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Auto-retrato Anne
W. Patterson
Roberto
Setton
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Como
embaixadora americana em Bogotá entre 2000 e 2003, Anne W. Patterson ajudou
a articular a mais ambiciosa campanha de combate ao narcotráfico, o Plano
Colômbia. Hoje, ela é subsecretária de Assuntos Internacionais
de Entorpecentes e Repressão Legal do Departamento de Estado. Em São
Paulo, Patterson falou à repórter Leoleli Camargo.
QUAL É A MAIOR PREOCUPAÇÃO AMERICANA EM RELAÇÃO
AO NARCOTRÁFICO NO BRASIL? A droga vinda da Bolívia. O presidente
Evo Morales propõe quase dobrar a área plantada legalmente com coca.
Honestamente, não há demanda para uso tradicional de tanta folha
de coca. O único destino para o excedente é o narcotráfico.
E o Brasil é o único grande mercado para a cocaína boliviana.
O BRASIL TORNOU-SE ROTA
PARA A EUROPA E OS ESTADOS UNIDOS DA DROGA PROVENIENTE DE PAÍSES VIZINHOS.
QUAIS AS CONSEQÜÊNCIAS DISSO? Países usados como rota em
geral passam por duas situações: primeiro, o consumo aumenta porque
os traficantes pagam em produto, não em dinheiro. Depois, o tráfico
começa a corromper as instituições, como bancos e autoridades
aduaneiras. Quanto mais droga entra no país, mais difícil é
o controle. O narcotráfico produz quantias exorbitantes de dinheiro, e
isso tem um tremendo potencial para gerar corrupção. QUAL
É SUA AVALIAÇÃO DO COMBATE AO NARCOTRÁFICO E AO CRIME
ORGANIZADO NO BRASIL? Em relação à lavagem de dinheiro,
o Brasil é de longe o melhor exemplo na América do Sul. O grande
desafio é a conexão entre as quadrilhas e o narcotráfico.
Os narcóticos financiam as quadrilhas. Sem sua principal fonte de renda,
elas perdem poder. UM SISTEMA
JUDICIÁRIO EFICIENTE E ÍNTEGRO É O SUFICIENTE PARA DESMANTELAR
QUADRILHAS COM TANTO PODER? Não. Primeiro é preciso contar com
uma boa polícia, um bom controle aduaneiro e um bom controle de fronteiras.
Além de promotores e juízes íntegros, também é
necessário ter boas prisões. Isso é um grande problema no
Brasil e na América Latina. ISOLAR
OS LÍDERES DAS FACÇÕES CRIMINOSAS É UMA BOA ESTRATÉGIA?
Sim. Se os líderes não conseguem se comunicar com os membros que
estão nas ruas, em alguns meses estão fora da organização.
Na Colômbia, diversos barões da droga foram isolados assim: em uma
prisão com normas rígidas, guardada por carcereiros bem treinados
e bem pagos. UMA MUDANÇA
RECENTE NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA ABRANDOU A PUNIÇÃO
PARA QUEM É FLAGRADO PORTANDO ENTORPECENTES. A SENHORA CONCORDA COM ISSO?
Não conheço a lei brasileira, e por isso não posso comentá-la.
Mas nossa política é clara a esse respeito: vemos a descriminalização
como um pé na porta da legalização. APESAR
DE OS ESTADOS UNIDOS TEREM INVESTIDO BILHÕES DE DÓLARES PARA ERRADICAR
A CULTURA DE COCA NA COLÔMBIA, O PAÍS CONTINUA SENDO O MAIOR PRODUTOR
MUNDIAL DE COCAÍNA. VALEU A PENA? Sim. A grande vantagem de atacar
o plantio é que se sabe exatamente onde ele está. Um alvo estacionário
é sempre mais fácil de atingir do que um alvo que está constantemente
mudando de lugar. O TRÁFICO
DE DROGAS SINTÉTICAS, QUE NÃO DEPENDEM DE CULTIVO, COMO A COCAÍNA
E A MACONHA, ESTA CRESCENDO. COMO ENFRENTAR ESSE NOVO TIPO DE TRÁFICO?
A metanfetamina tornou-se uma grande dor de cabeça nos Estados Unidos,
pois atingiu regiões do país que nunca haviam enfrentado problemas
com drogas. Os laboratórios caseiros usam medicamentos comprados em farmácia
para produzir essas drogas. Restrições à venda de remédios
para gripe em Oklahoma reduziram o mercado de droga em 49% em apenas um ano. Mas
o desafio não pára, pois a guerra contra as drogas é contínua.
Você não vence, apenas passa para a próxima batalha. |