Esse negócio de corrupção, chantagem, roubo. De que tanto, até exaustivamente, se fala. Não é apenas coisa difícil de provar, como vocês têm percebido nos últimos tempos. Difícil mesmoé estabelecer a linha exata por onde passa o boi, passa a boiada. Entre a lei e o crime, entre o pau e o ventre, o absolutamente honesto e o meramente legal, entre a polícia e o malfeitor, entre mim e você (não leve a mal, leitor, é só exercício retórico).
Vejamos: quando
você pede uma casquinha de siri, você acredita
mesmo que aquele "siri" é daquela casquinha? Quando
você come escargô (que é o nome
francês que a gente usa pra comer o caracol), quantas
vezes aquela concha já foi e voltou em quantos escargôs?
Então como, e mesmo por quê, exigir mais autenticidade
ou originalidade – ou virgindade – em outros setores e características
da espécie e da atividade humanas? Não esquecer:
quando você acusa um homem de desonestidade, você
está envolvendo mulher, filhos, parentes, amigos e
seguidores, ou seja, invadindo a privacidade do enfocado.
Sendo que os familiares – porque lhes convém – jamais
acham estranho que o provedor, que antes provia tão
pouco e tão mal, de um tempo pra cá passasse
a prover tanto e tão bem. Suborno, trapaça,
peculato, podem sempre, em retrospecto, ser considerados apenas
engenho, habilidade, adaptabilidade, pragmatismo, visão,
tática de sobrevivência, abrir portas, cortar
caminhos. Nacionalizando: jeitinho. Até mesmo
pelos roubados, trapaceados e peculatados de outrora que,
agora, por circunvoluções mentais várias,
passaram pro outro partido, grupo, facção, máfia,
em suma, pro outro lado do guichê. "Não, eu nunca
disse que o prefeito roubava no jogo com os empreiteiros.
Ironizei apenas sua incapacidade de lidar com números
– no final da partida sempre errava, por acaso a seu favor,
na hora de contar os pontos." Para cada corrupto – perdão,
ligeiro, hábil etc. – posto na cadeia em alguma parte
do mundo, há milhares deles que, pelos mesmos motivos,
chegam à Glória, que fica, eleva, honra e consola,
apregoada pela Academia Brasileira de Letras. A Ordem do Mérito
só é dada a quem faz todas as marotagens pra
recebê-la, isto é, demonstra, exaustivamente,
que não o tem, o mérito. E nunca esquecer –
preto é preto, branco é branco, e... (veja a
ilustração).
E ENTENDA ESTE POEMINHA
Em louvor a nossos representantes no Planalto.
Parecem incapazes
Mas como são rapazes
Esses nossos rapazes!