Em
27 de setembro de 1969, o estudante Bryan Hartnell e uma amiga, Cecelia Shepherd,
passavam uma tarde de sol à beira do Lago Berryessa, na Califórnia,
quando um homem encapuzado se aproximou deles. Foi o início de um ataque
sangrento. Hartnell sobreviveu às repetidas facadas desferidas em suas
costas pelo assassino serial que se auto-intitulava Zodíaco. Cecelia e
outras quatro vítimas atacadas por ele em ocasiões distintas de
1968 e 1969 não tiveram a mesma sorte. Até hoje, não se sabe
a identidade do serial killer que apavorou a região de São Francisco
com suas cartas repletas de charadas e ameaças, nem se está vivo
ou morto. Hartnell, porém, diz se dar por satisfeito com o fato de ele
não ter voltado a matar. Hoje um advogado de 57 anos, casado e pai de dois
filhos, ele é um opositor convicto da pena de morte. "O que o Zodíaco
fez comigo não definiu minha vida nem mudou minhas convicções",
disse Hartnell a VEJA, numa das raríssimas entrevistas que aceitou conceder
nas últimas décadas.
Isabela
Boscov
Divulgação
Hartnell:
um "lugar separado" na mente para o ataque, como tática de sobrevivência
psicológica
O
QUE O SENHOR SENTE QUANDO REVIVE OS MOMENTOS DE 1969 EM QUE FOI ATACADO, JUNTO
COM SUA AMIGA CECELIA SHEPHERD, PELO ASSASSINO EM SÉRIE ZODÍACO?
Adquiri alguma distância deles. Sem isso, não se sobrevive. Não
quero acordar todas as manhãs pensando naquele dia, ou ser assaltado por
esses pensamentos enquanto estou no trabalho ou com a minha família. Esse
episódio faz parte de mim e não fujo dele, mas tive de achar um
lugar à parte para ele na minha mente.
COMO
FOI VER A RECONSTITUIÇÃO DO SEU ATAQUE NO CINEMA? Muito perturbador.
Tive de cerrar os dentes para assistir a essa cena.
EM
QUE INSTANTE, NAQUELA TARDE, O SENHOR SE DEU CONTA DE QUE ALGO HORRÍVEL
ESTAVA POR ACONTECER? Só quando o Zodíaco enfiou a faca nas
minhas costas pela primeira vez. Até esse segundo, achei que se tratava
de um assalto corriqueiro. Imaginei que talvez ele fosse me bater, mas não
que seria esfaqueado, ou que Cecelia seria assassinada.
O
SENHOR SE CULPOU POR NÃO TER CONSEGUIDO PROTEGÊ-LA? Tentei agir
com calma e controlar a situação. Mas, repito, achei que estava
lidando com um assaltante comum. O Zodíaco me esfaqueou primeiro, o que
provavelmente, por ironia, contribuiu para que os ferimentos de Cecelia fossem
fatais: ela viu o que ele estava fazendo comigo e começou a se contorcer,
de maneira que ele a atingiu por todo o corpo. O pai de Cecelia, porém,
achava que fui de alguma forma responsável pela morte dela, o que foi muito
duro.
O SENHOR ACHOU QUE TAMBÉM MORRERIA? Tive certeza de que morreria.
Senti que meu corpo estava falhando, como um motor sem combustível, e que
eu estava caindo numa espécie de escuridão.
COMO
FOI A VOLTA AO DIA-A-DIA? Passei duas semanas no hospital, e no dia em que
tive alta voltei à universidade. Meus professores demonstraram preocupação,
mas não me deram moleza. Tive de correr atrás de anotações
e recuperar as leituras atrasadas. Entre esse trabalho e o tempo que eu tinha
de dedicar à polícia, não sobrou espaço para sentir
pena de mim mesmo. Isso foi uma bênção.
O SENHOR FREQÜENTA
A IGREJA. JÁ ERA UMA PESSOA RELIGIOSA NAQUELE TEMPO? Meu pai era pastor,
e eu fui criado num ambiente espiritual. Se é que alguém pode definir
o que "espiritual" significa. Se quer dizer achar que a vida tem de servir a um
bem maior, então sim. Mas, se significa ter respostas, então não.
Veja quanto esse terreno é escorregadio: se eu acreditar que Deus intercedeu
para que eu sobrevivesse ao Zodíaco, eu teria de acreditar também
que Ele intercedeu para que Cecelia e as outras vítimas morressem, o que
não me traz nenhum conforto. O que eu acredito é que existem duas
forças em jogo no mundo, o bem e o mal, e que coisas ruins, sim, acontecem.
É MELHOR OU PIOR
SABER QUE O SENHOR APENAS CALHOU DE ESTAR NO LUGAR ERRADO, NA HORA ERRADA? A
mim, ajuda saber que alguém não me odiava tanto, pessoalmente, a
ponto de me matar. Mas veja o caso de Michael Mageau, o outro sobrevivente do
Zodíaco. Ele estava com uma mulher casada que morreu quando
foi atacado. Ele tinha 19 anos, e achou que tinha saído com ela naquela
noite para comer um hambúrguer, não para ter um caso. Talvez por
isso ele meteu na cabeça que o Zodíaco tentara puni-lo por estar
com uma mulher casada.
Fotos
Divulgação e AP
Hartnell
no fim dos anos 60, época em que o Zodíaco apavorou a Califórnia
com suas cartas e charadas (foto maior): cinco vítimas fatais e
então silêncio
O
SENHOR E MICHAEL SE FALAM? O Zodíaco arruinou a vida de Michael. Depois
de passar quase um ano no hospital, ele foi posto para fora de casa pelo pai,
sob alegação de ter desonrado a família. A perna dele, que
fora destroçada por um dos tiros, continuava a doer horrivelmente, e a
pressão da situação se tornou insuportável. Michael
ficou à deriva. Quinze ou vinte anos atrás, ele se envolveu em problemas
legais e precisou de um defensor público. Por coincidência, eu fui
o advogado designado para o caso dele. Aproveitamos para passar muita coisa a
limpo.
QUAL SENTIMENTO PREVALECE PARA O SENHOR HOJE EM DIA GRATIDÃO
POR TANTAS PESSOAS TEREM DEVOTADO SEU TEMPO A ENCONTRAR O ZODÍACO, OU FRUSTRAÇÃO
POR ELE NUNCA TER SIDO CAPTURADO? Não sou uma pessoa que anseia por
ajustes de contas ou por vingança. Para mim, capturar o Zodíaco
significava impedi-lo de matar novamente. Há quase quatro décadas
ele não mata, se é que ainda está vivo. Então, num
certo sentido, tenho de me dar por satisfeito com isso. O que eu sinto, em suma,
é alívio.
QUE
IMPRESSÃO O SENHOR FORMOU DO ASSASSINO? Um homem metódico. Cecelia
o viu se aproximando e desde o início ficou apavorada sem razão,
achava eu. Assim que ele me abordou, já encapuzado, disse que não
tivéssemos medo; tudo o que ele queria eram as chaves do carro e o dinheiro.
Tentei puxar conversa com ele, porque, veja só, eu estava tendo aulas de
sociologia e achei que a experiência poderia ser útil para o curso.
Mas ele não pronunciou nada além de instruções
ajoelhe-se, deite-se. Durante todo o ataque, ele não deu sinal de emoção
ou excitação. Ele desferia as facadas de forma mecânica, como
se matar fosse uma tarefa.
QUAL
SERIA A PUNIÇÃO ADEQUADA PARA O ZODÍACO? Sou contra a
pena de morte e não servi no Exército, quando recrutado, por objeção
de consciência. Eu era contra qualquer forma de violência antes de
ser atacado pelo Zodíaco, e o que ele fez comigo e com as outras vítimas
não mudou minha opinião. Acredito que isolar um indivíduo
como esse da sociedade é o adequado e o suficiente. Acredito, inclusive,
que é preciso discriminar melhor quais indivíduos devem ser isolados.
Por causa da minha profissão, vejo que, para pessoas que ainda podem ou
desejam ser recuperadas, uma prisão freqüentemente tem efeito oposto
ao da reabilitação: é uma escola profissionalizante do crime.