Xingado pelos grevistas,
o professor Abdalla dá um bom exemplo: ele quer ensinar
Marcos
Todeschini
Carol
Carquejeiro
Abdalla
dá aula durante a greve: teoria da relatividade em meio a agressões
O professor Elcio Abdalla é chamado para proferir
palestras sobre eletrodinâmica área da física em que
é Ph.D. em países da Europa, nos Estados Unidos e na China.
Recebe nessas ocasiões tratamento cinco-estrelas, conferido aos melhores
do mundo acadêmico. Na semana passada, foi praticamente linchado ao tentar
dar uma aula na Universidade de São Paulo (USP). A razão: Abdalla
decidiu ignorar a greve que desde o último dia 16 de maio paralisou dezoito
cursos na universidade, entre eles o de física. Entrou na sala ao som de
tambores e gritos em ritmo de marchinha: "O bumbo vai acabar com essa aula!".
Enquanto falava sobre a teoria da relatividade a dez estudantes que, como ele,
haviam desprezado a greve, ouvia o estrondo de rojões e golpes na porta.
A aula terminou quinze minutos antes do previsto. Ao final, o professor apertou
a mão de cada um de seus alunos: "Vocês merecem a minha admiração
por virem à universidade aprender". Outros professores da Física
haviam aparecido na faculdade, mas encontraram as salas às moscas. O quórum
de Abdalla deve-se à fama antiga: entra greve, sai greve e lá
se vão quinze delas em seus 28 anos como professor da USP , ele sempre
aparece para dar aulas. A justificativa: "Os professores da USP não podem
se comportar como empregados revoltados com o patrão estamos numa
universidade pública".
Aos 53 anos,
Abdalla proporciona um raro exemplo de lucidez num momento em que a melhor universidade
do país ficou tomada por uma greve cujas reivindicações estudantis
pouco acadêmicas incluem mais refeições gratuitas
e linhas regulares de ônibus no campus nos fins de semana, apenas para citar
algumas. Apoiada depois por professores e funcionários (sim, eles querem
aumento de salário), a greve a que Abdalla se opõe teve como origem
um conjunto de decretos do governador José Serra e a tomada da reitoria
por um grupo de estudantes que lá estão acampados há um mês.
Na semana passada, o governo anunciou uma revisão no texto oficial em que
esclarece não ter o objetivo de ferir a autonomia da universidade (como
sempre afirmou), ao contrário do que alegam os grevistas. O fato é
que o novo pacote de medidas é bom, segundo avaliação de
especialistas (ver quadro) e do próprio Abdalla.
Neste ano, ele será o coordenador de um projeto de pesquisa que conta com
200 000 reais. Obedecendo a um dos decretos, começará a prestar
contas diárias de seus gastos. Ele defende a idéia e metralha
os colegas. "A maioria dos professores que são contra a transparência
nas contas não produz um único artigo por ano."
Alex
Silva/AE
Grevistas
em protesto: sem causa
O professor
Abdalla é descrito por seus alunos como um sujeito singular: pai de três
filhos "que nunca deixaram de estudar por causa de greve" , ele consegue
se comunicar em farsi (idioma que aprendeu com uma namorada iraniana, na Itália)
e fala com sofrimento sobre a venda recente de um Monza dourado 86, com o qual
circulou por duas décadas. Também chama atenção pelo
excesso de método. Suas aulas são milimetricamente planejadas
hábito que cultivou nas várias passagens como professor no exterior.
Na última sexta-feira, enquanto era celebrado por ter se tornado membro
da Academia Brasileira de Ciências, recebeu a notícia de que um bando
de grevistas havia se associado a militantes do MST e invadia o prédio
da Física em tom de ameaça: "Abdalla, sua hora vai chegar!". O professor
registrou queixa na polícia. Foi a segunda vez em dez dias. Na véspera
da aula em que saiu vaiado pelos grevistas, ele havia tentado deixar o prédio,
mas encontrou um amontoado de carteiras que bloqueavam a saída. Retirou
uma a uma do caminho, mas alguns dos grevistas faziam força na direção
contrária cena infeliz que circulou no site YouTube. O saldo: hematomas
nas pernas e outro boletim de ocorrência. Diante de tudo isso, Abdalla não
perdeu o ânimo para encarar sua aula sobre relatividade, no dia seguinte.
Filho de um casal de comerciantes, ele juntou-se, em 1972, à minoria dos
estudantes da USP egressa de escola pública. Já sonhava em se tornar
cientista: "Quem quer competir com os melhores não tem tempo para greve".