Insultou, bebeu, cheirou,
deu vexame? Famosos correm para a clínica de recuperação
Bel
Moherdaui
Quem acompanha o mundo
das celebridades e vê a atriz americana Lindsay Lohan desmaiada de tanto
beber, sente pena e constrangimento diante do espetáculo de autodestruição
de mais uma jovem famosa. Mas também não pode evitar a pergunta:
quando ela vai se internar na clínica de recuperação? Não
é excesso de cinismo. Nos Estados Unidos em especial, já virou uma
espécie de ritual contemporâneo de expiação pública.
Diante de um flagrante com drogas ou bebida, insultos a minorias e surtos em geral,
o caminho mais rápido para recuperar a imagem abalada é fazer uma
temporada na clínica prática tão comum que já
é chamada em inglês pela forma simplificada, rehab, de reabilitação.
Foi exatamente o que aconteceu com Lindsay, que baixou na clínica Promises,
em Malibu, a praia dos famosos em Los Angeles, para a segunda internação
de sua precoce carreira em janeiro, passou um mês na Wonderland,
em Hollywood, e ao sair espalhou que estava freqüentando os Alcoólicos
Anônimos. "Essa estratégia tem sido adotada há décadas
como forma de tirar uma celebridade do centro das atenções. Funcionava
porque, com a pessoa inacessível, a história sumia da imprensa.
A diferença é que hoje, com a internet, blogs e afins, as histórias
parecem não sair da pauta nunca", disse, em entrevista a VEJA, James Lukaszewski,
professor de estratégia de comunicação de crise da Universidade
de Nova York.
Lindsay foi
parar na Promises depois de um feriadão em que, alta madrugada, bateu o
carro, no qual a polícia encontrou cocaína em agosto, enfrentará
uma audiência na Justiça por dirigir embriagada. Liberada, caiu na
noite novamente, apagou na calçada ao deixar uma boate e teve de ser carregada
até o carro. Na mesma Promises, outra estrelinha da pá virada, Britney
Spears, passou 29 dias no começo do ano, expiando uma seqüência
de altas farras e o bizarro episódio da máquina zero. Antes delas,
o ator Mel Gibson, pego dirigindo bêbado, disparou memorável tirada
anti-semita, pediu desculpas e foi para a clínica. Flagrada por um tablóide
inglês no ano passado cheirando cocaína, a modelo Kate Moss refugiou-se
por um mês na The Meadows, no Arizona. Em dezembro, a então miss
Estados Unidos Tara Conner, ameaçada de perder a coroa por "mau comportamento",
pediu desculpas públicas e internou-se por um mês. Preventivamente,
a cantora inglesa Amy Winehouse, que se encaixa no perfil, fez até ironia,
em forma de música, com a tentativa de enquadramento feita por seu empresário:
"They tried to make me go to rehab, I said no, no, no" (Quiseram me pôr
na clínica, eu disse não, não, não).
Para agradar e atrair os clientes ("paciente" é termo malvisto) famosos,
as clínicas oferecem instalações de luxo e tratamentos a
jato bastam uns poucos dias para o pecador sair de lá com a alma
lavada e a imagem supostamente recuperada. "Eu sou contra internações
longas, mas menos de quinze dias não adianta nada. Procurar uma clínica
de reabilitação para dar uma relaxada ou por ter cometido um ato
impróprio é puro teatro, do ponto de vista médico", critica
o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, do Grupo Interdisciplinar de Estudos de
Álcool e Drogas da Universidade de São Paulo. Clínicas para
viciados não precisam ser monásticas ou excessivamente severas.
Fundada pelo músico Eric Clapton, que conseguiu se livrar da maldição
da heroína, a clínica Crossroads, em Antígua, oferece tratamento
sério, massagens e exercícios na praia. Tudo num cenário
deslumbrante, ao preço de 19.000 dólares pelo pacote de 29 dias.
Na concorrida Promises, em Malibu, onde já se hospedaram Ben Affleck, Charlie
Sheen, Diana Ross e Matthew Perry, o site anuncia "luxo excepcional" e infra-estrutura
para quem procura "o mais refinado programa de recuperação do mundo".
"Essas clínicas investem pesado em marketing. Se antigamente internar-se
era motivo de vergonha, hoje se chega ao outro extremo, que é a glamourização",
avalia o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da Universidade Federal
de São Paulo, especializado em dependentes químicos.
No Brasil, o episódio mais conhecido de salvação pela clínica
foi o da atriz Vera Fischer, e o mais recente, o do policial Marcelo Silva, marido
da atriz Susana Vieira e protagonista de notório episódio de quebra-quebra
num motel. "Estava bebendo demais, me sentindo deprimido", conta Silva, que passou
quarenta dias na Clínica Jorge Jaber, no Rio de Janeiro. Desde então,
faz terapia e diz que não bebe mais. Já Lindsay Lohan até
agora mantém de pé a festa de 21 anos em Las Vegas, no dia 2 de
julho, embora o principal patrocinador uma marca de vodca tenha
optado por sair de cena. É difícil não perguntar: quando
será a próxima internação?