Revista VEJA
Betty Milan
Contenção e repressão
A vida depende do ensinamento da contenção, que não é sinônimo de repressão. Quem se contém o faz porque quer fazê-lo, e não porqueé obrigado pelos outros. Obedece a uma lei que não é exterior, mas que foi interiorizada
Privadas do uso normal do celular, as pessoas esperavam pacientemente a vez para falar com os familiares
Yomiuri/Reuters
A cidade é nossa. Li essa frase descendo uma das ruas do Pacaembu, em São Paulo. Estava escrita em letras garrafais no muro recém-pintado de uma casa. Ela chamou minha atenção e não me saiu da cabeça. O que significava a palavra “nossa”? Poderia significar que a cidade é um bem comum e todos são responsáveis por ela. Mas, por estar num muro recém-pintado, lamentavelmente significava que todos podemos dispor da cidade como bem entendermos.
O significado me remeteu às águas negras de entulho do Rio Tietê, aos bueiros das ruas de São Paulo obstruídos pelo lixo, ao horror das inundações: a terra que desaba, o barraco soterrado e os moradores sujeitos ao pior. São Paulo, Rio de Janeiro e o resto do Brasil, onde ainda dispomos do espaço como bem entendemos. Pensei no autor da frase. Ele, decerto, escreveu com uma fantasia prazerosa de onipotência. Porém fez isso à noite, furtando-se ao olhar dos outros. Não era livre, era escravo do desejo de ser onipotente. Escreveu, mas sabia do risco de ser pego em flagrante e sofrer as consequências.
Ninguém é livre por fazer o que bem entende, e sim por desejar fazer o que pode. Na cidade ou no campo, no rio ou no mar, no espaço inteiro do planeta. Terremotos, tsunamis, tempestades: a sobrevivência requer autocontrole, além de impor a prevenção. Exemplo disso são os japoneses, que controlaram a repercussão do terremoto devastador pela localização judiciosa da maioria das construções e pela forma como a construíram.
A conduta de quem se norteia só pela própria fantasia não é livre, é perversa, pois faz do prazer a única lei do desejo. Visa somente à satisfação imediata e negligencia o estrago que pode causar. A vida depende do ensinamento da contenção, que não é sinônimo de repressão. Quem se contém o faz porque quer fazê-lo, e não porque é obrigado pelos outros. Obedece a uma lei que não é exterior, mas que foi interiorizada. Quem é reprimido deixa a contragosto de fazer o que deseja — e, por sentir-se contrariado, tende a valorizar a transgressão.
A contenção implica a consciência de que somos livres quando desejamos o que podemos. Ou seja, quando nossa liberdade leva em conta os outros. Para tanto, é preciso ser educado como no Japão, onde, apesar da tragédia que se abateu sobre o país, não houve violência, cenas de tumulto ou saque. Mesmo nesse momento extremo, a disciplina imperou nos abrigos improvisados e nas filas dos telefones públicos. Privadas do uso normal do celular, as pessoas esperavam pacientemente a vez para falar com os familiares. Uma lição de civilidade tão inesquecível quanto um terremoto que corresponde a 108.000 bombas de Hiroshima.
A psicanalista e escritora Betty Milan assina a coluna Consultório Sentimental em Veja.com. Uma vez por mês, ela publica em VEJA um artigo especialmente escrito para a revista impressa
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