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Gustavo
Franco
Racionamento racional
"O
governo tem diante de
si um problema
e um pacote em andamento. O desgaste
decorrente da crise já está contabilizado
no passivo. Um pacote bem-sucedido pode
empatar ou mesmo virar o jogo"
Ilustração Ale Setti
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As políticas do governo para resolver o problema de escassez de
eletricidade trazem algumas inquietantes semelhanças com os pacotões
do passado. Há semelhanças óbvias com os "choques
do petróleo", pois envolvem o encarecimento de um insumo energético
essencial. Parecem com o bloqueio de cruzados, porque há um mal
universal infligido à sociedade e uma infinidade de situações
especiais merecedoras de "torneirinhas". Observam-se indícios de
Plano Cruzado quando começam recriminações de natureza
policialesca aos setores eletrointensivos, já tratados à
boca pequena como os pecuaristas de 1986. E, pelo lado bom, o comportamento
da população lembra a experiência da URV, pois um
problema complexo foi perfeitamente entendido e a disposição
para colaborar foi decisiva, como será desta vez.
O fato é
que o governo tem diante de si um problema e um pacote em andamento. O
desgaste decorrente da crise já está contabilizado no passivo.
Um pacote bem-sucedido pode empatar ou mesmo virar o jogo. Mas, como somos
todos sócios no fracasso, acho bom gastarmos o melhor de nosso
tempo pensando em soluções.
Na semana
retrasada, neste espaço, procurei chamar a atenção
para o mecanismo concebido pelo Protocolo de Kioto para "racionar" dióxido
de carbono (CO2) por meio de certificados negociáveis,
pois nosso problema energético pode ser tratado exatamente dessa
maneira.
Durante
as duas semanas que se seguiram, os professores Eustáquio Reis,
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e Paulo Rabello
de Castro, do Instituto Atlântico, avançaram nesse mesmo
caminho, o primeiro propondo um "vale-quilowatt", o segundo um "certificado
de poupança de energia". Ambos são economistas de sólida
formação teórica, que conhecem bem um trabalho clássico
sobre racionamento escrito pelo economista inglês R.A. Radford,
em 1945, a propósito de sua experiência como prisioneiro
de guerra em campos onde se desenvolveram mecanismos extremamente sofisticados
de troca de mercadorias cuja oferta era fixa.
Na verdade,
não é nada muito diferente disso que estamos enfrentando:
o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) deve determinar qual
o nível de consumo que se quer, assim tornando fixa a oferta de
eletricidade, como eram as quantidades de cigarros, lâminas de barbear
e queijo nos campos de prisioneiros. O problema, então, passa a
ser encontrar o melhor modo de distribuir essa quantidade a fim de minimizar
o dano. Na verdade, os ganhos de racionalização podem ser
de tal ordem que o problema pode revelar-se bem menor do que hoje aparenta.
Fazendo
aqui uma pequena mistura do que propuseram os professores, eu incluído,
e de idéias que estão no ar em Brasília, o que se
vislumbra é que as distribuidoras de energia, atuando em consonância
com os órgãos reguladores, sejam capazes de enviar, junto
com a próxima conta de luz, um voucher garantindo ao usuário
o direito de consumir, digamos, 80% do que foi registrado no mesmo mês
do ano anterior. As contas de luz só podem ser pagas quando acompanhadas
desses vouchers na mesma quantidade de quilowatts consumidos. Se
o indivíduo gastou mais, vai ter de comprar voucher de alguém
para conseguir pagar sua conta de luz. Se consumiu menos, vai ter sobras
para vender ou guardar para o mês seguinte.
É
fácil ver que a liquidez desses instrumentos vai ser grande, e
a formação de preços pode ser bem transparente. Note-se
que, nesse esquema, aquele que exagerou no consumo não vai pagar
nenhuma sobretaxa ao governo, mas vai ter de "remunerar" alguém
que fez a coisa certa, ou seja, economizou energia além do que
era requerido.
Muitos poderão
fazer disso um negócio, e não há nada de errado com
isso. Muitas indústrias podem preferir vender a energia que geram,
ou que já compraram em contratos de prazo longo, a usá-la
para produzir. Parece estranho, mas é perfeitamente racional em
vista do sinal emitido pelos preços. Quanto mais limpidamente o
governo deixar esses sinais fluírem pela economia, melhor será
a alocação da energia existente, menor a escassez, menores
o desgaste e a chateação.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com)
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