Em
Extermínio, de 2002, Cillian Murphy acordava de um coma de quatro
semanas em uma Londres deserta e devastada: durante sua ausência, um vírus
capaz de infectar instantaneamente os seres humanos com raiva (não hidrofobia,
mas raiva mesmo) escapara de um laboratório e transformara a todos em zumbis
devoradores de homens. Murphy se juntava a alguns dos poucos sobreviventes do
surto, mas o desfecho acenava com um futuro incerto: por um lado, havia a sorte
de a Inglaterra ser uma ilha, o que impedira a disseminação da doença
pelo mundo; por outro lado, as condições extremas em que Murphy
e seus companheiros se encontravam haviam trazido à tona tudo o que a espécie
tem de pior, o que não prometia um recomeço dos mais auspiciosos.
Dirigido por Danny Boyle (de Trainspotting), Extermínio e um punhado
de outros filmes, como Todo Mundo Quase Morto e Madrugada dos Mortos,
trouxeram de volta à cena os zumbis num desses momentos em que eles tipicamente
reaparecem no cinema momentos de crise, instabilidade e mal-estar, como
o foi a fase que se seguiu aos atentados de 11 de setembro. Em Extermínio
2 (28 Weeks Later..., Inglaterra, 2007), desde sexta-feira em cartaz
no país, o inglês Boyle assume o papel de produtor, troca todo o
elenco (Robert Carlyle é o mais conhecido da leva) e cede a direção
ao espanhol Juan Carlos Fresnadillo. Mas o contexto dessa continuação
excelente é ainda mais claro: passados cerca de seis meses, tropas americanas
ocupam a Inglaterra e iniciam o penoso processo de reconstrução,
juntando os sobreviventes numa ilha no Rio Tâmisa de novo, uma tentativa
de conter os riscos e trazendo de volta cidadãos ingleses que estavam
fora do país durante a eclosão da epidemia.
O paralelo com a presença americana no Iraque é evidente, mas Boyle
e Fresnadillo não estão para exercícios pueris de pichação.
Os americanos, pelo menos os que foram enviados à ilha, têm aqui
a melhor das intenções. E estão também mortos de medo,
encarando uma ameaça que não conhecem por completo e lidando com
uma população que tem tantas razões para acolhê-los
quanto para se ressentir de sua autoridade. O que interessa à dupla, enfim,
não é tomar partido, mas investigar a natureza dessa criatura por
si só aberrante a força de ocupação
e imaginar o que pode dar errado quando ela se instala num território.
Dizer que as coisas dão
errado em Extermínio 2 é um eufemismo. Fresnadillo, um nome
a ser acompanhado de muito perto, pega pesadíssimo, e o filme não
é programa indicado para espectadores de estômago delicado
ou os de pouco fôlego, já que a sensação que se tem
é a de passar uma hora e meia sem respirar. Se possível, o espanhol
é ainda mais pessimista que Boyle também. Da metade para a frente,
o filme se ocupa do salvamento de uma menina e um garoto, irmãos, que por
uma questão de hereditariedade podem carregar a chave para uma vacina contra
essa fúria que se alastra. Um fuzileiro e uma médica farão
de tudo para pô-los fora de risco, submetendo a própria vida à
missão. Nada poderia ser mais nobre do que isso e, como mostra Fresnadillo,
criando a deixa para um desde já muito esperado Extermínio 3,
nada poderia ser mais equivocado também.