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O país está muito zangado

Pesquisa exclusiva sobre o racionamento
de energia elétrica mostra como está o
humor do brasileiro em relação ao
governo. E ele está péssimo

Adriano Ceolin e Alexandre Secco

 
Ana Araújo

A SOMBRA DA CRISE

. De abril para cá, a avaliação positiva de FHC caiu de 30 para 22 pontos

. A avaliação negativa aumentou
de 28 para 37 pontos

. Ou seja, 19% dos entrevistados trocaram de posição – e para pior



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De todas as crises que o Brasil já atravessou (e não foram poucas), esta é a primeira que começa na cozinha, passa pelo quarto e pela sala e pode ser conferida nas ruas, no trabalho, na casa dos amigos, no supermercado, em toda parte. Da crise de energia ninguém escapa, no sentido físico da palavra. As outras crises começavam lá longe, na Ásia ou na Rússia, assustavam o mercado financeiro, provocavam o aumento do dólar, a explosão dos juros e a fuga do capital estrangeiro. Não era pouca coisa, mas os efeitos dessas fases ruins passavam mais ou menos longe do cidadão comum. Agora é diferente. A família precisa desligar o freezer e fazer economia na máquina de lavar roupa e nas lâmpadas. E a partir da semana que vem os caixas 24 horas funcionarão apenas por dezesseis. Pior: quase certamente vêm por aí os apagões ou o feriado compulsório para economizar energia. O furacão chega ao Brasil nesta segunda-feira, quando começa o racionamento. O brasileiro que já está tomando banho frio pela manhã ainda vai ter o resto do dia para se enfurecer com as notícias de queda de produção nas empresas e cortes nas folhas de pagamento.

A novidade caiu como uma bomba num país que vem sendo atingido por um vendaval de más notícias nos últimos tempos. Poucas vezes se viu o brasileiro, do rico ao pobre, tão irritado com um governo que a opinião pública responsabiliza pela crise da energia. Na semana passada, o instituto de pesquisas Sensus, de Belo Horizonte, anunciou os dados de seu estudo mensal para avaliar o nível de satisfação da população com o governo durante a gestão do presidente Fernando Henrique. As entrevistas foram realizadas entre os dias 18 e 24 de maio, em plena fase de preparação para o racionamento. A imagem do presidente desabou. Em relação à pesquisa feita em abril, sua avaliação positiva caiu de 30 para 22 pontos. Seu índice de avaliação negativa aumentou de 28 para 37 pontos. Ou seja, 19% dos eleitores trocaram de posição – e para pior. Quando se traduzem os números, eles ficam ainda mais assombrosos. Perder 19 pontos porcentuais em trinta dias significa dizer que 20 milhões de eleitores passaram a ter uma visão mais negativa a respeito do governo.

Do ponto de vista técnico, a discussão está encerrada. Ficou óbvio que o governo evitou fazer investimentos na geração de energia nova na certeza de que o ministro da chuva, São Pedro, supriria o país de água. Para tentar aferir o grau de irritação das pessoas em relação a essa falha grave do governo, VEJA encomendou na semana passada uma pesquisa ao instituto Vox Populi, de Belo Horizonte. Foram entrevistadas 1.000 pessoas, em dezesseis Estados, e o resultado é impressionante. A pesquisa apresenta um Brasil ácido em relação ao governo.

A certa altura do levantamento, perguntou-se aos entrevistados qual era a principal marca do governo tucano. A alternativa "é o governo que estabilizou a economia" recebeu 7% das respostas. Venceu o item "é um governo marcado por denúncias de corrupção", apontado por 36% dos entrevistados. De acordo com a pesquisa, apenas 14% disseram confiar plenamente no presidente, e 83% das pessoas se declaram insatisfeitas com o rumo que o país está tomando. Em outro trecho do levantamento do Vox Populi, quando são convidadas a comparar o Brasil com uma imagem, a maioria das pessoas optou por afirmar que o país lembra um caramujo, que anda muito devagar, ou uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. Vê-se que o Brasil atravessa uma crise de auto-estima, com algumas particularidades que a tornam especialmente perversa. Nos tempos da hiperinflação, o país lutava contra um dragão que o mantinha no subdesenvolvimento. Onze planos econômicos fracassaram, e o Brasil saiu pior de cada um deles. A auto-estima da nação estava no nível do chão. Vivia-se num país com 50% de inflação mensal, com a economia fechada e estatizada. Agora, é diferente. "Sabemos que temos as condições e a vontade de fazer, só que o governo não nos deixa fazer", diz o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). "É como se a capacidade empreendedora do brasileiro fosse tirada da tomada."

Apesar desse aspecto negativo ligado à imagem do governo, a pesquisa apresentou pontos muito positivos. Um deles indica a velocidade com que correm as notícias país afora, já que 97% dos entrevistados disseram saber da crise. Outro ponto positivo está ligado à interpretação do sentimento demonstrado na pesquisa. Só se desilude com alguém quem cria expectativas positivas a respeito dessa pessoa. Se a sociedade está frustrada, desiludida, ela dá mostras de que acreditava na capacidade deste governo de resolver problemas. Foi com esse sentimento que o governo mexeu.

Há outro fato relevante. A pesquisa do Vox Populi evidencia que não é expressiva a fatia da população que se deixa enganar facilmente. Pouca gente engoliu a primeira versão difundida por Brasília de que existiria uma relação imediata de causa e efeito entre a falta de chuva e a escassez de energia, como se todo o problema resultasse de crueldade do ministro São Pedro. Mais da metade das pessoas identificam o governo – e não a meteorologia – como o culpado pela crise. Outro aspecto positivo está relacionado às providências antiapagão. De acordo com os dados, 91% dos entrevistados tomaram alguma providência para reduzir o consumo de luz. Quer dizer: o brasileiro sabe que, se colocar em prática sua irritação política, desrespeitando as medidas e não aderindo ao corte, ele pode até imprimir uma derrota eleitoral ao governo federal no ano que vem. Mas agora quem vai ficar no escuro é ele. "O brasileiro reafirma com esse comportamento um traço marcante de sua personalidade: uma incrível frieza e capacidade de adaptação", diz o cientista político Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi.

Essa capacidade de adaptação já foi posta à prova em momentos anteriores com resposta positiva da população. Desde o fim da ditadura, submetido a uma sucessão de planos econômicos, o país mostrou que, em nome de um futuro melhor, compromete o atual conforto sem pestanejar. Em 1986, o presidente José Sarney conseguiu apoio da população ao Plano Cruzado. A moeda mudou, salários e preços foram congelados e decretou-se a moratória da dívida. O mesmo aconteceu no confisco praticado pelo governo Fernando Collor. A sociedade admitiu entregar ao governo a guarda de uma fatia grande do saldo das contas correntes e aplicações financeiras. A população não faltaria depois a Fernando Henrique, quando foi anunciada a unidade real de valor (URV). Houve quem dissesse que o país levaria meses para se adaptar à nova moeda. Precisou apenas de alguns dias.

Há, no entanto, uma diferença essencial entre os demais testes de adaptação e o sacrifício a que o país se submete a partir desta semana. Quando Sarney convocou os brasileiros a controlar os preços, apresentou uma explicação razoável. Ele tentava daquela forma resolver um problema herdado dos governos militares. No instante em que Collor confiscou a poupança, por pior que fosse o remédio, o governo havia montado um discurso crível. Ele precisava consertar os buracos nas contas públicas produzidos pelas aventuras pacoteiras do antecessor. O mesmo aconteceu com Fernando Henrique, quando estabilizou a economia e todo mundo conheceu a URV. Era uma forma de zerar o passado collorido. Mas e agora? Que desculpa o governo tucano pode dar ao país se foi ele próprio quem produziu a crise da energia? Por ausência de explicação aceitável, o presidente está pagando com uma queda sensível nos indicadores de popularidade.

A respeito dos dados, existem duas leituras complementares. Uma delas é estimulada pelos tucanos e diz respeito à capacidade de reação do presidente. Em outras ocasiões, Fernando Henrique já conseguiu reverter baixas de popularidade quando ninguém acreditava que isso seria possível. Por que não conseguiria fazer isso novamente alavancando uma candidatura oficial apoiada por ele? A outra leitura leva em conta o momento atual. Falta apenas um ano e cinco meses para a eleição, e o Brasil ficará na penumbra (se não houver apagão) pelo menos até o início do ano que vem, a nove meses do pleito. Haverá, portanto, tempo suficiente para o governo reagir. Se a crise for debelada com sucesso, o que é altamente improvável, o governo poderá até sair da fase negra com uma imagem positiva – a de quem enfrenta diculdades com coragem e competência.

Nos três primeiros anos de governo, entre 1995 e 1997, a popularidade do presidente parecia guiar-se por uma espécie de metrônomo político. Atingia o patamar mais baixo invariavelmente nos meses de maio e junho e chegava ao máximo sempre entre os meses de setembro e dezembro. Tudo mudou em 1998, especificamente no segundo semestre, instante em que duas crises se misturaram: uma externa, a da moratória russa, e outra doméstica, a pressão pela desvalorização do câmbio, como forma de impedir que a moeda estrangeira fugisse do Brasil. Havia ainda a campanha da reeleição. A conseqüência foi uma queda expressiva da popularidade de FHC. Quando o presidente chegou ao fundo do poço, em setembro de 1999, sua taxa de avaliação negativa bateu em 65 pontos, contra 8 de avaliação positiva. Era, portanto, um momento muito pior para FHC do que hoje. O futuro próximo dirá se os atuais índices cairão ainda mais ou não. Se começarem os apagões, a tendência é de queda a uma profundidade ainda impossível de vislumbrar.

Na mesma semana em que cancelou durante dois dias consecutivos as entrevistas diárias que costumam ocorrer no Palácio do Planalto, o presidente passou por grande constrangimento ao comparecer à posse do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello. FHC assistiu à transformação da solenidade num ato de protesto contra seu governo. Do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Rubens Approbato, vieram os ataques mais duros. Ele listou dez críticas ao governo, entre elas a exigência de investigação para as denúncias de corrupção, o uso abusivo de medidas provisórias e "o terror das incertezas provocadas por ameaçadores apagões". Approbato é um crítico permanente do governo, quer as coisas andem bem ou andem mal. Mas o fato de ter recebido palanque numa cerimônia do Supremo, à qual compareceria o chefe de governo, é sintomático. Seu discurso, para constrangimento de FHC, foi interrompido algumas vezes por aplausos. A platéia era formada por advogados, juízes e parentes de ministros.

Em qualquer país do mundo, a popularidade de um governante é um instrumento de trabalho que serve não só a ele, mas também à sociedade. A experiência mostra que apenas um presidente popular consegue aprovar no Parlamento as medidas prometidas em campanha. Ou seja, a relação entre o eleitor e o presidente é um sistema de mão dupla. De um lado, a opinião pública dá ao governante a sustentação de que ele precisa para enfrentar resistências no Congresso. No outro sentido, o governante se fortalece para aprovar as leis de interesse do eleitorado. O presidente Fernando Henrique conhece bem o sucesso e o fracasso desse modelo. No primeiro mandato, extremamente popular, aprovou um pacote abrangente de reformas – incluindo a bem-sucedida privatização do sistema Telebrás. No segundo mandato, com um índice de aprovação mais baixo, o programa de reformas emperrou. A popularidade é decisiva na relação de barganha com os deputados e senadores. Presidentes populares não precisam abrir o caixa para liberar verbas e não necessitam lotear o governo para atender a interesses partidários confessáveis e outros nem tanto. "O presidente precisa cultivar o apoio popular para usá-lo como pressão sobre sua base de sustentação política", afirma o cientista político Sérgio Abranches.

As pesquisas mostram que a popularidade dos governantes sofre abalos em duas situações: nas crises políticas e nas crises econômicas. Quando a crise se restringe ao microcosmo de Brasília, a imagem do presidente pode ser arranhada, mas de leve. Nas crises econômicas, o governo desce ao purgatório – ou mesmo ao inferno. É o que está acontecendo agora. Numa crise que afeta mais fortemente outros políticos de Brasília, como as denúncias de desvio de verbas na Sudam e na Sudene e a quebra do sigilo do painel do Senado, a popularidade do presidente só fez subir. Em março, chegou ao auge em comparação a avaliações anteriores durante todo o segundo mandato. Bastou aparecer a crise energética, e com ela a ameaça de desemprego e recessão, para o ânimo do eleitor mudar. A preocupação da sociedade com sua estabilidade econômica é tão determinante que um levantamento do instituto Latinobarómetro mostra que 50% da população da América Latina concorda em abrir mão da democracia em troca de desenvolvimento e progresso.

Nos Estados Unidos e nos países ricos da Europa, a popularidade dos governantes é levada mais a sério que muitas outras questões de maior importância para cada nação. Mesmo contrariando interesses muito fortes no Congresso, o presidente George Bush conseguiu aprovar seu polêmico projeto de redução de impostos para os próximos dez anos, proeza que os analistas atribuem à aprovação popular de que desfruta quase todo governante que acabou de assumir e ainda não teve tempo de frustrar as esperanças dos eleitores. Mas é raro achar no Primeiro Mundo presidentes cuja popularidade sofra do efeito gangorra, comum no Brasil e na América Latina. A popularidade do presidente Bill Clinton variou no máximo 15 pontos entre seu melhor e seu pior momento. No caso de José María Aznar, primeiro-ministro espanhol, a variação entre o momento de baixa e o de alta ronda a casa dos 12 pontos. O motivo é claro: as ações desses governantes dificilmente produzem grandes surpresas. Nesses países, a democracia é mais sedimentada, os partidos votam como se espera que votem, o orçamento não é peça de ficção e as promessas de campanha costumam ser perseguidas. O eleitorado acaba julgando o desempenho dos governantes com base em uma média de erros e acertos.

Na opinião dos estudiosos, é natural que as pessoas sejam especialmente severas na avaliação que fazem sobre o governo Fernando Henrique. Em primeiro lugar, porque deram a ele o que não deram a presidente algum. Dos 33 presidentes da vida republicana brasileira, ele foi o primeiro a ser reeleito. Ao assumir o segundo mandato, FHC perdeu o direito de recorrer às desculpas clássicas dos recém-chegados. Ele não podia dizer que o antecessor deixara crises no armário. Não podia argumentar que precisava de tempo para se informar sobre os problemas. Não podia ainda alegar que o tempo de um mandato, quatro anos, é curto para resolver tudo. Há outro aspecto a considerar. Muitas vezes, a impressão que as pessoas têm é mais forte que os fatos objetivos que elas observam. Isso interfere muito na popularidade de um presidente. Um exemplo são as freqüentes denúncias de corrupção, dando a alguns a impressão de que o atual governo estaria mergulhado num mar de lama. Como ainda não inventaram o corruptômetro para comparar desonestidades, vale a impressão de quem estuda o problema. E ela pode ser resumida na frase do ex-ministro Mailson da Nóbrega: "Esse governo é menos corrupto que os outros. A corrupção aparece mais porque está sendo combatida".

Como tudo neste mundo, a fase de racionamento de energia tem um lado positivo. As pessoas deixavam várias luzes acesas no mesmo cômodo, levavam meia hora no banho quente, dormiam com a televisão ligada. Pode-se ter certeza de que a atenção para o desperdício foi levantada de forma aguda. Acredita-se que antes mesmo do final desta crise de energia, seja lá quando for, o país terá adquirido hábitos responsáveis para evitar desperdícios não apenas de energia. Calcula-se que em São Paulo cerca de 40% da água tratada vaze pelas tubulações e não chegue aos consumidores. Em Cuiabá esse índice alcança 53%. De acordo com um levantamento feito pelo Ministério da Agricultura, o desperdício na produção de grãos (incluindo colheita, transporte e armazenamento) gira ao redor dos 25%. "Na Europa os conceitos da população foram mudados à base de guerra", diz o historiador Luiz Felipe de Alencastro. "Por sorte o Brasil aprende as lições de forma bem menos dolorosa."

 

Com reportagem de Ângela Nunes

 



 
 





Fotos Sérgio Dutti/Régis Filho

   
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