícil promover campanhas pela valorização da terceira idade num mundo que celebra a juventude?
Kalache – São pouquíssimos os exemplos de valorização da idade madura. Há seis anos, estive com a atriz Jane Fonda e pedi que nos ajudasse numa campanha de conscientização para criar uma sociedade atenta ao idoso. Ela se negou taxativamente. Há muitas pessoas idosas famosas e muito bonitas que só querem projetar uma imagem de juventude. É o caso da atriz Sophia Loren e do ator Paul Newman. Eles não querem projetar uma imagem de beleza, mas de juventude. No Brasil, isso é pior ainda. Conversei muito com as atrizes Tônia Carrero e Fernanda Montenegro e elas também não quiseram participar de campanhas de valorização da terceira idade. Estar associado a envelhecimento, pelo jeito, é ruim para a imagem do artista. Agora, estamos fazendo um apelo para que Pelé, que completa 65 anos neste ano, seja nosso embaixador.

Veja – As pessoas hoje vivem mais e os casais têm menos filhos. Como isso vai se refletir na demografia do planeta?
Kalache – Até o fim do século passado o mundo vinha envelhecendo por causa da diminuição, em termos relativos, do número de jovens. Esse fenômeno começou na Europa, mas hoje já se espalhou pelo resto do mundo. No Brasil, a média de filhos por mulher caiu de 5,8 no começo dos anos 70 para 2,1. Esse é exatamente o valor da taxa mínima de reposição populacional: dois filhos por casal mais uma pequena margem para cobrir a mortalidade infantil. Existem hoje setenta países com índices de fecundidade abaixo da taxa de reposição. Há vinte anos, eram só 22. Daqui a quinze anos, serão 123 países de todos os continentes, com exceção da África. O envelhecimento da população do mundo é um processo irreversível.

Veja – O senhor completa 60 anos em outubro. Está pronto para envelhecer?
Kalache – Tenho excelentes hábitos alimentares e sou bastante ativo. Mas o mais importante é ter projetos. Os índices de morte no ano seguinte à aposentadoria são muito altos porque, de repente, você se sente inútil, e isso tem um impacto grande na saúde. Não pretendo parar de jeito nenhum. A aposentadoria não está na minha agenda.

 
 
 
 
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