Uma
das visões mais deturpadas sobre a América Latina é a de
que seu atraso econômico e social decorre da exploração imposta
pelos países ricos, sobretudo os Estados Unidos. Deve-se a essa noção,
entre outras não menos equivocadas, o costume latino-americano de açoitar
investidores estrangeiros, enquanto o resto do mundo corre para tirar proveito
da globalização. O abismo entre essas duas percepções
é tema de Contos-do-vigário (Record; 308 páginas;
42 reais), do jornalista Andrés Oppenheimer, comentarista da CNN Español
e editor para a América Latina do jornal Miami Herald. Nascido em
Buenos Aires, Oppenheimer mudou-se para os Estados Unidos em 1976, depois do golpe
militar na Argentina. Nos últimos trinta anos, com análises lúcidas
e desapaixonadas, transformou-se no mais relevante especialista em assuntos latino-americanos
da imprensa americana. Oppenheimer conta no livro histórias de países
que conseguiram ou estão a caminho de livrar-se do subdesenvolvimento
intelectual, econômico e social. Para isso, o jornalista esteve na Irlanda,
na Polônia e na China e entrevistou, entre outros, o ex-secretário
de Defesa dos Estados Unidos Donald Rumsfeld, o ex-premiê espanhol Felipe
González, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente argentino
Néstor Kirchner.
Numa
das passagens mais reveladoras do livro, Oppenheimer registra a estranheza dos
chineses em relação à Teoria da Dependência, uma das
fantasias que fazem (e estragam) cabeças de esquerda na América
Latina. "Ficou totalmente superada", diz, a certa altura, o pesquisador Jiang
Shixue, da Academia de Ciências Sociais da China. Não é de
surpreender. O setor produtivo chinês recebe anualmente 60 bilhões
de dólares em capitais estrangeiros, mais do que toda a América
Latina junta. A Irlanda oferece exemplo semelhante. "Éramos um país
atrasado, isolacionista, cuja forma de expressão de sua independência
da Grã-Bretanha fora buscar a auto-suficiência e a substituição
de importações. A única coisa que conseguimos foi criar uma
indústria nacional ineficiente", diz Brendan Lyons, subsecretário
de Relações Exteriores da Irlanda. Hoje, os irlandeses estão
entre os mais ricos do mundo. Já a Polônia comprova os benefícios
de viver numa zona de livre-comércio. Os ex-socialistas recebem, atualmente,
uma enxurrada de investimentos externos.
É
inegável que a América Latina come poeira. No entanto, como diz
Oppenheimer, as histórias de sucesso revelam que pode ser fácil
reverter rapidamente a posição de desvantagem basta, obviamente,
ir atrás de quem tomou o rumo certo. Oppenheimer vê sinais de avanço
em alguns países latino-americanos, principalmente no Chile, mas também
no México e no Brasil. Mas considera o progresso tímido. E sentencia:
"No mundo globalizado, um país não pode se comparar a si mesmo,
e sim aos demais, porque, de outra maneira, terá cada vez menos investimento,
menos competitividade, menos exportações e mais pobreza". Sua conclusão
é, em grande escala, melancólica. As lideranças políticas
da região mantêm-se firmes no hábito de aplicar "contos-do-vigário"
em seus eleitores ou seja, em prometer que o progresso virá num
passe de mágica, sem trabalho duro nem esforço algum.