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Trabalhar engorda

Uma pesquisa mostra que quase a
metade dos funcionários das grandes
empresas está acima do peso

Anna Paula Buchalla

 
Claudio Rossi
Dos 22 milhões de trabalhadores brasileiros com carteira assinada, 3,1 milhões almoçam todos os dias no restaurante da própria empresa

Frango assado, bife, salada de batata, batata frita, lingüiça, estrogonofe, capelete, creme de milho e, é claro, o clássico arroz e feijão. Prato de restaurante de empresa costuma ser assim – uma mistureba surrealista. Com a variedade de opções, boa parte dos funcionários come de tudo um pouco (ou de tudo um muito). Some-se a esses almoços pantagruélicos, em geral regados a refrigerante, o sedentarismo nosso de cada dia e pronto: as silhuetas arredondam-se de tal forma que até aquela secretária, tão elegante quando estreou poucos meses atrás, agora mais parece um bujãozinho. O que é motivo de maledicência na hora do café acaba de ser confirmado, em larguíssima escala, por uma pesquisa conduzida pelo laboratório Roche, não por acaso fabricante do Xenical. Ao longo de três anos, foram analisados os hábitos alimentares e a relação peso/altura de 280.000 funcionários de 200 das maiores empresas do país – do office-boy ao executivo. O resultado mostra que 46% deles apresentam quilos extras. Essa cifra é bem mais alta do que a porcentagem nacional de adultos com sobrepeso (veja quadro).

Dos 22 milhões de trabalhadores brasileiros com carteira assinada, 3,1 milhões almoçam todos os dias no restaurante da empresa em que dão expediente. É um número impressionante: equivale à população de uma cidade como Buenos Aires, a capital argentina. Não se trata de benemerência de patrão com consciência social. A legislação obriga as firmas com mais de 300 funcionários a fornecer alimentação, seja por meio de vales, seja em um estabelecimento próprio ou terceirizado. Manter um restaurante dentro da empresa é bom porque ajuda a evitar que o empregado ganhe as ruas e estique além da conta a pausa do almoço. A lei determina que, nesses casos, o cardápio seja supervisionado por um nutricionista. E o que faz esse profissional? Com o objetivo de proporcionar uma refeição rica e completa, manda preparar alimentos de diversos tipos. Até aí, tudo bem. Só que, em vez de montar um prato equilibrado, o funcionário transforma as edificantes intenções nutricionais numa gororoba calórica.

Além dos almoços fartos, há ainda as máquinas de salgadinhos, doces e refrigerantes. Toda essa porcariada contribui para que os funcionários engordem ainda mais. Não é uma surpresa, portanto, que esteja aumentando a quantidade de licenças médicas que, na origem, guardam relação com obesidade. Como isso é sinônimo de prejuízo, algumas empresas resolveram suavizar seus cardápios. A Dow Química, por exemplo, diminuiu as frituras e aumentou a oferta de verduras e legumes. Muita gente chiou. "A verdade é que a maioria das pessoas prefere comidas calóricas", lamenta Maria Lúcia Bechara, gerente de saúde ocupacional da Dow Química. Na ABB, uma das maiores empresas de energia do país, escolheu-se o caminho das palestras, faixas e folhetos. Em breve, seus funcionários poderão contar com um endocrinologista de plantão. A ABB investe forte na educação alimentar e está colhendo bons resultados.

A pesquisa da Roche confirmou à Varig que a companhia deve reforçar seu programa interno de prevenção da obesidade. As refeições em horários irregulares, associadas ao ritmo estressante e às noites maldormidas, são um verdadeiro regime de engorda para as tripulações de vôos de longa duração. Por indicação médica, comissários e pilotos agora podem solicitar uma refeição diferente da servida aos passageiros (diferente só nas calorias, bem entendido). Além disso, a Varig arca com parte dos custos de tratamentos contra o excesso de peso. Os reembolsos de remédios de regime chegam a 50%. Essa prática também é seguida por outras firmas. Algumas subvencionam até 80% do preço do medicamento.

Um dado do levantamento que chama a atenção é o número de obesos graves ou mórbidos. Mais de um terço dos que apresentam sobrepeso pertencem a essas categorias. Uma pessoa é considerada um obeso grave quando seu índice de massa corporal (peso dividido pela altura ao quadrado) ultrapassa 35. Acima de 40, entra para a faixa dos mórbidos. "Não é um exagero dizer que a obesidade virou uma epidemia nas grandes empresas", afirma Andrea Ciolette, coordenadora da pesquisa da Roche. Se você trabalha numa delas, mais cuidado na hora de fazer seu prato. Ah, sim, e se no seu trabalho houver uma academia de ginástica pense seriamente em matricular-se nela. Ainda que seja difícil encarar o colega de serviço vestindo um shortinho de Lycra, o sacrifício vale a pena.

 

Montagem Pidone sobre fotos de Claudio Rossi/Luis Roberto Nogueira/Marlos Bakker




   
 
   
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