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Edição 2011

6 de junho de 2007
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Saúde
Muita calma nessa hora...

...e, quando a fúria dela passar, tente fazê-la ir
ao médico. Existem bons paliativos para a TPM


Anna Paula Buchalla e Paula Neiva

 

Kay Blaschke/Getty Images


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Nesta reportagem
Quadro: Arsenal: anti-TPM

De três a quatro dias por mês, a empresária Joyce Santos, de 40 anos, se transforma numa mulher irascível. Tomada pelo ciúme doentio, a simples aparição de uma moça bonita na televisão é suficiente para deixá-la fora de si. Então, acometida por fúria incontrolável, ela é capaz de voar no pescoço do marido, o também empresário Marcelo Santos. "Depois de doze anos de casados, aprendi que o melhor a fazer nesses momentos é sair do circuito", diz ele. Em tais períodos, nos fins de semana, Marcelo costuma pegar os três filhos e sumir. Antes de voltar para casa, pede ao mais velho para telefonar e sondar como está o humor de Joyce. "Só apareço quando sinto que as coisas estão mais tranqüilas." Joyce é vítima de um caso extremo de TPM, a famigerada tensão pré-menstrual – um tormento que atinge 94% das mulheres brasileiras, entre 14 e 49 anos (os outros 6% devem ser compostos de mentirosas). E Marcelo, o marido, também não está sozinho. Sete de cada dez mulheres na TPM costumam descontar toda a irritação e o mau humor em seu companheiro. Para sorte da família Santos, a TPM de Joyce é relativamente curta. Há mulheres que ficam na TPM por até quinze dias. Um calvário – para elas e para todos que as cercam.

Mas é preciso ter calma, senhoras e senhores, e confiar que a medicina encontrará uma maneira de dar fim a esse suplício. Alguns passos já foram dados. Acaba de ser lançado no Brasil o primeiro de uma nova classe de medicamentos para o controle dos sintomas físicos da síndrome, o anticoncepcional Yaz, do laboratório Schering. A ação extra dessa pílula dá-se pela presença em sua fórmula de um hormônio sintético derivado de um diurético, a drospirenona. É ele que ajuda no combate a um dos sintomas da TPM: a retenção de líquido, responsável pela sensação horrorosa de inchaço, como se o corpo estivesse prestes a explodir. Segundo os estudos realizados até agora, a pílula reduz em até 38% o inchaço causado pela TPM. Graças ao alívio, mais da metade das mulheres tratadas com Yaz relataram ter-se apaziguado. A explicação é simples: como a retenção de líquido pode alterar os processos químicos cerebrais, ao mitigá-la, também é possível diminuir os sintomas emocionais da TPM. Uma pesquisa feita com 450 mulheres, de 18 a 40 anos, mostrou que a nova pílula, quando comparada a placebo, resulta em aumento de produtividade no trabalho e melhora nos relacionamentos e atividades sociais. "Trata-se de um caminho de mão dupla", diz o ginecologista Carlos Petta, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Ou seja, com menos sintomas emocionais, o mal-estar físico passa a incomodar menos."

 
Carol Carquejeiro

JÁ SOBROU ATÉ PARA O GATO

"Na TPM, tenho ataques de loucura, rompantes de descontrole. Certa vez sobrou até para o meu gato. Ele estava afiando as unhas no sofá quando cheguei. Comecei a berrar. Ele levou um susto e ficou paralisado, me olhando, com as unhas fincadas no sofá. Eu berrava, dizia que ele fazia aquilo só para me irritar. Quando explodo com meu marido, sempre me arrependo. A sorte é que ele é compreensivo. Só passei a prestar atenção na TPM cinco anos atrás, quando, numa reunião de negócios, comecei a berrar com o meu ex-chefe. O modo como ele lia um relatório me irritou profundamente. Aos gritos, perguntei se ele tinha algum problema e se precisava de ajuda para fazer a leitura."
Camila Morozetti, 31 anos, empresária

O Yaz é apenas parte do arsenal contra a TPM que está à disposição dos médicos (veja o quadro). De cada 100 brasileiras em idade fértil, 35 tomam algum medicamento contra o mal-estar daqueles dias. Os remédios mais populares são os fitoterápicos, embora não haja comprovação de que os benefícios decorram de seu mecanismo de ação. Podem ser resultado apenas do efeito placebo. Outra frente importante (esta, sim, atestada cientificamente) são os antidepressivos da classe dos SSRIs, da qual fazem parte o Prozac e o Zoloft. Os suplementos nutricionais, a prática regular de exercícios físicos e uma dieta equilibrada podem também abrandar o desconforto pré-menstrual. Apesar do aprimoramento das terapias, ainda se está longe de uma solução definitiva para a TPM. Isso porque a medicina não conseguiu desvendar por completo os processos biológicos que, todos os meses, levam as mulheres à loucura. Descrita pela primeira vez no ano 400 antes de Cristo, a TPM só começou a receber a devida atenção dos médicos cerca de quarenta anos atrás. Desde então, foram publicados mais de 500 estudos científicos sobre o assunto. Hoje, já se sabe que a TPM é, na realidade, uma associação de manifestações decorrente de oscilações hormonais bruscas. Por esse motivo, os médicos preferem chamá-la de síndrome pré-menstrual.

Até o momento, foram relatados 150 sintomas associados à TPM – da oscilação de humor à dor de cabeça, do choro fácil ao aumento do apetite, do inchaço à insônia. "Por não apresentarem os sinais clássicos, e sim outros, menos característicos, muitas mulheres simplesmente desconhecem que têm a síndrome", diz a ginecologista Rosana Durães Simões, da Universidade Federal de São Paulo. Em algumas mulheres, predominam os sintomas físicos; em outras, os psíquicos são mais relevantes. Há que levar em conta ainda que, numa mesma mulher, o tipo e a intensidade dos sintomas podem mudar de mês para mês. Essas oscilações são determinadas por fatores genéticos, ambientais ou psicológicos. Mulheres acima dos 30 anos, com filhos e que trabalham fora são as principais vítimas do problema. "Elas padecem de rotinas mais estressantes, o que contribui para acentuar as variações hormonais típicas desse período", diz a ginecologista Mara Solange Diegoli, coordenadora do ambulatório de tensão pré-menstrual do Hospital das Clínicas de São Paulo e autora do livro Vencendo a Tensão Pré-Menstrual.

 
Carol Carquejeiro

SOB CONTROLE

"Foi meu irmão que chamou atenção para a minha TPM. Um dia, enquanto andava de carro com ele, fiquei extremamente irritada com o modo como ele dirigia. Tudo me incomodava. Até que ele se virou para mim e soltou aquela frase clássica: 'Você só pode estar na TPM'. Imediatamente percebi minha intolerância. Até então, TPM, para mim, era coisa de dondoca, de mulher com tempo sobrando. No período pré-menstrual, se eu ficava irritada, achava que era stress. Se inchava, pensava que havia engordado. Descobrir que eu sofria de TPM me ajudou a identificar os sintomas. Quando a agenda permite, tento trabalhar menos nesses dias. Recentemente aumentei a freqüência de exercícios aeróbicos. E isso tem me ajudado muito."
Denise Pupo, 45 anos, dermatologista

O ciclo menstrual é orquestrado pelos dois hormônios femininos por excelência: o estrógeno e a progesterona. O intervalo médio entre uma menstruação e outra é de 28 dias. Logo depois do final do sangramento, os níveis de estrógeno aumentam – o que provoca a proliferação do tecido que recobre a parede uterina, o endométrio. Isso acontece de forma a preparar o útero para receber o óvulo. O estrógeno continua a subir até o 14º ou o 15º dia do ciclo, quando ocorre a ovulação. A partir desse instante, as taxas de progesterona também crescem. Do latim progestare, "a favor da gestação", esse hormônio mantém a parede do útero espessa. Com o passar dos dias, no entanto, como o óvulo não é fecundado, os níveis de ambos os hormônios caem abruptamente. As flutuações hormonais registradas, sobretudo, a partir da segunda metade do ciclo estão na origem da maioria dos sintomas da TPM, de acordo com os especialistas. A queda de estrógeno pode provocar de dor de cabeça a fadiga. O aumento da progesterona pode deflagrar quadros de ansiedade e irritação e levar o organismo a reter líquido. Além disso, durante a TPM, os níveis cerebrais de serotonina, substância associada à sensação de prazer e bem-estar, caem. Está aí a explicação para a depressão e a voracidade delas por doces naqueles dias. São reduzidos, ainda, os níveis de vitamina B6 e de açúcar no sangue e de endorfinas, uma espécie de opiáceo natural do organismo. Quando a progesterona diminui, outro hormônio, a prostaglandina, eleva-se e, com ela, aumenta a sensibilidade à dor. Por esse motivo, fazer depilação nesse período é mais doloroso.

O impacto dessas oscilações hormonais é devastador para um terço de suas vítimas – compromete quase que inteiramente as atividades do dia-a-dia. "Nesses dias, costumo ter rompantes de descontrole", diz a empresária Camila Morozetti, de 31 anos. "Quando estouro com meu marido, sempre me arrependo e peço desculpas. Tenho sorte de ele ser compreensivo." Em 1931, o médico americano Robert Frank, criador do termo TPM, escreveu: "Elas não só percebem seu próprio sofrimento, como também ficam com a consciência pesada em relação ao marido e à família. Sabem que suas atitudes e comportamentos são muitas vezes insuportáveis". Considerando-se que, a partir dos 20 anos, as mulheres sofrem de TPM uma vez por mês, ao chegarem à menopausa elas terão amargado de sete a oito anos de sua vida com a síndrome. É preciso mesmo uma grande dose de amor – e paciência – para agüentar.

 

Teste sua TPM

O teste a seguir foi elaborado a pedido de VEJA pela ginecologista Mara Diegoli, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ele é uma adaptação do questionário usado pelos médicos para traçar o perfil da TPM de cada mulher. Para cada um dos sintomas listados informe a intensidade com que eles se manifestam.


SINTOMAS DO GRUPO 1

Tensão nervosa
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Ansiedade
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Humor instável
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Irritabilidade
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

SUBTOTAL 1


SINTOMAS DO GRUPO 2

Aumento de peso
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Inchaço no abdômen
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Inchaço nos membros
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Dor nas mamas
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

SUBTOTAL 2


SINTOMAS DO GRUPO 3

Dor de cabeça
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Compulsão por doces
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Aumento de apetite
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Taquicardia
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Fadiga
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Tontura
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

SUBTOTAL 3


SINTOMAS DO GRUPO 4

Depressão
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Esquecimento
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Choro fácil
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Confusão
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

Insônia
Sem o sintoma
Pouco intenso
Intensidade moderada
Muito intenso

SUBTOTAL 4


RESULTADO 1

Para identificar a característica predominante da sua TPM, compare os pontos de cada grupo. O maior subtotal corresponde ao seu tipo.

GRUPO 1 — As irritadas
Essas mulheres são as maiores vítimas das oscilações de humor
Tratamento: antidepressivos, calmantes, vitaminas ou fitoterápicos

GRUPO 2 — As inchadas
São as mulheres mais sensíveis à retenção de líquidos
Tratamento: diuréticos, analgésicos, vitaminas ou contraceptivos orais

GRUPO 3 — As compulsivas
Na TPM, essas mulheres ficam mais vulneráveis aos transtornos alimentares
Tratamento: analgésicos, contraceptivos de uso contínuo e antiinflamatórios não hormonais

GRUPO 4 — As choronas
A TPM dessas mulheres é marcada pela tendência à depressão
Tratamento: antidepressivos


RESULTADO 2

O total geral indica a intensidade da sua TPM.

TOTAL

Até 19 pontos
De intensidade leve, a TPM tende a provocar algum desconforto. Geralmente, ela pode ser controlada com a prática regular de atividade física e mudanças na dieta. Os medicamentos só são indicados em caso de dor de cabeça

De 20 a 40 pontos
Aqui se enquadram os casos de TPM de intensidade moderada, em que os sintomas podem comprometer as atividades do dia-a-dia. O tratamento- padrão costuma ser feito à base de vitaminas, analgésicos ou fitoterápicos

41 pontos ou mais
É a TPM de intensidade alta. Os sintomas são tão severos que incapacitam a mulher para as atividades mais corriqueiras. Habitualmente esses casos requerem acompanhamento médico e tratamento medicamentoso

Com reportagem de Adriana Dias Lopes

 

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