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Edição 2011

6 de junho de 2007
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Cinema
Homenagem ao caos

No discreto Não por Acaso, São Paulo simboliza
a futilidade de tentar controlar o incontrolável


Isabela Boscov

Divulgação

Santoro, com Branca Messina: a vida como um jogo de lógica



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Trailer do filme

Enio (Leonardo Medeiros) é controlador de trânsito em São Paulo. Em vez de enxergar congestionamentos de motoristas estressados, vê fluxos de partículas, que pode fazer escoar para cá ou para lá, mais rápido ou mais devagar. Pedro (Rodrigo Santoro) fabrica mesas de sinuca e compete no esporte, planejando seqüências de jogadas complexas muito antes de vir a disputá-las. Como nos curtas-metragens premiados de Philippe Barcinski, Janela Aberta e Palíndromo, o que está em questão para esses personagens são a razão e a lógica – ou, no caso, a sua crença de que, aplicadas com o rigor devido, elas são capazes de se sobrepor ao caos e organizá-lo. O objetivo de Não por Acaso (Brasil, 2007), porém, é tirá-los à força de sua complacência e de seu isolamento.

Nessa estréia de Barcinski como longa-metragista, em cartaz no país a partir de sexta-feira, tanto Enio como Pedro são lançados no imponderável pela morte de mulheres próximas, e pela entrada de outras mulheres no espaço que ficou aberto. Ambos enxergam no acaso uma violência contra eles – e ambos tentarão se mobilizar para controlar esses eventos, até começarem a distinguir neles uma nova oportunidade. Começarem, aqui, é a palavra-chave: diretor discreto e com domínio de sua técnica e de sua narrativa, Barcinski recusa duas tentações evidentes numa trama como essa – a de ligar as histórias dos dois protagonistas por meio de algum artifício e a de fechar uma solução para a vida deles.

Como em seus curtas também, Barcinski desenvolve em seu longa um terceiro personagem: a cidade de São Paulo. Não por Acaso, co-produzido pela paulistana O2, de Fernando Meirelles, a trata com justiça no que ela tem de feio e de bonito, e a entende como uma espécie de organismo com vontade própria – uma idéia habilmente executada na forma como a cidade é filmada. Em outras palavras, São Paulo é aqui a demonstração empírica da futilidade de tentar controlar o incontrolável. E, para além disso, parece resumir também uma visão pessoal do diretor, a de que do tumulto podem surgir igualmente as chances ruins e boas da vida.

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