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Edição 2011

6 de junho de 2007
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DIVAGAR E SEMPRE

Esse negócio de corrupção, chantagem, roubo. De que tanto, até exaustivamente, se fala. Não é apenas coisa difícil de provar, como vocês têm percebido nos últimos tempos. Difícil mesmoé estabelecer a linha exata por onde passa o boi, passa a boiada. Entre a lei e o crime, entre o pau e o ventre, o absolutamente honesto e o meramente legal, entre a polícia e o malfeitor, entre mim e você (não leve a mal, leitor, é só exercício retórico).

Vejamos: quando você pede uma casquinha de siri, você acredita mesmo que aquele "siri" é daquela casquinha? Quando você come escargô (que é o nome francês que a gente usa pra comer o caracol), quantas vezes aquela concha já foi e voltou em quantos escargôs? Então como, e mesmo por quê, exigir mais autenticidade ou originalidade – ou virgindade – em outros setores e características da espécie e da atividade humanas? Não esquecer: quando você acusa um homem de desonestidade, você está envolvendo mulher, filhos, parentes, amigos e seguidores, ou seja, invadindo a privacidade do enfocado. Sendo que os familiares – porque lhes convém – jamais acham estranho que o provedor, que antes provia tão pouco e tão mal, de um tempo pra cá passasse a prover tanto e tão bem. Suborno, trapaça, peculato, podem sempre, em retrospecto, ser considerados apenas engenho, habilidade, adaptabilidade, pragmatismo, visão, tática de sobrevivência, abrir portas, cortar caminhos. Nacionalizando: jeitinho. Até mesmo pelos roubados, trapaceados e peculatados de outrora que, agora, por circunvoluções mentais várias, passaram pro outro partido, grupo, facção, máfia, em suma, pro outro lado do guichê. "Não, eu nunca disse que o prefeito roubava no jogo com os empreiteiros. Ironizei apenas sua incapacidade de lidar com números – no final da partida sempre errava, por acaso a seu favor, na hora de contar os pontos." Para cada corrupto – perdão, ligeiro, hábil etc. – posto na cadeia em alguma parte do mundo, há milhares deles que, pelos mesmos motivos, chegam à Glória, que fica, eleva, honra e consola, apregoada pela Academia Brasileira de Letras. A Ordem do Mérito só é dada a quem faz todas as marotagens pra recebê-la, isto é, demonstra, exaustivamente, que não o tem, o mérito. E nunca esquecer – preto é preto, branco é branco, e... (veja a ilustração).

E ENTENDA ESTE POEMINHA
Em louvor a nossos representantes no Planalto.

Parecem incapazes
Mas como são rapazes

Esses nossos rapazes!

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