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Edição 1 703 - 6 de junho de 2001
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O PAÍS QUE NÃO CHEGA AO FUTURO

Personalidades de destaque em sua área opinam sobre três questões: 1) Por que o Brasil continua sendo eternamente o país do futuro que nunca chega?; 2) Como se sente em relação ao país e suas lideranças, especialmente os políticos?; e 3) Que soluções sugere para o país sair de sua crise aparentemente infindável? Eis as respostas:


Oscar Cabral


João Ubaldo Ribeiro
ESCRITOR

Esse futuro que não chega é o grande mistério do Brasil. Ninguém sabe a resposta. Parece que estamos cada vez pior. O racionamento de energia ameaça o emprego, a produção e os investimentos. Não vamos conseguir nem aproveitar o câmbio para aumentar as exportações. Diante disso, sou um sujeito muito desalentado. Chego a pensar que se o Brasil tivesse sofrido uma revolução seríamos um país diferente. Se tivesse uma fórmula para sair da crise, eu me candidataria a governante.


Ricardo Stuckert


Marco Aurélio Mello
PRES. DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

O momento de turbulência não me parece tão desanimador. O que desponta é o pleno funcionamento das instituições. Não somos o país mais corrupto do mundo. Ocorre que em alguns lugares o controle de proteção à coisa pública é mais eficiente. As lideranças do país foram escolhidas mediante processo eleitoral legítimo e passarão pelo julgamento das urnas. Contamos com mecanismos de controle e uma imprensa atuante. Sou otimista. Confio na maturidade democrática do Brasil.


Alexandre Sant'Anna/Strana


Ronaldinho
JOGADOR DE FUTEBOL

Esse futuro do Brasil já é uma realidade para uma parte bem pequena da população, que pode pagar universidades caras, hospitais de bom nível. Esse desequilíbrio nos mantém distantes do mundo desenvolvido. Mas está mudando. Gente que era intocável vem perdendo o poder e tendo de explicar seus erros. O Brasil precisa disso. O mau político deve ter medo de roubar. É necessário recuperar os valores morais. Matar, roubar, corromper não pode ser coisa tão normal quanto é por aqui.


Nelio Rodrigues


Olacyr de Moraes
EMPRESÁRIO

O Brasil não tem visão de desenvolvimento. Não valoriza as iniciativas e mantém uma política de juros altos. Houve competência para conter o avanço da hiperinflação e trazer investimentos. No entanto, não conseguiram impedir o aumento da dívida. Além disso, nosso PIB deveria crescer, pelo menos, 7% ao ano. Para isso, é preciso assumir os custos da globalização, e isso significa também arcar com as conseqüências que a variação do dólar tem hoje sobre nossa economia.


Bia Parreiras


Boni (José Bonifácio O. Sobrinho)
CONSULTOR DA REDE GLOBO

O brasileiro já nasce ouvindo que este é o país do futuro. A frase pode soar esperançosa, mas não passa do mais puro conformismo. Há uma crise de liderança mundial, mas, no Brasil, a impunidade é uma constante histórica, e o desprezo pelo interesse público ultrapassa tudo o que se possa imaginar. O Brasil precisa de um ideal e de um projeto. Não conheço nada que possa ser construído sem dois ingredientes – idealismo e um projeto competente e detalhado. Basta de continuar vivendo de tentativas.


Liane Neves


Moacyr Scliar
ESCRITOR

Ainda que em meio a crises dolorosas, estamos passando por um processo de tomada de consciência. O brasileiro não aceita mais escândalos, está reagindo com responsabilidade a uma crise energética que não foi criada por ele e se manifesta cada vez mais. Também por isso os homens públicos com propostas sérias, idôneas e honestas têm cada vez mais chance de aparecer. A solução, portanto, não é impossível. A democracia é o instrumento de transformação.


Adi Leite


João Gordo
VOCALISTA DO RATOS DO PORÃO

Isso aqui começou errado. Desde a colonização, os caras não vieram para cá construir uma nação. Já era tudo pilantra. É a história do pau que nasce torto. Eu sinto vergonha – do país, dos políticos, disso tudo aí. Não tenho orgulho nenhum de ser brasileiro e odeio muito essa patriotada que nego faz quando a seleção ganha. Minha solução é um pouco radical. Acho que tinha de ter uma revolução, botar para quebrar. Mas o brasileiro não quer saber de lutar. Só quer saber de futebol e de bunda.


Rui Teixeira

Ocimar Versolato
ESTILISTA

A situação está muito melhor hoje. Somos um país emergente, e todo desenvolvimento tem um preço. Não se pode apenas culpar o governo. Não há colaboração da população. FHC é o melhor presidente que o Brasil já teve. Os escândalos não abalam a imagem do governo. Pelo contrário, os responsáveis estão sendo expostos e punidos. Elegemos um líder para que ele aponte as soluções e devemos acompanhá-lo até o fim. Também é preciso ter paciência, pois não se conserta um país em uma semana.


Emanuelle Bernard


Leila
JOGADORA DE VÔLEI

O brasileiro reclama, mas a maior arma ainda é o voto. Perdemos a noção de colocar as pessoas competentes e honestas para governar. Ao impedirem a CPI da Corrupção, os políticos mostram que existe muito interesse pessoal. É preciso uma varredura geral. Eles são uma classe bastante egoísta. Só de pensar no que eles fazem fico envergonhada. O primeiro passo para resolver isso é esquecer os interesses pessoais e todo mundo buscar um objetivo comum, depois mudar os governantes.


Claudio Rossi


Alexandre Herchcovitch
ESTILISTA

Em minha área, o Brasil já chegou ao futuro, mas em outras continuamos com séculos de atraso. Só se pode atribuir isso à incompetência dos que governam. Eu me sinto enganado. E me sinto pior porque tenho certeza de que muitos que agora saíram escorraçados vão voltar em breve como se nada tivesse acontecido. A solução que vejo é que os políticos ponham os interesses da nação à frente dos seus interesses particulares e que as pessoas aprendam a votar melhor.


Leo Feltran


Gloria Kalil
CONSULTORA DE MODA

Talvez essa história de país do futuro se deva ao crescimento dos anos 40 aos 60. Mas a gente já foi o país do futuro. Nos anos 70, havia uma expectativa quanto a isso. Foi uma ilusão. Políticos de países que não dão as cartas viraram fantoches de economias e organizações poderosas. Economistas mandam mais que os políticos. Não sei qual a solução. A situação escapou do domínio da política, em que as regras e a ética são conhecidas, para cair na mão do mercado. A ética do mercado é o lucro.


Rogério Montenegro


Mailson da Nóbrega
EX-MINISTRO DA FAZENDA

O futuro está chegando. O Brasil está entre as cinco nações de maior crescimento econômico. Mas o grau de desenvolvimento não deve ser medido somente pelo PIB. A democracia é fundamental. Poucos países tiveram presidentes com a visão e a base intelectual de Fernando Henrique Cardoso. Contudo, seu governo também erra. Errou na crise energética e ao não fazer a reforma tributária. Mas não há receitas. Temos de investir em educação e fazer mudanças profundas na política.


Egberto Nogueira


Silvano Raia
MÉDICO E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

O Brasil tem um potencial que, infelizmente, não se concretizou. Por isso surgem previsões otimistas para contrabalançar frustrações. Crescimento não depende apenas de potencial e otimismo, mas também de vontade e capacidade. Aí está nosso trunfo. Temos sensibilidade e solidariedade exemplares, evidências de maturidade. Mas fico perplexo com os ataques e contra-ataques pessoais e com a disseminação da corrupção. A reação positiva é que nunca se valorizou tanto a ética na política.


Cida Souza


Zélia Gattai
ESCRITORA

Não devemos estabelecer prazo para o Brasil. Sou otimista. Vamos crescer cada vez mais. Mas fico preocupada. O racionamento de energia me fez sentir uma punhalada nas costas. É o mesmo sentimento da época em que o ex-presidente Fernando Collor de Mello confiscou a poupança. De uma hora para outra, somos avisados de que não podemos abrir a geladeira ou ligar a televisão. A solução não está nas mãos apenas dos governantes, mas de todos nós. Cada um deve fazer sua parte.


Heloisa Bortz


Márcio Thomaz Bastos
ADVOGADO

Houve equívocos e apostas erradas por décadas. No governo FHC, as coisas se agravaram. Em nome da queda da inflação, o governo vendeu a alma ao diabo. Acho que nenhum partido formulou um projeto acabado e alternativo ao que existe aí. A previsão é que o próximo governo possa, pelo milagre da democracia, articular um programa que privilegie o interesse das maiorias, com investimentos em educação, redistribuição de renda e consumidores que criem um modelo auto-sustentável.


Alexandre Battibugli


Tostão
COMENTARISTA E EX-JOGADOR DE FUTEBOL

O problema é ter uma elite que nunca quis distribuir a riqueza. Usufrui benesses, enche os bolsos e não divide nada. Mas acho que isso está mudando. A corrupção, a incompetência, a troca de favores chegaram a um limite, e os políticos estão percebendo isso. Eu me sinto ao mesmo tempo indignado e esperançoso. Há um início, lento mas progressivo, de mudança. Não tenho ilusões: serão necessárias mais duas gerações, pelo menos, para que o Brasil venha a ser um país mais justo.


Eugenio Savio


Roberto Drummond
ESCRITOR

O Brasil já é o país do futuro. O problema é que não somos capazes de ver isso. Temos tendência à autoflagelação. Em vez de enxergar as coisas maravilhosas que há em nosso país, sofremos com os defeitos, exagerando-os. Em relação aos políticos, sinto um grande mal-estar, uma descrença cada vez maior. Tudo o que temos de bom existe, eu diria, apesar dos políticos. A resposta está aí: é a mobilização da população. Nada me empolga mais que isso.


Clóvis Ferreira


Boris Fausto
HISTORIADOR

Não acho que há um futuro que não chega. Ele vem aos poucos. Podemos notar avanços. Temos uma sociedade mais articulada e conseguimos, apesar dos arranhões, a democracia. Faltam a construção de instituições e partidos fortes. Infelizmente, ainda ocorre o inverso. O momento é crítico, mas podemos ver certos avanços dentro da própria crise. Um deles é a postura da população diante do problema da falta de energia. As pessoas economizam mesmo antes de o racionamento começar.


Oscar Cabral


Marcelo Yuka
MÚSICO DA BANDA O RAPPA

O Brasil tem de ser o país do agora. Temos de pensar em mudar já, agir com mais pressa. Não podemos deitar em cima dessa história de ser o país do futuro. Eu tenho a sensação de que estão tentando me fazer de palhaço. Por isso, tenho mais crença nos movimentos populares não-partidários. É preciso incentivar mais o próprio brasileiro, que é tão criativo. O problema é que poucos políticos se espelham no povo. Ficam nos escritórios, sem saber o que acontece do lado de fora.

 

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