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O
PAÍS QUE NÃO CHEGA AO FUTURO
Personalidades
de destaque em sua área opinam sobre três questões:
1) Por que o Brasil continua sendo eternamente o país do
futuro que nunca chega?; 2) Como se sente em relação
ao país e suas lideranças, especialmente os políticos?;
e 3) Que soluções sugere para o país sair de
sua crise aparentemente infindável? Eis as respostas:
Oscar Cabral
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João Ubaldo Ribeiro
ESCRITOR
Esse
futuro que não chega é o grande mistério do
Brasil. Ninguém sabe a resposta. Parece que estamos cada
vez pior. O racionamento de energia ameaça o emprego, a produção
e os investimentos. Não vamos conseguir nem aproveitar o
câmbio para aumentar as exportações. Diante
disso, sou um sujeito muito desalentado. Chego a pensar que se o
Brasil tivesse sofrido uma revolução seríamos
um país diferente. Se tivesse uma fórmula para sair
da crise, eu me candidataria a governante.
Ricardo Stuckert
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Marco Aurélio Mello
PRES. DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
O
momento de turbulência não me parece tão desanimador.
O que desponta é o pleno funcionamento das instituições.
Não somos o país mais corrupto do mundo. Ocorre que
em alguns lugares o controle de proteção à
coisa pública é mais eficiente. As lideranças
do país foram escolhidas mediante processo eleitoral legítimo
e passarão pelo julgamento das urnas. Contamos com mecanismos
de controle e uma imprensa atuante. Sou otimista. Confio na maturidade
democrática do Brasil.
Alexandre Sant'Anna/Strana
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Ronaldinho
JOGADOR DE FUTEBOL
Esse
futuro do Brasil já é uma realidade para uma parte
bem pequena da população, que pode pagar universidades
caras, hospitais de bom nível. Esse desequilíbrio
nos mantém distantes do mundo desenvolvido. Mas está
mudando. Gente que era intocável vem perdendo o poder e tendo
de explicar seus erros. O Brasil precisa disso. O mau político
deve ter medo de roubar. É necessário recuperar os
valores morais. Matar, roubar, corromper não pode ser coisa
tão normal quanto é por aqui.
Nelio Rodrigues
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Olacyr de Moraes
EMPRESÁRIO
O
Brasil não tem visão de desenvolvimento. Não
valoriza as iniciativas e mantém uma política de juros
altos. Houve competência para conter o avanço da hiperinflação
e trazer investimentos. No entanto, não conseguiram impedir
o aumento da dívida. Além disso, nosso PIB deveria
crescer, pelo menos, 7% ao ano. Para isso, é preciso assumir
os custos da globalização, e isso significa também
arcar com as conseqüências que a variação
do dólar tem hoje sobre nossa economia.
Bia Parreiras
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Boni (José Bonifácio O. Sobrinho)
CONSULTOR DA REDE GLOBO
O
brasileiro já nasce ouvindo que este é o país
do futuro. A frase pode soar esperançosa, mas não
passa do mais puro conformismo. Há uma crise de liderança
mundial, mas, no Brasil, a impunidade é uma constante histórica,
e o desprezo pelo interesse público ultrapassa tudo o que
se possa imaginar. O Brasil precisa de um ideal e de um projeto.
Não conheço nada que possa ser construído sem
dois ingredientes idealismo e um projeto competente e detalhado.
Basta de continuar vivendo de tentativas.
Liane Neves
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Moacyr Scliar
ESCRITOR
Ainda
que em meio a crises dolorosas, estamos passando por um processo
de tomada de consciência. O brasileiro não aceita mais
escândalos, está reagindo com responsabilidade a uma
crise energética que não foi criada por ele e se manifesta
cada vez mais. Também por isso os homens públicos
com propostas sérias, idôneas e honestas têm
cada vez mais chance de aparecer. A solução, portanto,
não é impossível. A democracia é o instrumento
de transformação.
Adi Leite
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João Gordo
VOCALISTA DO RATOS DO PORÃO
Isso
aqui começou errado. Desde a colonização, os
caras não vieram para cá construir uma nação.
Já era tudo pilantra. É a história do pau que
nasce torto. Eu sinto vergonha do país, dos políticos,
disso tudo aí. Não tenho orgulho nenhum de ser brasileiro
e odeio muito essa patriotada que nego faz quando a seleção
ganha. Minha solução é um pouco radical. Acho
que tinha de ter uma revolução, botar para quebrar.
Mas o brasileiro não quer saber de lutar. Só quer
saber de futebol e de bunda.
Rui Teixeira
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Ocimar
Versolato
ESTILISTA
A
situação está muito melhor hoje. Somos um país
emergente, e todo desenvolvimento tem um preço. Não
se pode apenas culpar o governo. Não há colaboração
da população. FHC é o melhor presidente que
o Brasil já teve. Os escândalos não abalam a
imagem do governo. Pelo contrário, os responsáveis
estão sendo expostos e punidos. Elegemos um líder
para que ele aponte as soluções e devemos acompanhá-lo
até o fim. Também é preciso ter paciência,
pois não se conserta um país em uma semana.
Emanuelle Bernard
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Leila
JOGADORA DE VÔLEI
O
brasileiro reclama, mas a maior arma ainda é o voto. Perdemos
a noção de colocar as pessoas competentes e honestas
para governar. Ao impedirem a CPI da Corrupção, os
políticos mostram que existe muito interesse pessoal. É
preciso uma varredura geral. Eles são uma classe bastante
egoísta. Só de pensar no que eles fazem fico envergonhada.
O primeiro passo para resolver isso é esquecer os interesses
pessoais e todo mundo buscar um objetivo comum, depois mudar os
governantes.
Claudio Rossi
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Alexandre Herchcovitch
ESTILISTA
Em
minha área, o Brasil já chegou ao futuro, mas em outras
continuamos com séculos de atraso. Só se pode atribuir
isso à incompetência dos que governam. Eu me sinto
enganado. E me sinto pior porque tenho certeza de que muitos que
agora saíram escorraçados vão voltar em breve
como se nada tivesse acontecido. A solução que vejo
é que os políticos ponham os interesses da nação
à frente dos seus interesses particulares e que as pessoas
aprendam a votar melhor.
Leo Feltran
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Gloria Kalil
CONSULTORA DE MODA
Talvez
essa história de país do futuro se deva ao crescimento
dos anos 40 aos 60. Mas a gente já foi o país do futuro.
Nos anos 70, havia uma expectativa quanto a isso. Foi uma ilusão.
Políticos de países que não dão as cartas
viraram fantoches de economias e organizações poderosas.
Economistas mandam mais que os políticos. Não sei
qual a solução. A situação escapou do
domínio da política, em que as regras e a ética
são conhecidas, para cair na mão do mercado. A ética
do mercado é o lucro.
Rogério Montenegro
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Mailson da Nóbrega
EX-MINISTRO DA FAZENDA
O
futuro está chegando. O Brasil está entre as cinco
nações de maior crescimento econômico. Mas o
grau de desenvolvimento não deve ser medido somente pelo
PIB. A democracia é fundamental. Poucos países tiveram
presidentes com a visão e a base intelectual de Fernando
Henrique Cardoso. Contudo, seu governo também erra. Errou
na crise energética e ao não fazer a reforma tributária.
Mas não há receitas. Temos de investir em educação
e fazer mudanças profundas na política.
Egberto Nogueira
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Silvano Raia
MÉDICO E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE
SÃO PAULO
O
Brasil tem um potencial que, infelizmente, não se concretizou.
Por isso surgem previsões otimistas para contrabalançar
frustrações. Crescimento não depende apenas
de potencial e otimismo, mas também de vontade e capacidade.
Aí está nosso trunfo. Temos sensibilidade e solidariedade
exemplares, evidências de maturidade. Mas fico perplexo com
os ataques e contra-ataques pessoais e com a disseminação
da corrupção. A reação positiva é
que nunca se valorizou tanto a ética na política.
Cida Souza
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Zélia Gattai
ESCRITORA
Não
devemos estabelecer prazo para o Brasil. Sou otimista. Vamos crescer
cada vez mais. Mas fico preocupada. O racionamento de energia me
fez sentir uma punhalada nas costas. É o mesmo sentimento
da época em que o ex-presidente Fernando Collor de Mello
confiscou a poupança. De uma hora para outra, somos avisados
de que não podemos abrir a geladeira ou ligar a televisão.
A solução não está nas mãos apenas
dos governantes, mas de todos nós. Cada um deve fazer sua
parte.
Heloisa Bortz
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Márcio Thomaz Bastos
ADVOGADO
Houve
equívocos e apostas erradas por décadas. No governo
FHC, as coisas se agravaram. Em nome da queda da inflação,
o governo vendeu a alma ao diabo. Acho que nenhum partido formulou
um projeto acabado e alternativo ao que existe aí. A previsão
é que o próximo governo possa, pelo milagre da democracia,
articular um programa que privilegie o interesse das maiorias, com
investimentos em educação, redistribuição
de renda e consumidores que criem um modelo auto-sustentável.
Alexandre Battibugli
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Tostão
COMENTARISTA E EX-JOGADOR DE FUTEBOL
O
problema é ter uma elite que nunca quis distribuir a riqueza.
Usufrui benesses, enche os bolsos e não divide nada. Mas
acho que isso está mudando. A corrupção, a
incompetência, a troca de favores chegaram a um limite, e
os políticos estão percebendo isso. Eu me sinto ao
mesmo tempo indignado e esperançoso. Há um início,
lento mas progressivo, de mudança. Não tenho ilusões:
serão necessárias mais duas gerações,
pelo menos, para que o Brasil venha a ser um país mais justo.
Eugenio Savio
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Roberto Drummond
ESCRITOR
O
Brasil já é o país do futuro. O problema é
que não somos capazes de ver isso. Temos tendência
à autoflagelação. Em vez de enxergar as coisas
maravilhosas que há em nosso país, sofremos com os
defeitos, exagerando-os. Em relação aos políticos,
sinto um grande mal-estar, uma descrença cada vez maior.
Tudo o que temos de bom existe, eu diria, apesar dos políticos.
A resposta está aí: é a mobilização
da população. Nada me empolga mais que isso.
Clóvis Ferreira
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Boris Fausto
HISTORIADOR
Não
acho que há um futuro que não chega. Ele vem aos poucos.
Podemos notar avanços. Temos uma sociedade mais articulada
e conseguimos, apesar dos arranhões, a democracia. Faltam
a construção de instituições e partidos
fortes. Infelizmente, ainda ocorre o inverso. O momento é
crítico, mas podemos ver certos avanços dentro da
própria crise. Um deles é a postura da população
diante do problema da falta de energia. As pessoas economizam mesmo
antes de o racionamento começar.
Oscar Cabral
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Marcelo Yuka
MÚSICO DA BANDA O RAPPA
O
Brasil tem de ser o país do agora. Temos de pensar em mudar
já, agir com mais pressa. Não podemos deitar em cima
dessa história de ser o país do futuro. Eu tenho a
sensação de que estão tentando me fazer de
palhaço. Por isso, tenho mais crença nos movimentos
populares não-partidários. É preciso incentivar
mais o próprio brasileiro, que é tão criativo.
O problema é que poucos políticos se espelham no povo.
Ficam nos escritórios, sem saber o que acontece do lado de
fora.
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