Enio
(Leonardo Medeiros) é controlador de trânsito em São Paulo.
Em vez de enxergar congestionamentos de motoristas estressados, vê fluxos
de partículas, que pode fazer escoar para cá ou para lá,
mais rápido ou mais devagar. Pedro (Rodrigo Santoro) fabrica mesas de sinuca
e compete no esporte, planejando seqüências de jogadas complexas muito
antes de vir a disputá-las. Como nos curtas-metragens premiados de Philippe
Barcinski, Janela Aberta e Palíndromo, o que está
em questão para esses personagens são a razão e a lógica
ou, no caso, a sua crença de que, aplicadas com o rigor devido,
elas são capazes de se sobrepor ao caos e organizá-lo. O objetivo
de Não por Acaso (Brasil, 2007), porém, é tirá-los
à força de sua complacência e de seu isolamento.
Nessa estréia de Barcinski como longa-metragista, em cartaz no país
a partir de sexta-feira, tanto Enio como Pedro são lançados no imponderável
pela morte de mulheres próximas, e pela entrada de outras mulheres no espaço
que ficou aberto. Ambos enxergam no acaso uma violência contra eles
e ambos tentarão se mobilizar para controlar esses eventos, até
começarem a distinguir neles uma nova oportunidade. Começarem, aqui,
é a palavra-chave: diretor discreto e com domínio de sua técnica
e de sua narrativa, Barcinski recusa duas tentações evidentes numa
trama como essa a de ligar as histórias dos dois protagonistas por
meio de algum artifício e a de fechar uma solução para a
vida deles.
Como em seus
curtas também, Barcinski desenvolve em seu longa um terceiro personagem:
a cidade de São Paulo. Não por Acaso, co-produzido pela paulistana
O2, de Fernando Meirelles, a trata com justiça no que ela tem de feio e
de bonito, e a entende como uma espécie de organismo com vontade própria
uma idéia habilmente executada na forma como a cidade é filmada.
Em outras palavras, São Paulo é aqui a demonstração
empírica da futilidade de tentar controlar o incontrolável. E, para
além disso, parece resumir também uma visão pessoal do diretor,
a de que do tumulto podem surgir igualmente as chances ruins e boas da vida.