Ponto
de vista: Lya Luft A
volta da família careta
"Perdoem-me
os pais que se queixam de que os filhos são um fardo, de que faltam tempo,
dinheiro, paciência. Receio que o fardo, o obstáculo e o estorvo
a um crescimento saudável dos filhos sejam eles"
Foi
tão grande e variado o número de e-mails, telefonemas e abordagens
pessoais que recebi depois de escrever que família deveria ser careta,
que resolvi voltar ao assunto, para alegria dos que gostaram e náusea dos
que não concordaram ou não entenderam (ai da unanimidade, mãe
dos medíocres). Atenção: na minha coluna não usei
"careta" como quadrado, estreito, alienado, fiscalizador e moralista, mas humano,
aberto, atento, cuidadoso. Obviamente empreguei esse termo de propósito,
para enfatizar o que desejava.
Atômica
Studio
Houve
quem dissesse que minha posição naquele artigo é politicamente
conservadora demais. Pensei em responder que minha opinião sobre família
nada tem a ver com postura política, eu que me considero um animal apolítico
no sentido de partido ou de conceitos superados, como "a esquerda é inteligente
e boa, a direita é grossa e arrogante". Mas, na verdade, tudo o que fazemos,
até a forma como nos vestimos e moramos, é altamente político,
no sentido amplo de interesse no justo e no bom, e coerência com isso.
E assim, sem me pensar de direita ou de esquerda, por ser interessada na minha
comunidade, no meu país, no outro em geral, em tudo o que faço e
escrevo (também na ficção), mostro que sou pelos desvalidos.
Não apenas no sentido econômico, mas emocional e psíquico:
os sem auto-estima, sem amor, sem sentido de vida, sem esperança e sem
projetos.
O que tem isso a
ver com minha idéia de família? Tem a ver, porque é nela
que tudo começa, embora não seja restrito a ela. Pois muito se confunde
família frouxa (o que significa sem atenção), descuidada
(o que significa sem amor), desorganizada (o que significa aflição
estéril) com o politicamente correto. Diga-se de passagem que acho o politicamente
correto burro e fascista.
Voltando à família: acredito profundamente que ter filho é
ser responsável, que educar filho é observar, apoiar, dar colo de
mãe e ombro de pai, quando preciso. E é também deixar aquele
ser humano crescer e desabrochar. Não solto, não desorientado e
desamparado, mas amado com verdade e sensatez. Respeitado e cuidado, num equilíbrio
amoroso dessas duas coisas. Vão me perguntar o que é esse equilíbrio,
e terei de responder que cada um sabe o que é, ou sabe qual é seu
equilíbrio possível. Quem não souber que não tenha
filhos.
Também me perguntaram
se nunca se justifica revirar gavetas e mexer em bolsos de adolescentes. Eventualmente,
quando há suspeita séria de perigos como drogas, a relação
familiar pode virar um campo de graves conflitos, e muita coisa antes impensável
passa a se justificar. Deixar inteiramente à vontade um filho com problema
de drogas é trágica omissão.
Assim como não considero bons pais ou mães os cobradores ou policialescos,
também não acho que os do tipo "amiguinho" sejam muito bons pais.
Repito: pais que não sabem onde estão seus filhos de 12 ou 14 anos,
que nunca se interessaram pelo que acontece nas festinhas (mesmo infantis), que
não conhecem nomes de amigos ou da família com quem seus filhos
passam fins de semana (não me refiro a nomes importantes, mas a seres humanos
confiáveis), que nada sabem de sua vida escolar, estão sendo tragicamente
irresponsáveis. Pais que não arranjam tempo para estar com os filhos,
para saber deles, para conversar com eles... não tenham filhos. Pois, na
hora da angústia, não são os amiguinhos que vão orientá-los
e ampará-los, mas o pai e a mãe se tiverem cacife. O que
inclui risco, perplexidade, medo, consciência de não sermos infalíveis
nem onipotentes. Perdoem-me os pais que se queixam (são tantos!) de que
os filhos são um fardo, de que falta tempo, falta dinheiro, falta paciência
e falta entendimento do que se passa receio que o fardo, o obstáculo
e o estorvo a um crescimento saudável dos filhos sejam eles.
Mães que se orgulham de vestir a roupeta da filha adolescente, de freqüentar
os mesmos lugares e até de conquistar os colegas delas são patéticas.
Pais que se consideram parceiros apenas porque bancam os garotões, idem.
Nada melhor do que uma casa onde se escutam risadas e se curte estar junto, onde
reina a liberdade possível. Nada pior do que a falta de uma autoridade
amorosa e firme.
O tema é
controverso, mas o bom senso, meio fora de moda, é mais importante do que
livros e revistas com receitas de como criar filho (como agarrar seu homem, como
enlouquecer sua amante...). É no velhíssimo instinto, na observação
atenta e na escuta interessada que resta a esperança. Se não podemos
evitar desgraças porque não somos deuses , é
possível preparar melhor esses que amamos para enfrentar seus naturais
conflitos, fazendo melhores escolhas vida afora.