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6 de junho de 2007
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Auto-retrato
Anne W. Patterson


Roberto Setton


Como embaixadora americana em Bogotá entre 2000 e 2003, Anne W. Patterson ajudou a articular a mais ambiciosa campanha de combate ao narcotráfico, o Plano Colômbia. Hoje, ela é subsecretária de Assuntos Internacionais de Entorpecentes e Repressão Legal do Departamento de Estado. Em São Paulo, Patterson falou à repórter Leoleli Camargo.

QUAL É A MAIOR PREOCUPAÇÃO AMERICANA EM RELAÇÃO AO NARCOTRÁFICO NO BRASIL? A droga vinda da Bolívia. O presidente Evo Morales propõe quase dobrar a área plantada legalmente com coca. Honestamente, não há demanda para uso tradicional de tanta folha de coca. O único destino para o excedente é o narcotráfico. E o Brasil é o único grande mercado para a cocaína boliviana.

O BRASIL TORNOU-SE ROTA PARA A EUROPA E OS ESTADOS UNIDOS DA DROGA PROVENIENTE DE PAÍSES VIZINHOS. QUAIS AS CONSEQÜÊNCIAS DISSO? Países usados como rota em geral passam por duas situações: primeiro, o consumo aumenta porque os traficantes pagam em produto, não em dinheiro. Depois, o tráfico começa a corromper as instituições, como bancos e autoridades aduaneiras. Quanto mais droga entra no país, mais difícil é o controle. O narcotráfico produz quantias exorbitantes de dinheiro, e isso tem um tremendo potencial para gerar corrupção.

QUAL É SUA AVALIAÇÃO DO COMBATE AO NARCOTRÁFICO E AO CRIME ORGANIZADO NO BRASIL? Em relação à lavagem de dinheiro, o Brasil é de longe o melhor exemplo na América do Sul. O grande desafio é a conexão entre as quadrilhas e o narcotráfico. Os narcóticos financiam as quadrilhas. Sem sua principal fonte de renda, elas perdem poder.

UM SISTEMA JUDICIÁRIO EFICIENTE E ÍNTEGRO É O SUFICIENTE PARA DESMANTELAR QUADRILHAS COM TANTO PODER? Não. Primeiro é preciso contar com uma boa polícia, um bom controle aduaneiro e um bom controle de fronteiras. Além de promotores e juízes íntegros, também é necessário ter boas prisões. Isso é um grande problema no Brasil e na América Latina.

ISOLAR OS LÍDERES DAS FACÇÕES CRIMINOSAS É UMA BOA ESTRATÉGIA? Sim. Se os líderes não conseguem se comunicar com os membros que estão nas ruas, em alguns meses estão fora da organização. Na Colômbia, diversos barões da droga foram isolados assim: em uma prisão com normas rígidas, guardada por carcereiros bem treinados e bem pagos.

UMA MUDANÇA RECENTE NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA ABRANDOU A PUNIÇÃO PARA QUEM É FLAGRADO PORTANDO ENTORPECENTES. A SENHORA CONCORDA COM ISSO? Não conheço a lei brasileira, e por isso não posso comentá-la. Mas nossa política é clara a esse respeito: vemos a descriminalização como um pé na porta da legalização.

APESAR DE OS ESTADOS UNIDOS TEREM INVESTIDO BILHÕES DE DÓLARES PARA ERRADICAR A CULTURA DE COCA NA COLÔMBIA, O PAÍS CONTINUA SENDO O MAIOR PRODUTOR MUNDIAL DE COCAÍNA. VALEU A PENA? Sim. A grande vantagem de atacar o plantio é que se sabe exatamente onde ele está. Um alvo estacionário é sempre mais fácil de atingir do que um alvo que está constantemente mudando de lugar.

O TRÁFICO DE DROGAS SINTÉTICAS, QUE NÃO DEPENDEM DE CULTIVO, COMO A COCAÍNA E A MACONHA, ESTA CRESCENDO. COMO ENFRENTAR ESSE NOVO TIPO DE TRÁFICO? A metanfetamina tornou-se uma grande dor de cabeça nos Estados Unidos, pois atingiu regiões do país que nunca haviam enfrentado problemas com drogas. Os laboratórios caseiros usam medicamentos comprados em farmácia para produzir essas drogas. Restrições à venda de remédios para gripe em Oklahoma reduziram o mercado de droga em 49% em apenas um ano. Mas o desafio não pára, pois a guerra contra as drogas é contínua. Você não vence, apenas passa para a próxima batalha.

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