O fantasma da fome

Desamparados pelos governos e à mercê da chuva
que não vem, centenas de milhares de brasileiros vivem
sob a ameaça de não ter o que comer no dia seguinte

Fotos: Egberto Nogueira
Soledade, Paraíba

O nome é Vicente. Tem 14 anos e vive com a família em Acari, cidade do Rio Grande do Norte. A grande seca deixou os pais e os irmãos de Vicente com um problema: comer. Vicente é um menino esperto, de olhos vivos. Tem inteligência incomum e visão das coisas surpreendentemente madura para um rapaz da sua idade. Sua experiência de vida, em Acari, é muito diferente da que tiveram os adolescentes que vivem no sul do país. Já saqueou lojas, no meio da multidão. Seu pai estava junto dele nesses ataques. Vicente defende o saque dizendo que a pessoa com fome tem o direito de se apropriar da comida, seja ela de quem for, esteja onde estiver.

O personagem descrito nas dezoito linhas acima saqueou armazéns no distante ano de 1970. Hoje tem 42 anos de idade, mas ainda conserva o apelido da infância, Vicentinho. Vicente Paulo da Silva, o presidente da Central Única dos Trabalhadores, metalúrgico há muitos anos e brasileiro com origem e história que estão longe de constituir exceção. Neste exato momento, milhares de Vicentinhos estão experimentando a mordida da fome no semi-árido nordestino. Ainda comem regularmente, mas comem pouco, muito menos do que gostariam ou, mais grave, do que necessitam para se manter medianamente nutridos. A situação na área seca do Nordeste é tenebrosa. A fome está apenas começando em alguns municípios mais castigados. Mas deve piorar. Não há sinal de chuva, nem previsão de que venha. E a assistência emergencial, montada pelas autoridades, especialmente as de Brasília, só começou a ser planejada quando o problema ficou sério e chegou ao noticiário. Exatamente como aconteceu no caso do incêndio em Roraima.

Um açude seco
na Paraíba: a
fome começa a
torturar os
nordestinos, e
pode piorar

A seca não apenas é previsível como obedece a um ciclo físico perfeitamente regular. A pior veio em 1877. Arreganhou sua carranca braba nos céus do sertão e ceifou a vida de 57.000 nordestinos. Quando soube da tragédia, diz a História que dom Pedro II chorou. Neste século, ela já irrompeu 23 vezes. Nunca mais foi tão devastadora como há 121 anos, mas sempre deixou seu rastro horrendo -- miséria aguda, doenças ou epidemias, enormes migrações, choro e desespero. Desta vez, como espectro sinistro, ela lança sua ameaça sobre 10 milhões de nordestinos em 1.209 cidades. Já é a pior dos últimos quinze anos. Se o sol continuar inclemente pode vir a ser tão cruel quanto a de 1983, a mais devastadora deste século. Até agora, torrou 57% da safra do Nordeste, principalmente de arroz, feijão e milho, gerando perda de 2 milhões de toneladas de grãos, comida suficiente para alimentar 1 milhão de famílias por quase cinco anos. O prejuízo, calcula-se, já chega a 4,7 bilhões de reais, ou quase 5% do PIB do Nordeste. Difícil de calcular é o sofrimento do sertanejo. A seca, a estiagem, a maldita, sempre traz outro horror. Pode-se chamá-lo de grande apetite de comer, urgência de alimento, míngua de víveres. Ou simplesmente de fome. E a fome está começando a torturar a barriga de milhares de vítimas da seca.

O agricultor Severino José dos Santos, de 59 anos, morador de Tabira, no sertão de Pernambuco, teve sua pequena horta de milho e feijão destruída. A família resolveu comer a palma, um cacto repleto de espinhos que serve normalmente para alimentar o gado. Sua mulher, Maria do Carmo da Silva, 47 anos, dá a receita. "Raspei os espinhos, passei em seis águas para tirar a baba verde da planta e cozinhei com sal. Depois, dei para a família provar. Todo mundo fez cara feia, mas, pelo menos, ficou de barriga cheia." A palma ingerida parece inchar no estômago. Faz peso. Ajuda. Os cinco filhos da casal agüentam o gosto ruim, mas Severino não consegue engolir. Às vezes, o cardápio é reforçado com uma sopa rala feita com ossos de boi, que Severino ganha dos comerciantes. Outras vezes, a situação fica terrível. "Quando falta comida mesmo, a gente põe os meninos para correr atrás dos calangos. Mas é difícil, tem de ficar o dia inteiro correndo porque esses bichos correm demais", conta a mulher. A família está sem dinheiro. Não consegue pagar nem a conta de luz. Custa 1,34 real.

Na semana passada, o céu azul dava calafrios em Antônia Maria de Jesus, de 56 anos. Ela olhava para aquele espaço límpido, sem nuvens, em Ribeira do Pombal, no interior da Bahia, um atestado de que não choverá tão cedo. "Comprei 2 quilos de feijão e esse tantinho de carne", diz, exibindo duas peças de acém, um pedaço de carne de segunda. "Dá para hoje, talvez até amanhã. Depois, não sei mais." Em Irauçuba, cidade do interior do Ceará, o agricultor Onofre Rodrigues de Lima, 46 anos, nem chegou a plantar. Em volta de sua casa, o campo não parece tão seco. "É uma enganação esse matinho: nesse chão não dá nada sem chuva", desabafa. Na semana passada, comeu com a família o último prato de feijão.

Com o fantasma da miséria e da fome rondando o Nordeste e o norte de Minas Gerais, é inacreditável que nenhum dos candidatos à Presidência da República tenha aparecido na região. Fernando Henrique Cardoso, que costuma ser associado pelos adversários a qualquer tipo de catástrofe natural que ocorra no Brasil, não apareceu no semi-árido nem ao menos para dar uma olhada. Luís Inácio Lula da Silva também não deu o ar de sua graça. Logo Lula que nas últimas eleições inventou aquela história da "caravana da cidadania", na qual excursionava pelas bordas do Brasil, sempre acompanhado por hordas de repórteres e fotógrafos interessados em flagrar seu encontro com os excluídos. Leonel Brizola não apareceu. Nem Ciro Gomes. Fernando Collor, até ELLE, retornou ao Brasil de Miami como pretenso candidato -- mas desembarcou por São Paulo, Rio e Brasília. Sendo de Alagoas, não quis saber de lugares onde faltam água e comida. E, no entanto, que grande gesto para um político, qualquer um, seria desfilar compungido pelas estradas poeirentas da seca nordestina, entre os brasileiros que lá vivem, os deserdados da sorte e da riqueza. Depois que a imprensa noticiou a seca, o presidente Fernando Henrique anunciou na semana passada que, finalmente, irá ao Nordeste. Lula disse o mesmo.

Afogados da Ingazeira, Pernambuco
O pedreiro Antonio Morato da Silva, 33 anos, pai de quatro filhos: às 6 horas da manhã do dia 16 de abril, junto com mais 500 pessoas, o pedreiro foi até o armazém onde estavam estocados os alimentos do Comunidade Solidária e fez um saque. Levou para casa 25 quilos de arroz e quase 50 de macarrão

A dureza da seca pode, às vezes, dar a impressão de que a tragédia está em toda a parte. Mas é falso imaginar que todo o Nordeste passa fome. Na área atingida pela seca, equivalente a três vezes a área do Estado de São Paulo, vivem 18 milhões de habitantes. Desse total, 10 milhões moram na zona rural, a área onde o problema realmente acontece, já que os habitantes das cidades não dependem de roçados para fazer duas refeições por dia. Estima-se que nesse grupo de 10 milhões haja perto de 1 milhão de brasileiros indefesos em épocas de secas mais fortes como esta. Não quer dizer que estejam morrendo de fome. Não há, no Nordeste, aquelas pessoas esquálidas das fomes históricas, que aparecem nas fotos com uma camada finíssima de pele enrugada sobre o esqueleto totalmente visível. Mas os nordestinos da seca já estão começando a experimentar a sensação de estômago vazio dia após dia, noite após noite. E a situação pode ficar escandalosamente pior.

Na Paraíba, o governo estima que 150.000 pessoas estejam fazendo apenas uma refeição por dia e 30.000 comam uma única vez dia sim, dia não. Em Alagoas, a situação é mais crítica. No alto sertão do Estado, 20.000 pessoas alimentam-se apenas duas vezes por semana. No Piauí, calcula-se que 124.000 camponeses só comem se alguém lhes der alimento. Atravessa-se agora o momento inicial da seca. Se não chover, a vida do sertanejo tende a piorar cada vez mais. É aí que ele sai do seu casebre nos cafundós do semi-árido nordestino e foge para as cidades, em busca de abrigo em casa de parentes urbanos. Ou migra para a periferia (leia-se favelas) das cidades maiores, onde passa dificuldades mas consegue colocar alguma coisa no estômago. Quando a seca aperta demais, há uma transição dramática da fome nutricional para a fome aguda, esse é o problema. No semi-árido nordestino, mesmo sem a presença da seca, as pessoas comem muito mal, abaixo daquilo de que seu organismo necessita. Ou seja, há sempre um estado latente de fome suportável, no qual as pessoas vivem fracas, sujeitas a pegar doenças com mais facilidade, especialmente as crianças. O índice de mortalidade infantil nessas áreas, em boa parte devido à desnutrição, é muito mais elevado do que no resto do país.

Barro, Ceará
O casal Antônio Lucas Lúcio, 76 anos, e Maria Dolores de Oliveira, 75, ainda tem feijão para comer. Eles encarnam a própria história da seca. "A seca de 1932 foi ruim. A de 1970 também. Esta está parecendo com a de 1932", diz ele, que, junto com a mulher, planta, colhe e debulha feijão.
Foto: Ana Araujo  

É isso que torna a seca mais perversa. Ela mistura seu fardo de miséria nova a uma velha miséria. O Nordeste concentra a maior parte dos subnutridos do país. Na zona rural, uma em cada quatro crianças nasce desnutrida, contra a média nacional de uma criança em cada dez. Entre a população adulta, a Organização Mundial de Saúde, OMS, admite como razoável que de 3% a 5% tenham relação de peso e altura abaixo do normal. No Brasil inteiro, a única taxa que foge desse padrão é a do Nordeste, que beira os 10%. "É virtualmente a única região do Brasil onde há fome crônica", afirma Carlos Augusto Monteiro, coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo. Um ser humano deve consumir por dia cerca de 2.500 calorias, dependendo da idade, peso e altura. Mesmo que não faça nada, durma o dia inteiro, precisa ingerir 1.500 calorias. No Nordeste, quando a seca avança, o consumo médio chega a ser de 1.400 calorias, abaixo do mínimo necessário. Nas áreas mais castigadas pela falta de água, às vezes o consumo calórico cai para 500. É um desastre orgânico de proporções gigantescas. Nos campos de trabalho da Alemanha nazista, consumiam-se 900 calorias por dia. Nas aldeias de refugiados da Etiópia, a ração diária era de 700 calorias e, nas horas mais cruéis, caía para apenas 200 -- um massacre.

Tabira, Pernambuco
Maria do Carmo da Silva, 47 anos,
mãe de cinco filhos, corta palma para
comer. A sua receita: "Raspei os
espinhos, passei em seis águas para
tirar a baba verde e cozinhei com sal.
Todo mundo fez cara feia, mas, pelo
menos, ficou de barriga cheia".

O Nordeste não é uma Etiópia, mas, quando o consumo de calorias baixa para o patamar de 500 ao dia em certas áreas e em certos grupos, o corpo alimenta-se de si mesmo. Primeiro, devora a reserva de gordura, depois ataca o estoque de energia dos músculos. É um processo que, aliado a algum esforço físico, como andar quilômetros em busca de água, evolui para o chamado "marasmo", situação em que a pessoa tem fraqueza extrema, vira só pele e osso e mal consegue raciocinar. Mesmo nas favelas paulistas, onde mora 1,9 milhão de pessoas, o problema não tem essa gravidade. São pessoas pobres, mas que conseguem alimentar-se. Na pior das hipóteses, podem pedir um pedaço de pão na padaria da esquina, esmolar nas ruas ou freqüentar um sopão. No sertão, não há padaria na esquina, sopão, nem esmola. Em Soledade, no interior da Paraíba, Martinho Caetano, 60 anos, pai de doze filhos, ganha 75 reais por mês como vigia de um dos poços públicos da cidade. Mesmo trabalhando com água, Caetano sofre com a estiagem. "Nunca vi seca tão ruim. Quando a coisa fica feia mesmo, eu finjo que a água salobra é Sonrisal e bebo de olhos fechados", diz ele.

A região da seca no Nordeste é o semi-árido mais populoso do mundo. Em todos lugares secos do planeta, vivem apenas populações rarefeitas, que se concentram em áreas onde existe água, como os oásis do deserto, ou onde há uma estrutura capaz de fornecer alternativas contra as agruras permanentes do meio ambiente. No caso do Nordeste, é diferente. Não se criam alternativas eficazes contra a tragédia porque a seca não se repete todos os anos. Sabe-se, desde o século passado, que as grandes secas retornam regularmente, com precisão de relógio, a cada doze a catorze anos. Ou seja, as secas pequenas podem ir e vir sem grandes problemas. Mas a cada ciclo de treze anos uma seca satânica faz seu ataque. Mais recentemente, descobriu-se que esses ciclos coincidem com as enchentes no Sul e os incêndios do extremo Norte, que torram a savana de Roraima. Quem mobiliza essas forças da natureza é o famoso El Niño, fenômeno que altera o clima em quase todos os cantos do mundo. Também se sabe que as secas duram de dois a três anos. Outro dado conhecido é que não falta água no Nordeste. O mínimo, segundo a ONU, são 2.000 metros cúbicos de água por habitante. No Nordeste, há 4.300 metros cúbicos. Há um mar de água doce no subsolo nordestino. E há também grande quantidade em açudes. O que falta é controlar a captação e distribuir a água toda.

É claro que, no Brasil, país pobre, com tantas urgências, é difícil explorar lençóis de água, erguer barragens subterrâneas ou fazer a transposição das águas do Rio São Francisco para as áreas secas, projeto de 1 bilhão de reais. Para combater os efeitos da estiagem, além de construir umas coisas, é preciso destruir outras -- como a velha indústria da seca, em torno da qual se aglutinam os coronéis da oligarquia rural. Entre os 513 deputados federais, 151 são do Nordeste, e a grande maioria tem sua base eleitoral em municípios da seca. Ainda assim, apenas 10% das emendas que esses deputados sugerem ao Orçamento da União são para combater a seca. Os outros 90%, em média, destinam-se a obras eleitoreiras, como quadras esportivas ou chafarizes nas praças, coisas que dão visibilidade e rendem votos.

Se combater a seca de forma a eliminá-la é uma coisa complexa, lutar contra seus efeitos imediatos é de uma simplicidade atroz. Neste momento, a prioridade é mandar o carro-pipa e abastecer o armazém local de comida ou, numa versão mais atualizada, distribuir cestas básicas e frentes de trabalho, para que as vítimas tenham algum dinheiro no bolso. O dado estarrecedor é que, sendo a seca previsível, nada se tenha feito para tomar as providências que remedeiam a fome. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais vinha alertando desde outubro que a seca seria forte. E, no entanto, só nas últimas semanas foi que se viu a correria para apagar esse incêndio nordestino.

Ribeira do Pombal, Bahia
Antonia Maria de Jesus, 56 anos, nem plantou sua roça por falta
de chuva. Em vez disso, trançou
rede e vendeu. "Comprei 2
quilos de feijão e esse tantinho
de carne", diz, exibindo as peças
de acém. "Dá para hoje, talvez até
amanhã. Depois, não sei."
Foto: Fernando Vivas  

O Palácio do Planalto tem seu quinhão de responsabilidade nesse descuido. Ocupou-se de muitos assuntos, como a reforma do carro-pipa ministerial ou a distribuição das cestas básicas de poder entre os partidos de Paulo Maluf, Orestes Quércia e Jorge Bornhausen. Na semana passada, com a morte do deputado Luís Eduardo Magalhães, o Planalto tentava abrir uma nova frente de trabalho para o deputado pefelista Inocêncio Oliveira como novo líder do governo na Câmara. Como no incêndio florestal em Roraima, o Planalto só acordou depois que a seca foi parar nas manchetes dos jornais e nas imagens da TV. Aí, e só aí, começou uma mobilização para montar um plano de emergência e distribuir 1 milhão de cestas básicas. "O presidente quer rapidez. Não quer parecer complacente com o problema", dizia Sérgio Moreira, o novo comandante da Sudene, o órgão de desenvolvimento do Nordeste. Até então, o Comunidade Solidária, programa que tem como uma de suas metas atender gente com fome, estava presente em apenas 200 cidades dos 1.200 municípios atacados pela seca. A manifestação mais eloqüente do governo na semana passada foi para condenar os saques a supermercados e quem os estimula. "É irresponsável que líderes políticos incitem o saque. É demagogia, e a pior demagogia é a demagogia com o pobre", afirmou o presidente Fernando Henrique.

Foto: Ana Araujo
Irauçuba, Ceará
O agricultor Onofre Rodrigues de Lima, 46 anos, que
também não plantou nada, certo de que não ia adiantar
mesmo. "Não dá para plantar nem feijão", diz. Na
semana passada, comeu com a família o último
prato de feijão tirado de seu estoque. Não sabia
o que comeria daí em diante.

O presidente tem razão. Quando bispos da CNBB e líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra justificam publicamente os saques a supermercados, como fizeram na semana passada, isso pode incitar as pessoas a promover badernas. Mesmo as que não estão passando fome costumam engrossar esses saques quando há lideranças que as conduzam. O saque, além do mais, pode perturbar a organização da assistência social quando uma pessoa participa dele apenas para melhor garantir seu estoque doméstico. Mas é o saque, em muitos casos, que ajuda alguns a atravessar alguns dias. No casebre do pedreiro Antonio Morato da Silva, de 33 anos, em Afogados da Ingazeira, a 380 quilômetros do Recife, seus quatro filhos pequenos só estavam comendo na semana passada o que o pai arranjou num saque ao armazém onde o Comunidade Solidária estocava alimentos. No dia 16 de abril, às 6 da manhã, ao lado de outras 500 pessoas, ele invadiu o prédio e saiu de lá com 25 quilos de arroz e quase 50 de macarrão. "O peso era tanto que eu caí várias vezes com os sacos na cabeça. Nem reclamei. Eu estava feliz", conta. Quem não faria o mesmo vendo seus filhos chorando de fome? Há séculos, as diversas doutrinas religiosas defendem que é legítimo roubar para comer. Em comum, os preceitos católicos, protestantes e judaicos defendem a vida como o principal dom dado por Deus, mesmo que para mantê-la seja necessário cometer um crime. Na doutrina oficial da Igreja Católica, esse princípio aparece desde o século XIII, quando São Tomás de Aquino escreveu a Suma Teológica, defendendo que a propriedade não podia ser um bem acima dos seres humanos.

Se as religiões dizem que não é pecado, as leis dizem que não é crime. No Código Penal, artigo 23, está escrito que não há crime quando se pratica um ato em "estado de necessidade". Já no século II a.C., o filósofo grego Karneades escreveu seu clássico do direito penal, a Tábua de Karneades, dizendo que, quando dois náufragos encontram uma tábua no oceano em que só um pode se apoiar, é legítimo que o náufrago que chegou primeiro despache o outro para o fundo do mar, matando-o. Isso é "estado de necessidade". É o que vive a dona de casa Maria de Lourdes Pereira, 48 anos. Doente, sem a renda da mãe que morreu há um ano, com um filho de 12 anos que sofre de problemas mentais, ela entrou no inferno. Na semana passada, dona Maria conversava com VEJA na sua casa, dizia que há dois dias não punha nada salgado na boca e, de repente, desmaiou. De fome. Levou meia hora para ser reanimada. Histórias assim começam a se repetir com mais insistência. Não se deve esperar que tenham um final satisfatório cobrando providências apenas do governo federal, o alvo mais visível de quem gosta de apontar o dedo acusador para Brasília sempre que alguma coisa dá muito errado no terreno social. O drama da seca só será resolvido se outros agentes igualmente responsáveis entrarem em ação. A Igreja, por exemplo. Ou melhor, as igrejas. E também as prefeituras, as associações comerciais e as entidades de classe. Toda a sociedade tem de querer acabar com esse velho drama. Senão, 1998 será para as vítimas da seca apenas mais um ponto negro no calendário. Seguido de muitos outros iguais.

As montanhas estocadas

Armazém no Distrito
Federal: um mar de
grãos repousando
entre quatro paredes
Foto: Ricardo Stuckert  

Quando se está diante de uma catástrofe como a seca no Nordeste, vale lembrar que o governo possui estocados, nos armazéns sob sua responsabilidade, 5 milhões de toneladas de comida. É alimento suficiente para proporcionar uma dieta passável para 10 milhões de famílias carentes durante um período de sete meses. Originalmente, esse alimento é comprado e vendido pelo governo por um motivo econômico -- para evitar que o preço da comida suba demais, ou então que caia demais, levando os agricultores à falência. Mas, em caso de emergência, pode-se recorrer a ele para evitar tragédias. Mesmo porque uma pequena parte desses 5 milhões de toneladas parece ser suficiente para evitar o agravamento da situação.


A luta contra o problema secular


Foto: Claus C. Meyer
Medici e Pedro II: esforços inúteis

Seca, fome e saques são partes inseparáveis da história do Nordeste há praticamente três séculos. Em 1724, o capitão-mor da Província da Paraíba, João de Abreu Castelo Branco, escreveu ao rei de Portugal, dom João V, pedindo ajuda para enfrentar a seca que havia provocado uma onda de saques. O monarca respondeu afirmando que a ajuda seria inútil. "A causa da indigência e da miséria desses povos é a ociosidade ou a preguiça dos moradores", escreveu. A maneira de ver o problema mudou, mas poucas vezes os governantes chegaram a enfrentá-lo. Em 1877, durante uma das piores estiagens da história, metade da população de Fortaleza, na época em torno de 120.000 pessoas, morreu em conseqüência da fome e das doenças trazidas pelos retirantes. O imperador dom Pedro II, comovido, chorou com a notícia e prometeu vender "até a última jóia da coroa" para resolver o problema. Nomeou uma comissão para tratar do assunto. Das recomendações dos peritos, que incluíam da distribuição de terras à construção de ferrovias, a única que saiu do papel foi um açude.

No século XX, os governos militares foram os que mais se preocuparam com a seca. O presidente Emílio Medici fez uma visita de três dias ao sertão, em 1970, e voltou prometendo um pacote de medidas. Mas, segundo os especialistas, o que mais contribuiu para reduzir a catástrofe foi simplesmente a migração. Nos últimos vinte anos, a população na área mais atingida pelas secas caiu pela metade, diminuindo o número de flagelados em potencial. Até por isso, a seca nordestina não se equipara a outras grandes catástrofes da fome. Na Irlanda, no século passado, uma praga nas plantações de batata provocou uma grande fome que matou 1 milhão de pessoas e forçou outro milhão a emigrar. Na Etiópia, 7 milhões de pessoas morreram em 1984 por causa da fome provocada pela seca e alimentada pela guerra civil. O que esses fenômenos têm em comum é que todos são iniciados por uma catástrofe da natureza e agravados pela omissão humana.

Com reportagem de Ana Pessoa, Cíntia Campos,
José Edward, Juliana de Mari, Ricardo Balthazar,
Rogério Gentile, Sandra Brasil e Vladimir Netto




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