As igrejas evangélicas tornaram-se os novos celeiros de músicos
eruditos no Brasil
Thomaz
Favaro
Lailson
Santos
Heliton,
com batuta e Bíblia, à frente da orquestra de Itaberá,
em São Paulo: de pedreiro a maestro
As
igrejas evangélicas estão mudando o comportamento do brasileiro
em vários aspectos – o mais inesperado deles é a música clássica.
Na última década, instrumentistas que tiraram os primeiros acordes
em salas de aula improvisadas em igrejas passaram a representar um porcentual
cada vez maior nas principais orquestras nacionais. Três de cada dez músicos
da Orquestra Sinfônica do Paraná, por exemplo, freqüentam alguma
igreja evangélica. Dos catorze profissionais recém-contratados pela
Sinfônica de Porto Alegre, quatro são evangélicos. Eles também
representam uma gorda fatia de 35% dos músicos brasileiros da Orquestra
Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). O porcentual está
bem acima dos 15% que os fiéis dessas igrejas ocupam no total da população
brasileira, de acordo com o IBGE. Dois fatores explicam a concentração
de evangélicos no meio erudito. O primeiro é a falta de um ensino
musical de qualidade nas escolas brasileiras, o que limita tanto a formação
de profissionais como a de ouvidos treinados para apreciá-los. O segundo
é a perda de interesse dos pais de classe média pelas aulas particulares
de piano ou violino, que no passado eram um item comum na educação
dos jovens. Nesse vazio musical, as igrejas evangélicas se tornaram um
dos raros locais onde se investe em formação musical clássica
no Brasil.
A iniciação
musical da família de Roberto Minczuk, maestro da Orquestra Sinfônica
Brasileira (OSB), do Rio de Janeiro, por exemplo, deve bastante à religião.
Roberto começou tocando trompa na Assembléia de Deus Russa no Brasil,
freqüentada por famílias de imigrantes do Leste Europeu, em São
Paulo. Incentivados pelo pai, José Minczuk, regente do coral da Polícia
Militar, Roberto e seus irmãos eram membros da orquestra que acompanhava
os cultos. Cinco dos oito filhos de José tornaram-se músicos profissionais:
Arcádio e Eduardo são instrumentistas na Osesp, Cristiane é
cantora lírica, Ester produz eventos musicais e Roberto, considerado um
dos mais talentosos maestros do país, pertence ao escasso time de brasileiros
convidados para reger grandes orquestras internacionais. "Meu pai fazia os arranjos
e nós acompanhávamos os cultos tocando hinos orquestrados, obras
sacras consagradas e canções folclóricas russas", diz Arcádio.
Nas igrejas evangélicas,
a música está intimamente ligada ao culto. Os conjuntos constituídos
por fiéis, sobretudo nos templos pentecostais, são geralmente compostos
por instrumentos de sopro, tradição herdada das bandas musicais
comuns nas cidades de interior. Em parte devido a essa origem, os músicos
evangélicos concentram-se nas seções de metais e madeiras
das orquestras brasileiras. As igrejas que mais formam músicos são
a Assembléia de Deus, a Igreja Batista e a Congregação Cristã
no Brasil. Nas duas primeiras, os fiéis aprendem a tocar desde hinos evangélicos
orquestrados até peças consagradas da música sacra, como
as compostas por Johann Sebastian Bach. Mais restritiva, a Congregação
Cristã no Brasil só permite a seus adeptos tocar as 450 músicas
que compõem seu hinário. A igreja dá apenas o primeiro impulso
aos futuros músicos de orquestra. "Depois de dois ou três anos de
estudo, se o aluno mostra talento e disposição, nós o incentivamos
a procurar uma escola de música para aprimorar o aprendizado", diz Fábio
Guedes, maestro da orquestra da Assembléia de Deus da Vila Ré, em
São Paulo.
Fotos
Lailson Santos e Ricardo Fasanello/Strana
Orquestra
da Assembléia de Deus da Vila Ré, em São Paulo e o maestro
Roberto Minczuk, da Sinfônica Brasileira: primeiros acordes nos cultos
O
resultado é que as principais escolas de música também estão
se enchendo de estudantes evangélicos. "Já tive classes em que 80%
dos meus alunos vinham da mesma igreja", diz David Alves, professor de música
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trompetista da Orquestra Petrobras
Sinfônica e da OSB, Alves é também diácono da Igreja
de Nova Vida. No Conservatório de Tatuí, no interior de São
Paulo, que tem 3.000 alunos, quatro em cada dez estudantes de música clássica
são evangélicos. Por outro lado, eles são raros nos cursos
de música popular. "O resultado dessa invasão é que o perfil
dos alunos de música erudita está mudando", diz João Guilherme
Ripper, diretor da sala de concertos Cecília Meireles, no Rio de Janeiro.
Até a década de 70, predominavam nas salas de aula os jovens de
classe média. A expansão das igrejas evangélicas nos anos
80 fez aumentar o número de estudantes de baixa renda. Em geral, eles entram
nas escolas com bom domínio técnico dos instrumentos, mas com pouco
conhecimento de teoria musical.
Heliton Costa, dono de uma escola de música e maestro da Banda Municipal
de Itaberá, no interior de São Paulo, era pedreiro quando aprendeu
a tocar saxofone na pequena igreja da Assembléia de Deus de sua cidade,
de 20.000 habitantes. Incentivado pelos amigos, decidiu aprofundar seu talento
no Conservatório de Música de Tatuí, onde se formou em saxofone,
teclado e regência. "Eu ainda trabalhei como pedreiro nos quatro primeiros
anos de conservatório", diz Heliton. Há um antigo e estreito relacionamento
entre a música clássica e os vários ramos nascidos da reforma
protestante, no século XVI. O compositor barroco Johann Sebastian Bach,
autor da Missa em Si Menor, bastante tocada nas igrejas católicas,
era luterano. Essa também era a religião do alemão Felix
Mendelssohn, autor da Marcha Nupcial, sem a qual nenhuma cerimônia
de casamento está completa. O período dourado da música clássica
está igualmente repleto de grandes compositores católicos. Mas foram
os protestantes que deram uma dimensão popular à música sacra,
ao substituir o latim pelas línguas vernaculares e simplificar as músicas
nos corais das igrejas. Dessa forma, os fiéis puderam começar a
cantar juntos.
A proliferação
de orquestras evangélicas coincidiu com um bom momento no mercado de trabalho
para músicos eruditos. A profissão ganhou novos atrativos depois
do colapso da União Soviética, em 1991, que permitiu às orquestras
brasileiras contratar excelentes músicos do Leste Europeu. O resultado
foram salários melhores para todos. Na Osesp, que passou por uma reestruturação
em 1997, eles se multiplicaram por seis. Hoje, o salário médio inicial
de um músico de orquestra no Brasil é de 2.000 reais. Apesar dessas
oportunidades, não é difícil encontrar músicos evangélicos
formados em boas escolas que voltam para lecionar nas igrejas onde aprenderam
os primeiros acordes. Lá, ajudam a formar novos e melhores músicos
eruditos. Nossas orquestras agradecem.