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Edição 2011

6 de junho de 2007
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Educação
O herói da USP

Xingado pelos grevistas, o professor Abdalla
dá um bom exemplo: ele quer ensinar


Marcos Todeschini

 

Carol Carquejeiro
Abdalla dá aula durante a greve: teoria da relatividade em meio a agressões

O professor Elcio Abdalla é chamado para proferir palestras sobre eletrodinâmica – área da física em que é Ph.D. – em países da Europa, nos Estados Unidos e na China. Recebe nessas ocasiões tratamento cinco-estrelas, conferido aos melhores do mundo acadêmico. Na semana passada, foi praticamente linchado ao tentar dar uma aula na Universidade de São Paulo (USP). A razão: Abdalla decidiu ignorar a greve que desde o último dia 16 de maio paralisou dezoito cursos na universidade, entre eles o de física. Entrou na sala ao som de tambores e gritos em ritmo de marchinha: "O bumbo vai acabar com essa aula!". Enquanto falava sobre a teoria da relatividade a dez estudantes que, como ele, haviam desprezado a greve, ouvia o estrondo de rojões e golpes na porta. A aula terminou quinze minutos antes do previsto. Ao final, o professor apertou a mão de cada um de seus alunos: "Vocês merecem a minha admiração por virem à universidade aprender". Outros professores da Física haviam aparecido na faculdade, mas encontraram as salas às moscas. O quórum de Abdalla deve-se à fama antiga: entra greve, sai greve – e lá se vão quinze delas em seus 28 anos como professor da USP –, ele sempre aparece para dar aulas. A justificativa: "Os professores da USP não podem se comportar como empregados revoltados com o patrão – estamos numa universidade pública".

Aos 53 anos, Abdalla proporciona um raro exemplo de lucidez num momento em que a melhor universidade do país ficou tomada por uma greve cujas reivindicações estudantis – pouco acadêmicas – incluem mais refeições gratuitas e linhas regulares de ônibus no campus nos fins de semana, apenas para citar algumas. Apoiada depois por professores e funcionários (sim, eles querem aumento de salário), a greve a que Abdalla se opõe teve como origem um conjunto de decretos do governador José Serra – e a tomada da reitoria por um grupo de estudantes que lá estão acampados há um mês. Na semana passada, o governo anunciou uma revisão no texto oficial em que esclarece não ter o objetivo de ferir a autonomia da universidade (como sempre afirmou), ao contrário do que alegam os grevistas. O fato é que o novo pacote de medidas é bom, segundo avaliação de especialistas (ver quadro) e do próprio Abdalla. Neste ano, ele será o coordenador de um projeto de pesquisa que conta com 200 000 reais. Obedecendo a um dos decretos, começará a prestar contas diárias de seus gastos. Ele defende a idéia – e metralha os colegas. "A maioria dos professores que são contra a transparência nas contas não produz um único artigo por ano."

 

Alex Silva/AE
Grevistas em protesto: sem causa

O professor Abdalla é descrito por seus alunos como um sujeito singular: pai de três filhos – "que nunca deixaram de estudar por causa de greve" –, ele consegue se comunicar em farsi (idioma que aprendeu com uma namorada iraniana, na Itália) e fala com sofrimento sobre a venda recente de um Monza dourado 86, com o qual circulou por duas décadas. Também chama atenção pelo excesso de método. Suas aulas são milimetricamente planejadas – hábito que cultivou nas várias passagens como professor no exterior. Na última sexta-feira, enquanto era celebrado por ter se tornado membro da Academia Brasileira de Ciências, recebeu a notícia de que um bando de grevistas havia se associado a militantes do MST e invadia o prédio da Física em tom de ameaça: "Abdalla, sua hora vai chegar!". O professor registrou queixa na polícia. Foi a segunda vez em dez dias. Na véspera da aula em que saiu vaiado pelos grevistas, ele havia tentado deixar o prédio, mas encontrou um amontoado de carteiras que bloqueavam a saída. Retirou uma a uma do caminho, mas alguns dos grevistas faziam força na direção contrária – cena infeliz que circulou no site YouTube. O saldo: hematomas nas pernas e outro boletim de ocorrência. Diante de tudo isso, Abdalla não perdeu o ânimo para encarar sua aula sobre relatividade, no dia seguinte. Filho de um casal de comerciantes, ele juntou-se, em 1972, à minoria dos estudantes da USP egressa de escola pública. Já sonhava em se tornar cientista: "Quem quer competir com os melhores não tem tempo para greve".

Luis Ushirobira

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