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Em busca de Deus
Patrocínio
farto dá impulso a
pesquisas para explicar em
laboratório os mistérios da fé
Daniel
Hessel Teich
Ilustração Fabio Victor
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Religião
e ciência costumam trafegar em faixa própria e a maioria
dos cientistas e dos religiosos acredita que a distância é
conveniente para ambas. No momento, essa fronteira está sendo posta
abaixo por uma farta quantidade de estudos em laboratório cujo
objetivo é usar as ferramentas da ciência tradicional para
explicar mistérios religiosos ou procurar por Deus dentro do cérebro
humano. São desse último tipo as pesquisas realizadas em
cerca de trinta faculdades de medicina dos Estados Unidos, entre elas
as de universidades famosas como Colúmbia, Duke, Harvard e Georgetown.
Seus cientistas tentam entender como e se a fé e
condutas baseadas nos princípios de solidariedade, perdão
e bondade influenciam a cura de doenças e contribuem para o bem-estar
das pessoas. Outras instituições, como o Centro de Teologia
e Ciências Naturais, na Califórnia, trabalham com o objetivo
de encontrar na cosmologia e na física argumentos que fundamentem
a origem divina da criação do universo.
A explicação para a explosão de interesse científico
pela religião vai além da permanente inquietação
humana com os mistérios do universo: decorre, em boa parte, da
fartura de dinheiro disponível para quem quiser enveredar por essa
área de pesquisa nos Estados Unidos. "Muita gente me pergunta o
porquê desse fenômeno", diz o psicólogo Michael Shermer,
do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), um defensor
da tese de que ciência e religião não se devem misturar.
"Digo que a resposta é simples. Basta seguir o dinheiro que financia
essas pesquisas." Esse caminho converge na maioria das vezes para John
Templeton, um bilionário americano de 89 anos que vive numa mansão
nas Bahamas. Depois de fazer fortuna em Wall Street, ele criou uma fundação,
a John Templeton Foundation, cujo objetivo é usar a ciência
para provar que a Bíblia tem razão. Só no
ano passado, a fundação gastou 40 milhões de dólares
com o patrocínio de pesquisas e bolsas de estudos não apenas
nos Estados Unidos, mas também em Israel, Inglaterra, Taiwan, Austrália
e Canadá.
Raimundo Koch
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| Com
uma máquina de tomografia, o médico Andrew Newberg, da Universidade
da Pensilvânia, descobriu que a meditação e a oração são capazes de
desligar circuitos no cérebro humano |
John Templeton atribui uma premiação anual no valor de 1
milhão de dólares a personalidades e cientistas que contribuam
para o desenvolvimento da religião. O único outro prêmio
com valor tão alto é o Nobel, o mais cobiçado pelos
cientistas do planeta. Neste ano, o anúncio do vencedor
um bioquímico que sustenta não existir contradição
entre a teoria da evolução e a religião foi
feito na sede da ONU, em Nova York, e a festa de premiação
foi realizada semanas depois, em Londres. O cheque foi entregue pelo marido
da rainha Elizabeth, o príncipe Philip. No pragmático mundo
acadêmico americano, doações como as da John Templeton
Foundation são um estímulo e tanto. O ponto de partida para
a maciça maioria das pesquisas nos Estados Unidos é o dinheiro
que as financia. Isso não ocorre apenas em assuntos ligados à
religião. A indústria farmacêutica, por exemplo, é
mão aberta quando se trata de encontrar novos medicamentos ou,
melhor ainda, as provas de que os remédios que vende não
têm terríveis efeitos colaterais.
Esse sistema de financiamento coloca a ciência numa evidente arapuca
ética. Se o cientista ou a instituição rejeita o
dinheiro, corre o risco de abandonar projetos importantes. Se aceita,
precisa conciliar a independência da pesquisa com o interesse do
doador. Seis de cada 10 dólares gastos em pesquisas nas universidades
nos Estados Unidos vêm de verbas públicas. Fiel ao princípio
de separar Igreja e Estado, o governo americano é refratário
a estudos de caráter místico ou religioso. Quem quiser se
aventurar por esse território precisa procurar faculdades e centros
de estudos mantidos por instituições religiosas ou concorrer
à ajuda de Templeton ou outros doadores. Com pouco mais de um ano
de existência, o Centro de Estudos da Ciência e da Religião
da Universidade Colúmbia já recebeu da Templeton Foundation
uma doação de 100.000 dólares, o que garantirá
seu funcionamento pelos próximos três anos. O médico
Harold Koenig, do Centro de Estudos da Religião, Espiritualidade
e Saúde da Universidade Duke, recebeu 317.000 dólares para
estudar o impacto da religião e da espiritualidade em pacientes
atendidos nos serviços de saúde do Estado da Carolina do
Norte, onde fica a universidade.
A principal preocupação da Templeton são os estudos
teóricos sobre religião e ciência. Mas seu dinheiro
é um guarda-chuva generoso o suficiente para abrigar a pesquisa
científica tradicional, desde que contenha algum tipo de conexão
mística. Com isso, está ajudando a desenvolver uma nova
linha de pesquisa, a neuroteologia. O objetivo dela é a busca das
marcas neurológicas deixadas por experiências místicas
e espirituais. Muita coisa de genuíno interesse científico
tem saído daí. Com uma bolsa de 35.000 dólares, o
radiologista Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, submeteu
a exames tomográficos o cérebro de budistas tibetanos mergulhados
em profunda meditação. Uma solução radioativa
injetada na veia permitiu acompanhar os efeitos do transe na atividade
cerebral. O estudo foi depois repetido com freiras abstraídas em
oração. É impressionante o resultado, divulgado há
um mês no livro Why God Won't Go Away: Brain Science and the
Biology of Belief (Porque Deus Não Irá Embora: a Ciência
do Cérebro e a Biologia da Crença). Tanto a meditação
como a oração desligaram os circuitos cerebrais que controlam
a noção de limites físicos do ser humano. Seria a
explicação bioquímica para a sensação
de transcendência e o alto grau de concentração mental
obtidos com a meditação. "É uma experiência
que pode ajudar-nos a entender como funciona nossa habilidade de compreender
Deus", disse Newberg a VEJA. É possível dizer igualmente
que pode nos ajudar a entender melhor o funcionamento do cérebro.
Ilustração Fabio Victor
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Esse
campo de pesquisas é muito novo e as respostas, por enquanto, são
apenas tentativas. Ninguém ainda tem condição de
afirmar que o cérebro humano é dotado de um circuito espiritual
e explicar como os rituais religiosos têm o poder de envolver de
modo tão intenso os fiéis. "Mas uma coisa já é
clara: as experiências espirituais são constantes, independentemente
de cultura, época ou fé", diz o psicólogo David Wulff,
da Faculdade Wheaton, em Massachusetts. "Isso sugere que possam refletir
estruturas ou processos do cérebro humano." É possível
que ciência e religião acabem entrando em acordo no estudo
dos efeitos da espiritualidade no cérebro. A relação
é mais complicada em outra questão, exatamente aquela que
separou cientistas e clérigos no século XIX: a origem do
homem. Praticamente ignorado no restante do mundo, que aceita sem restrições
a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin,
o assunto é polêmico nos Estados Unidos. Com o patrocínio
de igrejas conservadoras, uma nova geração de cientistas
cristãos está conseguindo restabelecer a respeitabilidade
acadêmica do criacionismo. O mais famoso deles, o bioquímico
Michael Behe, argumenta que a complexidade genética não
cabe na teoria de Darwin. Só a existência de um "designer
inteligente" isto é, Deus justificaria tamanha diversidade
de espécies. Nesse assunto, o que se acredita é, sobretudo,
uma questão de fé.
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