
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Uma crise de verdade
Cleo Velleda/Folha Imagem
 |
| Protestos
contra o racionamento de energia: "forças colossais" |
Fernand Braudel,
o célebre historiador francês morto em 1985, aos 83 anos,
é autor de uma obra monumental baseada numa idéia simples
e muito adequada para entender o Brasil de hoje. Braudel sustentava que
a personalidade dos dirigentes, o acerto de suas políticas econômicas
e o grau de crueldade ou humanismo dos regimes que eles comandam são
apenas forças secundárias da história. O elemento
determinante mesmo, escreveu o sábio francês, são
os embaraços da vida material, como a escassez de comida ou a dificuldade
de obter proteção adequada contra o frio. Quando, por alguma
razão, o cotidiano é mudado de maneira abrupta para pior,
os regimes enfrentam suas verdadeiras crises. Braudel testou sua teoria
num estudo famoso sobre a monarquia francesa dos reis Capeto, aquela que
perdeu o reino e o pescoço na guilhotina no lance derradeiro da
Revolução Francesa de 1789. Sua conclusão: a monarquia
francesa teria mais chance de ter sobrevivido sem maiores sobressaltos
se "as colossais forças da natureza" no caso uma pequena
glaciação que produziu invernos rigorosíssimos
não tivessem determinado o ciclo infindável de más
safras que tirou do povo a última gota de esperança em um
futuro menos doloroso.
O Brasil
não é a França pré-revolucionária nem
o presidente Fernando Henrique Cardoso pode ser, em boa fé, comparado
a um tirano, muito ao contrário. Mas as leis da amargura dos povos
descritas por Braudel permanecem atuais. Os reis franceses se tornaram
cada vez mais dependentes do clima para trazer boas safras. O governo
brasileiro contou e conta com a boa vontade do clima para trazer chuvas.
Só elas podem encher os reservatórios das usinas hidrelétricas
e afastar o fantasma dos apagões. Uma pesquisa exclusiva encomendada
por VEJA ao instituto Vox Populi mostra que os brasileiros estão
num estado de beligerância com o governo que só se explica
pela entrada da crise energética nas salas, nos quartos, nas cozinhas
e no trabalho de cada brasileiro. Enfim, depois de tantos vendavais movidos
a oportunismo das oposições, o governo Fernando Henrique
enfrenta uma crise real. Veja
reportagem.
|
|
 |