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Cinema O
Star Trek de J.J. Abrams é uma delícia de filme,
Exibida a partir de 1966, com índices de audiência que a rede NBC considerava nunca menos que decepcionantes, a série Star Trek era um triunfo do otimismo numa era de paranoia: uma ficção científica em que a humanidade e outros povos da galáxia conviviam em paz numa "Federação", em que a tripulação da nave Enterprise, que juntava de negros a orientais e um escocês e até um russo! , não conhecia rivalidade, só cooperação, e em que todos os problemas de deslocamento, a curta e grande distância, já estavam resolvidos, pelo "teletransporte" e pela "velocidade warp". Como medida realista, por assim dizer, o criador Gene Roddenberry incluía nos enredos alguns alienígenas belicosos, a exemplo dos feiíssimos klingons, que obviamente estavam ali fazendo o papel de soviéticos até no fato de que a Federação sempre derrotava suas ameaças, e no fato não menos importante de que essas ameaças sempre se renovavam. Star Trek foi um exemplo de otimismo também em outro sentido. Cancelado em 1969, o programa foi ressuscitado pelo amor dos fãs, primeiro em convenções às quais eles iam vestidos como seus personagens favoritos e depois, dadas as evidências mercadológicas, em um punhado de novas séries e longas-metragens com a marca. Nada, porém, superou em adoração a série original. E é ela que o diretor J.J. Abrams afetuosamente ressuscita em Star Trek (Estados Unidos, 2009), que estreia nesta sexta-feira no país e que, contra todas as expectativas que não fãs e não nerds possam nutrir, é uma delícia de filme. Abrams confessadamente não é fã de carteirinha de Star Trek. Mas é um jogador arguto na indústria do entretenimento: criou as séries Alias e Lost (ótimas nas temporadas iniciais, nem tanto nas seguintes), produziu Cloverfield, que era mais um truque do que um filme, e fez um bom trabalho à frente de Missão: Impossível III. Estava assim em posição privilegiada para apreciar as exigências de um projeto como este: nem ficou cego aos deméritos de sua fonte, nem foi bobo de desrespeitar os fãs. O filme mostra como um punhado de jovens cadetes da Federação se junta por acaso na viagem inaugural da Enterprise e, ao final da missão, terminará por se amalgamar em sua tripulação clássica. Mas dá aos personagens muito o que fazer, em uma trama surpreendentemente sólida. Chris Pine e Zachary Quinto (o Sylar de Heroes), que interpretam os icônicos Capitão Kirk e Sr. Spock, não são um arraso, mas seguram as pontas em parceria com atores de presença como Karl Urban (que revela um insuspeitado talento cômico no papel do Dr. McCoy) e Simon Pegg (o pândego engenheiro de bordo Scotty) além de Eric Bana, que finalmente achou de novo um desses papéis em que aparece com força, o de Nero, um vilão de inspiração, digamos, palestina. Leonard Nimoy, o Sr. Spock original, dá o ar da graça, as piadas são colocadas no tempo certo e o visual atualiza mas não desvirtua o da série original. Há vários pares de orelhas pontudas à vista, mas, bênção das bênçãos, o número de atores fantasiados com máscaras de látex foi limitado ao mínimo indispensável. Dosado assim, este Star Trek rompe a proverbial última fronteira: namoradas podem ser convidadas a ir ao cinema vê-lo sem medo. E, antes que se faça a piada quase inevitável, vale esclarecer que, desde que o mundo abraçou os nerds, eles são, sim, perfeitamente capazes de arrumar namoradas. Inclusive as do tipo que, até aqui, não teriam paciência para ficar discutindo a relação a relação entre Kirk e Spock, claro.
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