Uma coleção recupera
a obra do italiano Valerio
Zurlini, um cineasta ao qual a história não fez justiça
Isabela Boscov
Divulgação
Perrin e Claudia,
em A Moça
com a Valise: sempre um travo de desencanto
O bolonhês Valerio Zurlini (1926-1982) foi apelidado "o poeta da melancolia", mas talvez fosse mais certo chamá-lo de poeta de outro sentimento, mais definido e mais amargo o desencanto. Autor de uma obra pequena, de nem uma dezena de filmes, mas belíssima, Zurlini estranhamente foi meio que engolido pela história e obscurecido por colegas mais célebres, como Federico Fellini e Michelangelo Antonioni. Terminou quase desconhecido, a não ser por uns tantos cultores do cinema italiano das décadas de 50 a 70. Há alguns anos, porém, seus trabalhos começaram a ser restaurados e reexibidos. É por conta desse esforço, iniciado pelo Festival de Locarno, que a distribuidora Versátil que já colocou nas prateleiras das locadoras brasileiras muito do que se filmou de essencial na Itália no período, do próprio Fellini e de Luchino Visconti a títulos como o soberbo Aquele que Sabe Viver, de Dino Risi dispõe do material para lançar, em DVD, sete dos longas de Zurlini em cópias de qualidade. O primeiro da leva, já disponível, é A Moça com a Valise, de 1961. Claudia Cardinale, esplendorosa, é a jovem pobre, a um passo da prostituição e dispensada por um rapaz rico, que encanta o irmão mais novo deste (Jacques Perrin). Ela quer alguma espécie de justiça; ele quer protegê-la e nenhum dos dois tem os meios necessários para conseguir o que pretende, no que vão decepcionar-se mutuamente.
Esse tema, o das impossibilidades que se colocam no caminho de homens e mulheres, está em toda a obra de Zurlini. Às vezes é tratado por um viés mais realista, como em Verão Violento, de 1959, programado para o início de junho. Outras vezes se aproxima do existencialismo de Antonioni, como em A Primeira Noite de Tranqüilidade, de 1972 (previsto para julho), em que os desejos de amor e de morte se confundem no relacionamento de Alain Delon com uma jovem aluna. Mas o que separa Zurlini de seus contemporâneos, sempre, é o travo de desapontamento que está no fundo de cada uma de suas histórias como se seus personagens persistissem no otimismo apesar de ter ciência de que as perspectivas mais pessimistas é que os aguardam. Grosso modo, pode-se dizer que, enquanto os outros cineastas italianos tratavam do hedonismo que eclodiu no pós-guerra e do individualismo que floresceu nos anos 60, Zurlini insistia, como um de seus próprios protagonistas, em acreditar que alguns indivíduos são imunes ao cinismo e ao egoísmo e permanecem generosos, ainda que em seu próprio prejuízo.
No ano que vem, devem chegar ao mercado O Deserto dos Tártaros, Quando o Amor É Mentira, Sentado à Sua Direita e Mulheres no Front. Os dois últimos, em especial, deixam clara a adesão do diretor à militância de esquerda. Como em tudo o mais, porém, Zurlini se distinguia nela dos outros cineastas "políticos" de seu tempo, como Gillo Pontecorvo e Costa-Gavras. Para ele, o socialismo era mais questão de filosofia do que de ideologia a filosofia, muito brandida e pouco praticada, de que a justiça é irmã do desprendimento e prima apenas distante deste ou daquele credo político.