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Edição 2011

6 de junho de 2007
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Contos do atraso

Livro mostra que a América Latina terá de
mudar mentalidade para entrar no século XXI

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Trecho do livro

Uma das visões mais deturpadas sobre a América Latina é a de que seu atraso econômico e social decorre da exploração imposta pelos países ricos, sobretudo os Estados Unidos. Deve-se a essa noção, entre outras não menos equivocadas, o costume latino-americano de açoitar investidores estrangeiros, enquanto o resto do mundo corre para tirar proveito da globalização. O abismo entre essas duas percepções é tema de Contos-do-vigário (Record; 308 páginas; 42 reais), do jornalista Andrés Oppenheimer, comentarista da CNN Español e editor para a América Latina do jornal Miami Herald. Nascido em Buenos Aires, Oppenheimer mudou-se para os Estados Unidos em 1976, depois do golpe militar na Argentina. Nos últimos trinta anos, com análises lúcidas e desapaixonadas, transformou-se no mais relevante especialista em assuntos latino-americanos da imprensa americana. Oppenheimer conta no livro histórias de países que conseguiram – ou estão a caminho de – livrar-se do subdesenvolvimento intelectual, econômico e social. Para isso, o jornalista esteve na Irlanda, na Polônia e na China e entrevistou, entre outros, o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos Donald Rumsfeld, o ex-premiê espanhol Felipe González, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente argentino Néstor Kirchner.

Numa das passagens mais reveladoras do livro, Oppenheimer registra a estranheza dos chineses em relação à Teoria da Dependência, uma das fantasias que fazem (e estragam) cabeças de esquerda na América Latina. "Ficou totalmente superada", diz, a certa altura, o pesquisador Jiang Shixue, da Academia de Ciências Sociais da China. Não é de surpreender. O setor produtivo chinês recebe anualmente 60 bilhões de dólares em capitais estrangeiros, mais do que toda a América Latina junta. A Irlanda oferece exemplo semelhante. "Éramos um país atrasado, isolacionista, cuja forma de expressão de sua independência da Grã-Bretanha fora buscar a auto-suficiência e a substituição de importações. A única coisa que conseguimos foi criar uma indústria nacional ineficiente", diz Brendan Lyons, subsecretário de Relações Exteriores da Irlanda. Hoje, os irlandeses estão entre os mais ricos do mundo. Já a Polônia comprova os benefícios de viver numa zona de livre-comércio. Os ex-socialistas recebem, atualmente, uma enxurrada de investimentos externos.

É inegável que a América Latina come poeira. No entanto, como diz Oppenheimer, as histórias de sucesso revelam que pode ser fácil reverter rapidamente a posição de desvantagem – basta, obviamente, ir atrás de quem tomou o rumo certo. Oppenheimer vê sinais de avanço em alguns países latino-americanos, principalmente no Chile, mas também no México e no Brasil. Mas considera o progresso tímido. E sentencia: "No mundo globalizado, um país não pode se comparar a si mesmo, e sim aos demais, porque, de outra maneira, terá cada vez menos investimento, menos competitividade, menos exportações e mais pobreza". Sua conclusão é, em grande escala, melancólica. As lideranças políticas da região mantêm-se firmes no hábito de aplicar "contos-do-vigário" em seus eleitores – ou seja, em prometer que o progresso virá num passe de mágica, sem trabalho duro nem esforço algum.

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